PORQUE O GARUPA DA MOTO NÃO CONSEGUIA RESPONDER?

 

Na Porto Alegre dos anos 50, João Neri sentia o vento no rosto enquanto conduzia sua Lambretta pelas ruas arborizadas da cidade. Na carona, seu irmão Walter, sempre companheiro de aventuras, segurava firme na alça a sua frente, pois a Lambretta tinha bancos separados. 

A dupla resolveu dar uma pequena parada na praia de Ipanema. Aquele trecho à beira do Guaíba era um dos locais preferidos dos dois para apreciar a paisagem e trocar histórias.

Após alguns minutos contemplando a paisagem, João Neri deu a partida na Lambretta, chamando o irmão para subir na garupa. Sem olhar para trás.  Naquela época, os capacetes não eram obrigatórios, o que permitia que os dois conversassem sem barreiras. E João Neri aproveitava essa liberdade para puxar assunto:

— E então, Walter, o que achou da praia hoje? As águas estavam mais altas do que de costume, não acha?

Nenhuma resposta.

— Walter? — insistiu, erguendo um pouco a voz acima do ronco característico do motor.

Ainda nada. Um silêncio estranho, que se misturava ao som do vento cortando seus ouvidos.

Intrigado, João Neri ergueu levemente o tom de voz:

— Ei, está me ouvindo? Ficou sem palavras agora?

A inquietação tomou conta. Ele  virou-se para trás. O choque veio como um golpe súbito: a garupa estava vazia. Walter não estava lá!

O sangue gelou. O pânico tomou conta. Como aquilo era possível? Em que momento o irmão havia caído? Teria se machucado? João Neri apertou o freio com força, fazendo a Lambretta deslizar alguns metros antes de parar completamente. A adrenalina disparava em suas veias enquanto girava a moto e acelerava de volta pelo mesmo caminho, olhos atentos à estrada, buscando qualquer sinal do irmão caído. Seu coração pulsava forte, a culpa já o corroendo por dentro. Como não havia notado? Como pôde seguir viagem sem perceber a ausência do próprio irmão?

Foram minutos que pareceram eternos. . Ao se aproximar novamente da praia de Ipanema, seus olhos finalmente avistaram uma figura conhecida. Lá estava Walter, parado à beira da calçada, acenando de maneira exagerada.

— Seu louco! — gritou Walter, quando João Neri se aproximou. — Você foi embora sem mim! Eu gritei, corri atrás.

— Meu Deus, Walter! Eu achei que você tinha caído da moto!

O rosto de João Neri se contraiu em um misto de indignação e incredulidade. Depois de um breve silêncio, ambos caíram na gargalhada, deixando o susto se dissolver no ar.

— Da próxima vez, avisa quando for ficar! — brincou João Neri, ainda tentando recuperar o fôlego.

— Da próxima vez, vê se olha antes de sair voando por aí! — respondeu Walter, sorrindo.

E assim, com as risadas ainda ecoando no ar, os irmãos retomaram seu passeio, agora, com João Neri tendo absoluta certeza de que Walter estava na garupa.

 

Neri Satter - Março de 2025   CONTOS DO SCARAMOUCHE

 

Scaramouche
Enviado por Scaramouche em 28/03/2025
Reeditado em 31/03/2025
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