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970-O VIOLINO

O som suave e mavioso de um violino entrou no  quarto de Dafne, despertando-a de um sono leve como é o sono de toda donzela.
Jamais ouvira um som tão melancólico, atravessando a noite.
Sim, já assistira alguns concertos e apresentações de maestros, nas festas que o barão, seu pai, proporcionava aos amigos e aliados de armas.
Aquele som era diferente de tudo o que já ouvira: melodioso, envolvente, parecia emanar do próprio ar que a envolvia.
Dafne Levantou-se e abriu de par em par as folhas da janela do castelo e debruçou-se sobre o peitoril. Estava a uma boa altura e abria-se para o grande jardim, com árvores e canteiros floridos.
O som chegou-lhe ainda mais encantador.
“Estaria sonhando?” — pensou.
Vinha diretamente do jardim, bem debaixo de onde ela se encontrava, Procurou ver quem estava tocando o violino com tanta doçura. Nada viu, de início. Acostumando-se com a escuridão entre as árvores, conseguiu ver um vulto. Surpresa, muito surpresa, ficou quando reconheceu no violinista o jovem que, na manhã daquele dia, se apresentara no castelo do barão como professor de música, trazendo sob o braço o violino.
Ela estava presente quando ele chegou e seus olhos se cruzaram. Foi como se uma faísca intensa percorresse entre os olhos de ambos. Num átimo, Dafne e o violinista entenderam o que acontecia entre eles. Uma força além de suas forças os atraia, com intensidade quase que insuportável.  Contiveram-se, entretanto,
— Não precisamos de mais gente aqui no castelo, seja professor de música seja de serviçais.
Assim, o barão dispensou o jovem, sem sequer oferecer-lhe um naco do carneiro assado à mesa ou um copo de vinho servido na refeição.
E agora, ali estava ele, como se fosse um sonho, executando delicadas árias no instrumento tão magistralmente tocado.
Sonhando nas notas das músicas, Dafne, linda e suave moça rememorava outras ocasiões em que musicas haviam sido executadas porém em nada comparáveis com a serenata do violinista desconhecido.
O barão, seu pai, viúvo, não se importava com música, nem com os poemas declamados pelos trovadores ambulantes. Durante as apresentações que eram feitas mais para agradar seus amigos, Dafne observava o barão, cujos olhares demorados em direção às damas e para ela mesma, Dafne, mostravam que seu interesse eram bem outros que a musica ou a poesia.
De repente, acordou de seu devaneio, ao ouvir outros sons: latidos e gritos, vociferações e incentivos aos ferozes cães de guarda do castelo.
O violinista parou de tocar ao mesmo tempo em que começou a correr por entre as árvores.
Aterrorizada, viu quando o jovem músico foi alcançado pelos cães, caindo de borco e sendo dilacerado pelas presas afiadas dos cães e morto pelos guardas, todos sedentos de sangue.
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Recostada em sua enorme cama, sob o dossel de rendas velhas e encardidas, Dafne permanece lonas horas na mesma posição. Cada movimento é como se milhares de agulhas lhe fossem fincadas na pele e nos músculos. Ainda assim, sente um cansaço indefinido e uma vontade de morrer.
É de manhã. A criada já a arrumou para o dia, trouxe-lhe a refeição matinal (que ela pouco ou quase nada comeu) e a deixou descansando.
Ao seu lado, no leito recém arrumado, a criada colocou, como fazia todos os dias, um violino velho e desgastado como a própria patroa.
Dafne pega o violino e o acaricia. É como se estivesse acariciando a face, os braços, o corpo do violinista, que há muito e muitos anos lhe fizera a última serenata.
As lembranças perpassam pela mente, como acontece toda vez — isto é, diariamente — que passa as mãos pelo instrumento. Um pouco lascado, cordas arrebentadas, permanece tal e qual ela o encontrara, na manhã seguinte à morte do seu dono.
Descera bem de manhã, antes mesmo de se dirigir à refeição matinal com o barão, e percorrera o caminho que o seresteiro fizera, até ser morto cruelmente.
Marcas de sangue e de luta marcavam o curto percurso. Debaixo dos galhos baixos de uma árvore estava o violino. Lascado e com as cordas arrebentadas. Recolheu-o e levou consigo
À mesa estava posta para a refeição matinal e seu pai já a iniciara. Sentou e colocou o violino num banco ao seu lado.
— O que é isto? — perguntou o barão, com a rispidez habitual.
— O violino do...
— Jogue for. Não quero ver isto aqui no castelo.
Não obedeceu ao pai e o guardou em seu quarto.
A morte cruel do violinista ficou em sua memória como uma chaga que doía sempre. Nunca mais saiu do castelo. Ficou triste e sem entusiasmo para a vida.
O que não impedia os olhares estranhos de seu pai, que ela não compreendia.
Parece que sua vida estava sob o signo da tragédia. O barão morreu sob trágicas e inexplicáveis circunstâncias — e deixou a lenda que assombrava o castelo.
A degradação do castelo era visível.  Agora estava ela solitária. Apenas dois devotados serviçais permaneciam em sua companhia. Ninguém queria trabalhar em um luar com fama de mal assombrado.
Todos deixaram o castelo.
Todos a abandonaram.
Até mesmo os três filhos que o barão, seu pai, gerara em seu ventre.

Belo Horizonte, 3 de novembro de 2016.
Conto  #  97O da  Série 1.OOO Histórias










Antonio Roque Gobbo
Enviado por Antonio Roque Gobbo em 23/02/2017
Código do texto: T5921980
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Antonio Roque Gobbo
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 84 anos
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Antonio Roque Gobbo