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Frio na espinha

Aileen Hughes abraçou a irmã caçula, Alison, ao despedir-se dela na porta de casa. O marido de Aileen, Everett, já estava ao volante do carro, olhando impaciente para o relógio de pulso.

- Novamente, muito obrigada pelo favor, irmã! Sexta de manhã estaremos de volta!

- Vá logo antes que Everett venha te puxar pela orelha! - Gracejou Alison.

Observou a irmã correr para o automóvel, ocupar o banco do carona e colocar o cinto de segurança. Aileen acenou para ela, enquanto Everett espichava a cabeça pela janela fazendo uma recomendação final:

- Nada de TV para os garotos depois das 21 h, cunhada!

- Sim senhor! - Retrucou Alison com uma piscadela, colocando-se em posição de sentido.

Everett ergueu um sobrolho e deu partida no carro. Alison aguardou no batente da porta, até que dobraram uma esquina e os perdeu de vista. Olhou então para ambos os lados da rua residencial, com casas espaçadas em meio a gramados verdejantes e  árvores ao longo da calçada. Tudo estava tranquilo e silencioso no crepúsculo suburbano, nenhuma alma à vista. No céu, nuvens cinzentas se amontoavam, ameaçando chuva para mais tarde.

Sentindo que ali fora estava esfriando rapidamente, ela entrou na casa de dois pavimentos e fechou a porta atrás de si.

* * *

- Nove horas, crianças! - Alertou Alison, consultando o relógio de pulso. - Vamos escovar os dentes e ir para a cama!

Os gêmeos, Kamron e Kyree, de 7 anos de idade, protestaram.

- Só mais cinco minutos, tia!

- Nem mais cinco minutos! Quando vocês começarem a trabalhar, podem tentar esse truque para ver se funciona...

Subiu as escadas para o andar superior atrás dos sobrinhos, para certificar-se de que realmente iriam escovar os dentes e depois os escoltou até o quarto que dividiam. Deu um beijo de boa noite em cada um, acendeu uma luminária de tomada para que pudessem enxergar o piso caso quisessem ir ao banheiro durante a noite, e fechou a porta sem trancá-la. Depois, desceu para a sala de TV, onde aboletou-se no sofá para assistir um seriado policial. Como teria que levantar-se cedo para despachar os meninos para a escola, desligou a TV por volta de 23 h. Ao apagar a luz do aposento, olhou casualmente para a janela que dava para o quintal da casa, e, à luz de um relâmpago, viu algo que a fez sentir um frio na espinha: havia lá fora a estátua de um querubim sobre uma coluna grega, portando um arco e flecha como se fosse um cupido mal-intencionado. A flecha estava inequivocamente apontada na direção dela. Antes que novo relâmpago iluminasse a cena, Alison encheu-se de coragem, foi até a janela e fechou as cortinas.

Sentindo-se mais aliviada, dirigiu-se à cozinha para preparar um copo de leite quente e no momento em que o mesmo ferveu, uma chuva pesada começou a cair. Desligou o fogão, encheu um copo de leite e estava sentada em frente à uma mesa dobrável quando o telefone da residência começou a tocar. Como havia uma extensão na cozinha, ela ergueu-se e atendeu.

- Oi Alison! Sou eu! - Ouviu a irmã dizer do outro lado da linha.

- Oi Aileen! Já estava indo dormir... começou a chover forte aqui!

- Desculpe, esqueci do fuso horário... aqui é uma hora mais cedo!

- Não, tudo bem, sem problemas. Fico feliz em ouvir sua voz, irmã... fizeram boa viagem?

- Muito tranquila, o voo saiu no horário, chegamos no hotel faz 15 minutos. E as crianças, como estão?

- Eu os pus para dormir às 9 h, pode tranquilizar o Everett - troçou Alison.

- Você, eles obedecem - suspirou Aileen.

- Só uma coisa, irmã - atalhou Alison. - De quem foi a ideia de colocar a estátua do anjo no quintal? Quase morri do coração quando vi aquela coisa!

Do outro lado da linha, silêncio. Alison só ouvia a chuva caindo pesada sobre e ao redor da casa.

- Aileen... você está aí? - Indagou Alison preocupada.

Aileen pigarreou.

- Desculpe, Alison. Você falou... anjo?

- Um cupido, creio eu. Bom, você deve saber... está no seu quintal!

A voz da irmã pareceu vir de muito longe quando respondeu:

- Mas Alison... não colocamos nenhuma estátua no quintal!

Foi então que ela ouviu um barulho de vidro quebrado, vindo da sala de TV.

Em seguida, as luzes da casa se apagaram.

- [26-11-2018]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 26/11/2018
Reeditado em 27/11/2018
Código do texto: T6512681
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 57 anos
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Alex Raymundo