Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Projeção astral

Quando a Sra. B. entrou em meu consultório acompanhada do filho caçula, J., um rapaz de 18 anos de idade e aparência desleixada, percebi a tristeza no olhar dela. J., pelo contrário, parecia tranquilo e relaxado,em suas roupas amarfanhadas e barba por fazer. Sentaram-se nas duas cadeiras estofadas à frente da minha escrivaninha, e a Sra. B. começou a falar:

- Conforme prometido, aqui está ele, doutor.

J. lançou um olhar de curiosidade para a bandeja de prata com cristais de sal-gema sobre a escrivaninha, mas nada disse.

- E como conseguiu isso, Sra. B.? - Indaguei, mãos entrelaçadas, ignorando propositalmente o rapaz.

- Da última vez em que o levaram ao tribunal, o juiz determinou que meu filho deveria procurar ajuda profissional... ou iria para a cadeia.

Abri as mãos, antebraços apoiados na escrivaninha.

- Parece justo - provoquei.

E, como J. continuasse alheio à conversa, voltei-me para ele:

- O que você acha, J.? Preferiria ir preso?

O rapaz olhou-me como se estivesse me vendo pela primeira vez.

- Eu sou inocente - declarou num tom aborrecido.

- Parece que não tem sido essa a opinião dos juízes, em todos os casos em que você foi levado à justiça - insisti, sem deixar de fazer contato visual com ele.

J. desviou o olhar e abaixou a cabeça.

- A justiça é corrupta. As acusações que me fizeram são falsas - resmungou.

A mãe suspirou ao ouvir o comentário.

- Desculpe, filho, mas eu te ouvi afirmar, vezes sem conta, os mesmos absurdos que costuma escrever nos tais fóruns da internet. Que pessoas assim e assado deveriam morrer porque são inferiores ou imigrantes, ou não seguiam a religião da maioria.

- Há muita gente que pensa como eu - retrucou o rapaz, erguendo a cabeça. - Pessoas importantes. Políticos, até. Muitos não dizem isso em público, por terem medo da reação de gente covarde.

- Gente covarde é quem é contra a morte de pessoas diferentes delas, apenas por serem diferentes? - Questionei, movendo a disposição dos cristais na bandeja.

- Essas pessoas não deveriam estar no nosso país - rosnou J. - Se algo ruim acontecer, foram elas mesmas que procuraram. Bastaria terem ficado em sua terra de origem!

- Então, quem procura o nosso país em busca de proteção, é culpado pela hostilidade que desperta?

- Você não é um bom terapeuta - atalhou J., rosto vermelho.

Abri a gaveta superior da escrivaninha, e segurei o cristal de quartzo que ali guardava para emergências.

- Eu não sou um terapeuta, J. - repliquei.

Em seguida, coloquei o cristal sobre a bandeja de prata. J. deu um grito.

- Seu maldito!

Os olhos azuis do rapaz ficaram totalmente negros por alguns instantes, os dentes arreganhados e os músculos retesados como se fosse pular em cima de mim. Mas não fez nada disso. Ante o olhar apavorado da mãe, desabou desmaiado na cadeira.

- Doutor! O que houve com ele? - Exclamou a mãe.

- Calma, Sra. B., já vai passar - redargui. Levantei-me, fui até J. e com o auxílio de um par de tenazes de bronze, retirei o celular preto que ele trazia no bolso superior da camisa de flanela. Coloquei o objeto sobre a bandeja de prata, e depois joguei sal rosa do Himalaia, moído bem fininho, sobre ele. J. recuperou a consciência, olhos bem arregalados - e azuis.

- Onde estou? - Murmurou, aturdido.

- Entre amigos - respondi, de pé ao lado dele. Apontei para o celular coberto de sal e alertei:

- Vou ter que destruir isso.

J. lançou-me um olhar de apreensão.

- Ei, meu celular não! A minha vida está nele!

- Então está na hora de retomar o controle dela - repliquei, destapando o queimador de incenso tibetano que mantinha sobre um aparador de ferro junto à porta do consultório. Acendi o fogo, misturando sal e incenso, e atirei o celular dentro, tapando em seguida. O incensário retiniu, como se houvesse sido atingido por um golpe de martelo, e deixou escapar uma nuvem de fumaça negra e acre.

- Um último conselho - disse para J. após voltar para o meu assento. - Nunca mais compre celulares de origem desconhecida. Você pode acabar descobrindo, da pior maneira possível, que ele possui mais funções do que as que estão descritas no manual do fabricante...

- [17-04-2019]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 17/04/2019
Reeditado em 18/04/2019
Código do texto: T6626172
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Texto original do site http://recantodasletras.com.br/autores/raymundo.). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 57 anos
1646 textos (89627 leituras)
1 áudios (36 audições)
1 e-livros (15 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/19 05:06)
Alex Raymundo