A OUTRA FACE

A Outra Face

Cardoso I

O primeiro paciente chegou numa manhã nublada. Caminhava como se não estivesse ali, os olhos opacos, sem qualquer vestígio de vida. Sentou-se na poltrona do consultório e ficou em silêncio.

— Seu nome? — perguntou Nico, caneta em punho.

O homem piscou devagar. Sua boca se abriu, mas nenhuma expressão acompanhou a fala:

— Eu não lembro.

Nico estudou o rosto do paciente. Nenhuma ruga de preocupação, nenhum franzir de sobrancelhas, nenhuma hesitação no olhar. Era como se alguém tivesse apagado suas emoções, arrancado sua humanidade.

— E o que o trouxe aqui?

— Eu acordei assim. Algo… algo levou minha face.

Nico sentiu um calafrio rastejar pela espinha.

— Algo?

— No espelho — sussurrou o homem. — Eu vi minha outra face. E então… sumiu.

Os casos começaram a se multiplicar. Em poucos dias, Nico atendeu quatro pacientes com os mesmos sintomas. Nenhum conseguia lembrar quem era. Nenhum demonstrava qualquer emoção. E todos falavam sobre um espelho.

Desconfiado, Nico passou a pesquisar os endereços das vítimas. Um padrão se formou: todos haviam comprado recentemente móveis antigos de um leilão. Ele decidiu ir até o endereço de uma das vítimas para investigar.

A casa estava mergulhada no silêncio. O cheiro de madeira úmida impregnava o ar. No centro da sala, repousava um espelho de moldura dourada, grande o suficiente para refletir um corpo inteiro.

Nico se aproximou.

O vidro parecia normal à primeira vista. Mas quando chegou mais perto, seu reflexo sorriu.

Ele não havia sorrido.

Congelado, sentiu o corpo se arrepiar. O homem diante dele era idêntico a si mesmo, mas havia algo errado. O sorriso era largo demais. Os olhos brilhavam num tom doentio.

— Você me vê, Nico — sussurrou a imagem no espelho.

Nico deu um passo para trás.

— Quem… o que é você?

— Eu sou você. Eu sou todos vocês. Eu me alimento do medo. Eu devoro suas almas.

Nico sentiu um peso tomar seus músculos. Sua pele formigou, como se algo rastejasse por baixo dela. A criatura tentava entrar.

Ele fechou os olhos. Respirou fundo. Medo. Era disso que o monstro precisava.

E se ele não sentisse medo?

Com um esforço sobre-humano, Nico abriu os olhos e encarou seu reflexo. Dessa vez, ele próprio sorriu. Um sorriso desafiador.

A criatura hesitou.

— Você não vai me ter — sussurrou Nico.

O espelho tremeu. O vidro começou a trincar. O sorriso da criatura se desfez, transformando-se em um grito silencioso. Num último estalo, o espelho se estilhaçou, espalhando cacos pelo chão.

O silêncio voltou. O peso sumiu.

Nico respirou fundo e, pela primeira vez em dias, sentiu que ainda era dono de si mesmo.

Mas lá no fundo, uma dúvida o assombrou: E se a criatura ainda estiver à espreita?

Ele olhou para os fragmentos de vidro ao chão.

E em um deles, refletida de um ângulo impossível, sua outra face ainda sorria.

Ivonoel cardoso
Enviado por Ivonoel cardoso em 28/03/2025
Código do texto: T8295939
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