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Nhá Santana

                                        NHÁ  SANTANA....

     Nhá Santana morava pros arredores do Sertão de Terra Nova nos confins do município de Arraias Goiás , hoje Tocantins. Sua casa de pau-à-pique, paredes de bolos de barro misturado com esterco de gado,, sustentados por tabocas entrelaçadas , amarradas com cipó tripa de galinha e caprichosamente coberta com palhas de coco pindoba.
     Na velha casinha moravam seu filho Severino, a nora Gertrudes e o neto Sebastião, tratado carinhosamente como Tiãozinho.
     Severino era exímio vaqueiro do coronel Menelau e cuidava do gado solto nas campinas, sua mulher amarela e desdentada cuidava da cozinha e da casa e ajudava Severino no campo na tocação do gado de vez em quando, a velha Santana, já com uns setenta e cinco anos, fazia renda, fiava na roda, lavava os poucos copos, panelas e utensílios menores, cuidando também do netinho que na época contava com seus oito anos de idade...
     No mês de novembro de mil novecentos e cinquenta e oito, se não me falha a memória, justamente no início do mês o dia amanheceu gorduroso do chuva. Ninguém enxergava nem a serra do Bom Despacho, o Corguinho da Gameleira, tão pequeno, tão mesquinho, agora era um paranã de água, o porco no chiqueiro tava atolado até as ventas, as galinhas procuravam refúgio à beira da casinha, se amontoando uma as outras, o cachorro Destemido, se escondia embaixo do fogão de lenha .era um verdadeiro dilúvio do sertão!!!
      Para surpresa de todos no outro dia o sol brilhou imponente, enxugando devagarzinho tudo que tava molhado, urubu secou as asas e voou, o rio baixou, as galinhas foram ciscar no terreiro, mas uma chuvinha fininha teimava de cair, chuva de molhar besta como dizem no sertão.
     -Tiãozinho faça um “olho de boi aí no chão pra esta chuvinha parar e nóis ir pras campinas pegar pequi e caju! (o olho de boi consiste em colocar o calcanhar descalço no chão e rodar o pé com o dedão como um compasso, fazendo um círculo perfeito)
     -Tião, doido pra pegar caju, obedeceu de pronto-Fez cinco olhos de bois, ligeirinho...
     -Pronto vó, tá feito...
     - Pera aí, que já a chuva passa...
      Decorrido, mais ou menos, meia hora a chuva sessou por completo e o sol saiu majestoso...
     
Os dois pegaram seus cacarecos, um pedaço de facão velho, um saco de estopa, uma cordinha de piaçaba, uma cabaça, um artifício de acender fogo e caíram no brachiária, foram saltitando pegar caju e pequi...
- Esse pé aqui vozinha está carregado demais, chega tá vremeinho de caju,  e dos doce é caju escuro e os do chão beliscado de formiga parece mel. Gritou Tião que ia na frente aos pulos e antes de ajuntar os cajus já ia chupando-os antes da velha chegar...Tião subia no cajueiro, sacodia as galhas e o caju forrava o chão, sendo colhidos pela velhinha...
     Pegaram caju, pequi, comeram marmelada da cachorro, rizina de angico e cagaita do campo.
     O céu escureceu de repente, os relâmpagos abriam portas na escuridão e São Pedro sacudia os couros dos trovões. Chuva, chuva às tuias!!!
     Vamo pra casa Tião, já tá ficando truvo!
      Andaram na escuridão por mais de hora, mas estrada que é bom mi livre! Nadica de nada de encontrar. Estavam irremediavelmente perdidos!!!!
     Severino e a mulher chegam do campo, encostam os animais no bezerreiro, tiram os arreios, pendura-os ali na travessa do curral, soltam os animais no pátio e quando chegam em casa, não avistam ninguém.
     -Donde foram esses danados, com essa chuvarada só? Gritam dali, gritam pra acolá, nada, ninguém respondem- Escafederam, sumiram, diz a mulher!!! E agora, fazer o quê? Pergunta Severino. Sentam-se no tamborete de madeira, colocam os rostos entre as mãos e suspiram!- Vou dar uma volta aí pra vê se encontro, coitados! Devem estar tremendo de frio com essa chuvarada danada!
     Severino pegou novamente o cavalo, arriou, montou e saiu como doido sem rumo, sempre gritando, gritando pelo nome do filho...
     Gestrudes não teve nem coragem de cozinhar a janta, ficou chorando e rezando, rezando pra todos os santo de que se lembrava...
     Madrugada alta chega Severino, molhado e tremendo de frio e fome, desapeia cambaleando, abraça e mulher e geme: Nem sinal deles, nem sinal...
     Os pais passaram a noite às claras, pela manhã foram nos vizinhos pedir ajuda e ver se os desaparecidos tinha andado por lá. Ao meio dia já se ajuntavam dezenas de vaqueiros montados em seus cavalos prontos para procurarem a velha e o menino...
     -Nhá Santana amanheceu deitada embaixo dum pé de pequizeiro, com o menino enrolado em sua saia rodada. Dormiram pouco, mas cochilavam de quando em vez, dominados pelo cansaço.
     Tamo perdidos vó?
     Nada, tamo não, jazica chegamo-Tô conhecendo os carreiros...
     Nhá Santana não queria esmorecer o netinho, encorajava-o de todas as maneiras...
     -Tô cum fome vó!
    - Vamos cumê uns cocos tucum que é bom...
     E assim iam andando sem rumo, e sem destino...Cada vez se distanciando mais do rancho onde moravam...
     Os cavaleiros andaram o dia todo, procuravam os rastros, mas a chuva tudo apagava com sua teimosia marrenta.
     -Chegou à noite e Horácio que era o melhor montador do sertão, amansador de burro bravo falou:
Vamos pra casa, tá ficando escuro e chovendo muito, amanha nóis continua..
      Severino chegou em casa já a noitinha, cabisbaixo, encontrou a casa cheia de velhinhas rezando o Bendito e outras rezas fortes pra os santos ajudarem a encontrar os perdidos.
      No outro dia bem cedo os companheiros já estavam às portas de Severino, apearam-se tomaram um chá de capim-santo, comeram uns tacos de beiju e seguiram pelo sertão a dentro...
      Mais um dia em vão, voltaram canados, molhados e famintos, cada um foi pra sua casa prometendo retornarem dia seguinte.
      Já se faziam dez dias nesta peleja, procuravam, procuravam e nada de encontrar ninguém, já estavam desanimado, Quelemente cochichou com um companheiro que vinha mais atrás- Sabe, tamo perdendo tempo, ou morreram de fome ou frio ou a danada da pintada já comeu!-Vire essa boca pra lá sujeito, deixa de praga, retrucou Horácio, que não desistia nunca...
     -Enquanto isso, Nhá Santana, magrinha, pernas tortas, parecia um guerreiro espartana, lutava contra os garranchos, espinhos, grotas cheias de água, a fome e o frio e sempre encorajando e protegendo seu netinho.
     -Sabe Tião, dizem que por aqui tem um monte encantado!
     -Encantado de quê vó?
     -Nesse monte tem uma gruta, cheia de ouro e diamantes, dizem que os Bandeirantes e os revoltosos dormiram nessa gruta e a porta da gruta se fechou e todos morreram e deixaram essa riqueza toda. Quem sabe a gente dá de cara com essa gruta, heim? E aí tamo tudo rico, né?
     -É mesmo vó,é por isso que tamo andando tanto? Né?
-Isso mermo fio, nóis vai acha essa gruta. O povo tinha medo dos bandeirantes e dos revoltosos, sabe?
- Pro quê?
-Eram marvados, levavam os muiés dos home, matava o gado pra cumê, roubavam os cavalos e ainda capavam os home...Na epra, tinha inté uma musca, eu me lembro.
- Canta aí vó..
-Era ansim:”Me avisaram que revorta evém
Capando os home e as muié tombém...”
O menino deu uma risada e saiu pulando, agora de olhos bem abertos para vê se deslumbrava alguma montanha onde estava a gruta...
- No sítio de Severino, não ia mais ninguém, foram se afastando, afastando, pois já se passara mais de mês de buscas e todos, se não falavam pensavam, já morreram, já se foram...somente Horácio continuou com Severino a procura dos perdidos...
Nhá Santana a essa altura tinha adoecido, tossia muito, andava um pouco e sentava, às vezes num cupim, ou numa tora de pau, enquanto o menino que ia sempre à frente tinha que parar para espera-la, quando perguntava tá cansada vó?- Não Tião, tou estudando o rumo certo da montanha, acho que tamo perto.
       Passado mais de mês, Nhá Santana, já delirando de cansaço, exaurida pela intensa caminhada e debilitada pela idade avançada, depara-se com um pé de angico branco e reconhece a árvore-Era aqui que eu vinha panhar uns páus de lenha, a se era, tô conhecendo. Andou mais um pouco e viu o Corguinho onde apanhava água na cabaça. Grita,Tião! Tamo chegando meu fio, tamo chegando!!! O menino parou olhou para a vovó e perguntou: Tá vendo a montanha vovó? E a gruta?- Não Tião tamo chegando em casa!!!
        Severino estava sentado nos paus do curral, pensando nos dois, quando, por milagre dos anjos avistou-os a uns duzentos metros, não acreditou no que estava vendo, esfregou os olhos, firmou as vistas, e saiu correndo como louco, gritando milagre, milagre, graças a Deus, Graças, Graças...Corria com os braços abertos, sorrindo e chorando ao mesmo tempo, corria em direção ao seu filho e sogra que já haviam sido dados como mortos...
Abraçou o filho, levantou-o nos braços e afagou a sogra agradecido...Neste instante, na correria sentiu um espinho a furar-lhe os pés descalços. Não se importou, também, já quantas vezes e mais vezes tinha furado o grosso pé em espinhos em tocos e tudo mais, o que importa é a volta de meu filho, pensou!!!
Gritou por Gestrudes, sempre com o filho nos braços, parecia que não queria soltá-lo mais nunca, mais nunca...Sentou-se no banquinho de couro de boi, beijava o filho e agradecia a Deus pela graça recebido.
     Daí a pouco, o sangue corria no seu pé esquerdo, mais ele não dava a mínima, o ferimento foi inchando e Severino começou a embaçar as vistas, quando entra seu amigo Horácio dizendo: Compadre matei esta cascavel que estava de bote logo ali perto da porteira do curral...!!!!
     Severino não pode comemorar muito, morreu a noite, botando sangue pelos cabelos e nariz. Foi enterrado ao lado do pé de angico grande. Depois do enterro todos foram para suas casas e Gertrudes, murmurava,:Deus, me deste de volta o vilho e a mãe e me tiraste o esposo! Não compreendo Pai! Como pode ser bom e mal ao mesmo tempo? Eu não entendo Pai!!! E passou a noite alegre e triste, até que o dia raiou...
     Pela manhã, amanheceu uma chuvinha fininha, fraquinha, chuva de molhar bobo- Sinhá Santana vira pro neto e diz:
“ FILHO FAZ UM OLHO DE BOI AÍ, PRA CHUVA PARÁ PRA NOIS IR PEGAR CAJU!!!!!”
                                                                                                                                       

Laerte rocha
Do meu próximo livro
Lamentos

 

Laerte Rocha
Enviado por Laerte Rocha em 14/04/2019
Reeditado em 26/09/2019
Código do texto: T6623464
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Laerte Rocha
Arraias - Tocantins - Brasil
45 textos (5316 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 13/12/19 05:50)
Laerte Rocha