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Gula

Era tarde da noite e o monge Fortunato entrou numa estalagem de beira de estrada; pediu ao estalajadeiro uma caneca de cerveja, um filão de pão e queijo de cabra. Gostaria de comer algo mais substancial, mas suas posses não o permitiam. Parecendo perceber o desânimo do seu estado de espírito, um homem moreno, de aspecto espanhol, sentou-se à mesa do lado oposto à ele.

- Posso fazer-lhe companhia em sua refeição? - Indagou o forasteiro.

- Desde que não vá pedir um pedaço do meu pão ou um gole da minha cerveja, tudo bem - alertou o monge.

- De forma alguma - tranquilizou-o o homem. - É que não gosto de comer sozinho.

Colocou sobre a mesa um alforje de couro surrado, do tipo que se usa em animais de montaria. Da extremidade esquerda, foi retirando um grande filão de pão de centeio, salsichas, duas maçãs, um pernil de porco, uma garrafa de vinho tinto e uma tigela de madeira com chucrute. Diante do olhar assombrado de Fortunato, começou a comer e beber de tudo.

- Bom Deus! Como coube tanta comida num alforje tão pequeno? - Indagou o monge, com uma ponta de inveja diante de tão lauta refeição.

- Ah, este não é um alforje comum - replicou o forasteiro, limpando a boca com as costas da mão. - Eu o ganhei por bons serviços prestados ao emir de Granada.

- E o que ele faz, exatamente? - Inquiriu Fortunato.

- Por mais que se tire dele, está sempre cheio de comida e bebida - assegurou o homem.

- Pois prove - incitou-o Fortunato. - Que tal uma perna de carneiro e uma caneca de cerveja?

O homem enfiou a mão no lado esquerdo do alforje e dali retirou as iguarias pedidas, as quais estendeu ao monge. Este as recebeu com os olhos brilhando.

- É a melhor perna de carneiro que já comi na vida! - Exclamou de boca cheia o glutão, ao mastigar a iguaria.

E após lamber os dedos e secar a caneca de cerveja, divagou:

- Gostaria de saber como o seu alforje produz a comida... se isso pudesse ser copiado... pense nas possibilidades!

- Quer mesmo saber? - Indagou o forasteiro, cotovelos apoiados na mesa, rosto apoiado nas mãos.

- Naturalmente! - Animou-se Fortunato.

- Na verdade, o método é bastante simples - comentou o forasteiro, dando uma olhadela cautelosa ao redor do salão da estalagem; este estava praticamente vazio, e ninguém olhava na direção deles. Então, empurrou o alforje para o monge e disse:

- Se abrir a boca do alforje e olhar do lado direito, vai entender como funciona.

Fortunato não pensou duas vezes. Fez como lhe fora sugerido e olhou para dentro da extremidade direita do alforje; no instante seguinte, viu-se dentro de um lugar escuro e abafado. Gritou, mas era como se apenas ele mesmo pudesse ouvir os próprios gritos.

O forasteiro ergueu-se e jogou o alforje sobre um ombro. Ao passar pelo estalajadeiro, entregou-lhe uma moeda:

- É para pagar pela refeição do meu amigo monge. Ele precisou sair às pressas.

E em frente da estalagem, à luz da lua, um cavalo preto o aguardava.

- [17-03-2020]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 17/03/2020
Reeditado em 18/03/2020
Código do texto: T6890401
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 57 anos
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Alex Raymundo