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Gritos

Havia essa casa arruinada, no caminho para Pecos pela rodovia 63. Ficava um pouco afastada da estrada, cercada de mato, no meio de algumas árvores que compunham o que restara de algum antigo pomar. O lugar era sombrio, e numa de nossas rondas noturnas, perguntei ao sargento McCluskey, que dirigia a viatura, se sabia o que havia acontecido ali.

- Um crime passional, em meados da década de 1960 - relembrou ele. - O sujeito matou a mulher, incendiou a casa, e se matou.

- Imagino que ninguém deve ter querido reconstruir a casa... - retruquei, fazendo uma careta.

- Quem herdou tentou passar adiante, mas o lugar é bem isolado, como pode ver. Além do mais...

Desviou brevemente o olhar da estrada, para me encarar:

- Há quem diga que, em determinadas noites, ouve-se uma mulher gritando nas ruínas da casa.

- Sério? - Indaguei, sem saber se o sargento estava de brincadeira.

- Eu mesmo nunca vi nem ouvi nada, garoto - asseverou McCluskey. - Mas também não sou louco de parar por aqui, numa noite sem lua.

Continuamos nosso caminho para Pecos, e não voltei a pensar na casa abandonada durante uns bons dois meses.

* * *

Desta vez, eu estava ao volante da viatura, acompanhado de um novato recém-chegado da academia, Sánchez. Seguíamos pela 63, sentido Pecos, e me lembrei da história que McCluskey me contara.

- Há essa casa abandonada, que vamos ver daqui a pouco... dizem que é mal-assombrada!

- Está tentando me assustar, Bronowski? - Redarguiu ele, com um sorriso de desdém. - Não acredito em nenhuma dessas besteiras.

Fazia uma bela noite de lua cheia, céu limpo, e achei que valeria a pena pôr a valentia do novato à prova. Afinal, o sargento só não recomendara aproximar-se do lugar em noites sem lua...

- Então, vamos parar no acostamento e dar uma olhada no lugar - sugeri, em tom casual.

O olhar que ele me deu, não parecia muito convicto.

- Tem certeza de que essa é uma boa ideia, Bronowski? Estamos no meio da patrulha...

- Vai ser só uma olhada rápida - insisti. - Descemos, olhamos e voltamos. Ou está com medo das assombrações?

- Que assombrações que nada! - Replicou Sánchez, indignado.

A rodovia estava deserta, e a noite tranquila e silenciosa. Antes que eu dobrasse a curva, além da qual estava a casa abandonada, ele virou-se para mim, assustado, e indagou:

- Você ouviu isso?

- Isso o quê? - Indaguei, surpreso.

- Gritos... gritos de mulher...

Engoli em seco: eu não falara nada sobre gritos de mulher para o novato! Engatei uma quarta, e passamos feito uma bala em frente à casa abandonada ao luar.

- Você não vai parar? - Indagou Sánchez, visivelmente aliviado.

- Voltamos outro dia... - prometi. - Durante o dia.

Certo mesmo, é que nunca cumpri minha promessa.

- [31-08-2019]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 31/08/2019
Reeditado em 01/09/2019
Código do texto: T6734203
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 57 anos
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