INTERFERÊNCIA
Sandro Sedrez dos Reis
Estrada geral de Potreirinho, Bocaiúva do Sul, Paraná.
A poeira levantada pelos poucos carros e motos que passam pelo local dá um tom laranja ao ar, garantindo um enfrentamento maior no contraste de cores entre as estradas de barro e o verde abundante dos terrenos em volta.
Uma van moderna e robusta, com as portas contendo a logomarca “Caçadores de Lendas”, chacoalha seus ocupantes a cada irregularidade, vala ou buraco encontrados no trajeto. A mulher sardenta e esguia ao volante faz o veículo desviar dos buracos maiores sempre que encontra opção, o que não garante uma viagem serena: a maior parte das vezes, trata-se de escolher entre solavancos maiores ou menores.
— Meu Deus, Joice! Dá pra diminuir essa turbulência? Estou tentando editar parte da matéria. — Reclama Estevão.
Sentado no banco de trás, o franzino pesquisador equilibra um sofisticado notebook sobre o colo, movimentando os joelhos e pressionando as bordas do equipamento com parte das palmas das mãos. Seus dedos, ao mesmo tempo, esticam-se o quanto podem para seguir operando o teclado.
Nas várias janelas abertas em tela, é possível enxergar recortes de jornais antigos, de meses e anos diferentes, com foco em notícias sobre um casarão daquela cidade. Os títulos das matérias, contudo, não sugerem tratar-se de assuntos do mercado imobiliário ou de disputa territorial.
Estevão corre algumas imagens, enquanto marca e copia parte delas para uma pasta intitulada “Programa 451: SOLAR FATUM MANSIONIS”.
Boa parte dos arquivos com recortes de impressos remetem à década de 1950: "Túneis dimensionais: ciência ou charlatanismo?" "Dr. Lauffe nega existir a Portae Universi"; "Seita sul-americana punida pelo Além?"; "Testemunha relata sons diabólicos durante reunião macabra"; "Casarão fechado"; "Testemunha de caso sinistro é desacreditada"; "Moradores negam-se a falar da casa amaldiçoada".
— Estevão, menos drama... Daremos conta!
A fala cheia de entusiasmo vem do ocupante do banco de passageiro ao lado da motorista, Alberto. O líder da incursão fala e age como se tivesse a certeza do “final da história”, enquanto checa, no retrovisor embutido no quebra-sol, se os seus cabelos escuros estão impecáveis; e o sorriso, pronto para um retrato "instagramável".
Acreditar nessa quase “onisciência”, aliás, foi algo alimentado em seu íntimo ao longo dos anos. Dono de um raciocínio ágil e de uma capacidade intelectual expressiva, teve muitas portas abertas em sua jornada. Graças à admiração despertada nos outros por seu brilhantismo, sem precisar negociar muito, ou investir na polidez e na humildade.
Quando as oposições mais expressivas apareceram, quando viu que adversários poderiam dar trabalho ou ofuscar sua luz, já estava bem desenvolvido nas habilidades lógicas. Então foi fácil aprender a desmontar a segurança e a convicção dos outros.
Usou e abusou desse “poder” em sua defesa. Às vezes, também, por pura diversão. Uma que, vez ou outra, teve efeitos perversos. Mesmo sem jamais se poder dizer que houvesse maldade nas intenções, sua habilidade feriu pessoas, aqui e ali.
Mas o foco no verniz social haveria de prevalecer. Apostou sua formação na “inofensiva” carreira de comunicador. E agora, ei-lo bem-sucedido e popular, comandando o curioso programa midiático, para o qual conta com pesquisadores.
Esse retrospecto aparece, quase como um vídeo instantâneo, quando percebe suas ideias, sua liderança, mobilizando e subordinando outras pessoas. Como agora.
O pesquisador contratado bufa, em visível discordância quanto à visão de seu chefe, mas resignado. Afinal, está ali sob as ordens do otimista presunçoso. E é muito bem pago para isso, o que é o detalhe mais importante.
Quando sua inquietação ficar maior que os benefícios, talvez faça alguma coisa. Mas essa hora ainda não chegou. Ao menos, é nisso que prefere acreditar.
Estevão puxa, então, vídeos de 2023, contidos em outra pasta de arquivo: "Canal do Youtube que decifra mistérios explode em audiência"; "Alberto Monteiro contrata pesquisadores e amplia prestígio". “Youtuber fenômeno de audiência fará matéria especial de aniversário”.
— Você é o chefe. E ela, a autora. Se pra vocês tá bom...
A frase feita, em tom ambíguo, arranca um sorriso dos ocupantes do banco dianteiro.
Alguns solavancos e resmungos mais tarde, Joice estaciona o carro em um canto da estrada, próximo a um grande terreno cercado. Todos descem do veículo. Equipamentos de filmagem, mochilas e outros materiais são tirados do porta-malas.
Ao pegar sua mochila, Estevão se dá conta de que não a fechou. Mas antes que possa fazer algo, um encadernado em espiral cai de seu interior.
Joice junta o material do chão e se movimenta para devolvê-lo ao colega. Antes, porém, dá uma olhada no título constante da suposta folha do rosto: “DOPPELGANGER: A HISTÓRIA POR TRÁS DAS HISTÓRIAS, por Estevão Raposo”. Surpresa e curiosa com o título, estende a mão com o material para seu colega, enquanto o encara.
Estevão faz um sorriso meio embaraçado e agradece, enquanto estica a mão e pega seu texto de volta.
— Não sabia que está escrevendo um livro.
— É... só uma pesquisa, por enquanto. Um hobby. Ainda não sei se a publicarei. Então, agradeço se...
— ...eu ficar quieta? Claro. Não vi nada. Nem quero saber mesmo desse assunto.
Estevão mostra-se intrigado com a última frase da mulher. Ela desvia o olhar duas vezes e, por fim, fala a contragosto.
— Não gosto desse tema. Nem sei dizer por que, mas dá arrepios.
— Arrepios?
— É... acho inquietante. É como ver baratas ou morcegos: a ideia de me encontrar com eles... é igualmente desagradável.
Estevão sorri, surpreso.
— Então você sabe o que é um Doppelganger...?
Joice demonstra contrariedade e desconforto.
— Um sósia perfeito da gente, vivendo em algum canto do planeta...?
Estevão surpreende-se, mas não se intimida.
— É uma simplificação bem aguda do assunto, mas está correto. Na base. As grandes questões são outras...
— Sei. Perguntam se há conexão ontológica ou mística entre um e outro. Se são produto da imaginação, em casos de alto trauma psicológico. Ou uma probabilidade estatística nas possibilidades de combinações genéticas aleatórias da natureza. No campo mais esotérico, presumem poder ser o resultado de almas que se dividem, gerando uma incongruência existencial e cósmica.
Ela faz uma breve pausa, para sentir se o está impressionando. Depois, complementa.
— Também cogitam, nas teorias de multiverso, representarem o mesmo ser em versões de dimensões diferentes e que, por acaso, por alguma brecha, caem na mesma realidade. E este último quadro sempre gera o receio do que possa ocorrer, caso ambos se encontrem.
Estevão disfarça a surpresa e a inquietação.
— Eu poderia continuar classificando como meio superficial, só pra ser implicante. Mas está indo bem na “lição de casa”.
Um sorriso irônico, ácido e vitorioso aparece no canto da boca de Joice.
— Acha que sou ignorante em teorias paracientíficas só porque duvido delas? Como executaria bem o meu trabalho, assim? É preciso estudo, até para combater uma crendice insólita!
O historiador nota que a mulher fica mais irritada do que caberia, a seu ver.
— Tá certo. Eu só não sabia que você já tinha precisado investigar alguma coisa sobre os Doppelganger.
— Eu não precisei. — Rebate a mulher, quase imperativa.
Estevão percebe e decide recuar.
— Desculpe... devo ter me enganado.
A mulher cerra sua face, como se estivesse sentindo uma estocada no estômago. E nada mais comenta. No entanto, retalhos de lembranças trafegam, desajeitados, em sua mente. Por breves instantes; mas que parecem uma eternidade.
Ela vê a si mesma internada num quarto de hospital. Perto de sua cama, dois profissionais com jalecos conversam sobre seu caso. Por alguma razão, decide fingir que está dormindo, e presta atenção no que é falado. As expressões “amnésia incomum” e “falas desconexas” são proferidas com tom de preocupação pela dupla, enquanto olham para seu prontuário.
Em seguida, se vê noutro lugar, usando trajes antiquados - estilo meados do século XX -, caminhando numa cidade andina. Tem a impressão de ouvir a si mesma falando em espanhol e latim.
Por fim, se vê em 2022, desembarcando no aeroporto Afonso Pena, onde o ex-colega de faculdade Alberto a aguarda, sorrindo e segurando uma placa com seu nome. Percebe a expressão dele mudando para preocupação, enquanto corre para segurá-la. A frase “ela desmaiou” e uma imagem escura são seus últimos lampejos de lembrança.
Joice não sabe o que é isso e nem tem coragem de compartilhar com ninguém. Mas algumas abordagens a fazem reagir como se estivesse exposta. Por isso, evita certas conversas. Sobretudo oriundas de pessoas que pareçam conhecer mundos que ela rejeita e teme. E este é o caso de seu colega pesquisador.
A caminhada prossegue sem novas conversas entre os dois. Seu chefe permanece alheio ao pequeno debate.
Alberto fixa o olhar e, ao longe, no terreno, enxerga a frente de um casarão idêntico ao constante das imagens dos jornais. Sua cor avermelhada continua vívida, como se não estivesse fechado há quase sete décadas.
— É aqui mesmo?
— É, sim. Tenho os mapas. — Retruca Joice.
— Certo, gente. Preparem-se para começar a gravar. Quero sequências da caminhada pelo mato até a propriedade. Incluam ângulos com copas de árvores, animais passando, vento soprando. Depois veremos como encaixar essas coisas no documentário.
A fala do Youtuber sai entre sorrisos, mas no tom costumeiro de quem comanda o show.
— Parece intacto demais, pra idade que tem.
O murmúrio de Estevão, enquanto retira os equipamentos do carro, desperta a impaciência da colega.
— E...? – Debocha Joice.
Ignorando a provocação, o pesquisador prossegue:
— Acho o bastante para recomendar que redobremos a cautela.
— Cautela é bem diferente de delírio! — Responde a mulher, um tom acima de sua voz habitual.
— Delírio?! A mulher, que se diz pautada pelos fatos e pela ciência, acha delírio estranhar que a ação do tempo, ou dos vândalos, não tenha tido efeito sobre essa alvenaria antiga, largada no meio da umidade verde e...
— Daqui a pouco, vai me convencer que também é sensitivo. — Rebate a mulher, com sarcasmo.
— Na verdade, eu espero que ele seja.
A fala de Alberto a deixa desconcertada. Estevão sorri com algum prazer.
— Quando me decidi por contratar vocês, busquei pessoas com currículos bem diversificados e perfis contrastantes.
Então, ele aponta para a mulher.
— Você, com a ciência tradicional, a lógica de quem se especializou em comunicação e linguística, e o ceticismo metódico do bom jornalismo.
Em seguida, aponta para Estevão.
— Ele, por trilhar entre a ciência reconhecida e a especulada, com disposição de olhar para os mistérios como pontos não esclarecidos do passado. Sem medo de encontrar explicações que pareçam ridículas.
Os dois contratados se entreolham, oscilando entre a admiração e a disputa. Seu chefe prossegue:
— Sei o trabalho que quero fazer. Mas preciso que tenha muita qualidade. A maior...
Os dois o observam, enquanto ele mantém seu autorreferente discurso, travestido de profundidade de intenções.
— Desmanchar mitos, desconstruir lendas, mexe com a subjetividade das pessoas. E com interesses comerciais. Preciso estar bem calçado. Para me defender e para...
— ... conquistar seu próprio público e seus próprios interesses comerciais... né? — Comenta a mulher, ambígua e ácida ao mesmo tempo.
— Eu tenho uma dúvida, Alberto: nessa pesquisa curricular por atributos específicos onde você encontrou o nome da Joice? Na letra C, por conta do cinismo; no clássico P, de presunção; ou foi no K, de karma? Nosso karma, no caso... — Alfineta Estevão.
— Haha... que engraçado, ele... Mas acredito que o chefe me encontrou em S de seriedade e R de resultado. Um de nós dois precisaria ter, afinal...
O rebate da mulher atinge feridas abertas do passado do pesquisador. Ele ferve, avermelha e prepara um contra-ataque, que deve levar as provocações para o campo das ofensas mais profundas.
— Ei... ei!
A interjeição do líder encerra os ímpetos de Estevão e da coautora das reportagens do “Caçadores de Lendas”. Alberto prossegue:
— Obtive a atenção da “dupla dinâmica”? Que bom! Ouçam, então: Tenho vocês dois na minha equipe justamente porque são diferentes. Bem diferentes. E gosto que sejam assim.
Estevão e Joice se encaram, com ar de alunos que fizeram arte.
— Querem fazer amplos debates e escrever tratados por causa disso? À vontade. Mas no bar, fora do expediente. Aqui, eu quero foco!
Os dois funcionários balançam a cabeça, concordantes.
— Muitas tomadas externas e internas; anotações para o texto guia; e todas as avaliações científicas e não científicas que puderem fazer. Se quiserem ficar se alfinetando enquanto cumprem o trabalho, eu não ligo. Mas só se garantirem o resultado! Foco e resultado! — Conclui o chefe da expedição.
— Certo. — Respondem os dois, como num jogral ensaiado.
Sentindo-se dominante outra vez, o desfazedor de mitos estufa o peito e passa as ordens.
— Muito bem. Liguem a câmera e vejam um enquadramento no qual eu apareça; e seja possível ver, ao fundo, com detalhes, o casarão.
Joice testa a câmera, muda três vezes de posição e, por fim, sinaliza positivo com o polegar. O Youtuber pede, então, que comece a filmagem. Gesticulando e usando expressões dramáticas, declina o texto que redigiram em conjunto:
— “Olá, comunidade de seguidores, amantes do mistério e da sua decifração! Chegamos ao programa que comemora três anos ininterruptos de existência do CAÇADORES DE LENDAS. Como prometi, hoje vamos tratar do mistério do Casarão Vermelho de Bocaiúva do Sul.”
A câmera é movimentada por Joice, que caminha para captar outro ângulo. O discurso continua:
— “Um assunto que ocupa o imaginário popular há quase sete décadas. Veremos, nesta edição especial, o que existe de concreto sobre os acontecimentos na propriedade do misterioso Dr. Hélio Lauffe.”
Alberto faz expressão dramática, meticulosa e estudada. Então, olha direto para a câmera.
— “De conversas de botequim a teorias alienígenas, histórias assustadoras têm servido para gerar uma aura mística sobre a região, afastando muitas pessoas daqui; e atraindo outras tantas.”
A filmagem é interrompida. Joice, Alberto e Estevão repassam o vídeo.
— Enquadramento muito bom. Áudio e imagem, idem. Vamos gravar mais um trecho daqui. Mas, agora, invertendo as posições: eu, à direita da tela; e o casarão, à esquerda. Ajude-me a ficar de maneira que eu pareça atento à mansão; e ignorando estar sob filmagem.
Estevão controla-se para não expressar seu pouco caso com esses preciosismos. A seu ver, não passam de tentativas pífias de camuflar, sob argumentos racionais, a vaidade infinita de seu contratante.
A gravação prossegue:
— “Esperamos voltar daqui com algumas respostas. Principalmente: O que aconteceu naquela noite, realmente, no Solar Fatum Mansionis? Como dezoito pessoas, ricas e influentes, desapareceram sem deixar vestígios? Por que os moradores próximos nunca quiseram falar sobre este mistério?”
Joice interrompe a filmagem e, outra vez, o material é assistido pelos três.
— Acho que, por ora, está bom. O áudio pareceu-me um pouco abaixo do anterior. Mas deve dar para ajustar na edição, né?
— Concordo, chefe. Mas, se permitir a intromissão, sugiro incluir mais dois pontos como destaque, caso pense em refazer essa tomada. — Pondera o especialista em história.
— Pode falar...
Mesmo atingido por saraivadas de braços cruzados, caras e bocas da colega, Estevão completa sua sugestão:
— Primeiro: por que o imóvel permanece intacto e inabitado? Depois: havia ou não havia uma sociedade esotérica funcionando neste endereço? E mais: se havia, por que nunca procuraram outros de seus representantes para obter mais informações?
Com um sorriso ácido e impaciente, Joice murmura:
— Mas aí já são três perguntas, né...?
Sem demonstrar incômodo com o gracejo, o estudioso de ritos e misticismo comenta:
— ...Três, sim. Que continuam remetendo a apenas dois pontos de destaque.
É num silêncio barulhento que a troca de alfinetadas se encerra, enquanto Alberto sorri para si mesmo e Joice mostra os dentes para Estevão, simulando algo próximo a um rosnado.
A caminhada se inicia. Estevão, Joice e Alberto atravessam longo trecho coberto por mato entre a rua e o casarão, enquanto conversam. Joice, filmando o ambiente, agora fala com mais calma, mas Estevão continua incomodado.
— Pode estar intocada por temerem donos excêntricos; herdeiros estressados... sei lá.
- ... ou mistérios excêntricos e estressantes. — Retruca o pesquisador.
Alberto sorri, fazendo pouco caso sobre o debate.
A primeira parte da trilha se conclui com risos, seguidos de silêncio, ao chegarem ao casarão. O líder pede novas tomadas de imagens, agora destacando os detalhes da fachada, da varanda e da porta. Sob um arco, onde se lê “Solar Fatum Mansionis”, há uma varanda. Nela, uma imensa porta, em madeira de lei, na qual se encontra uma mensagem em latim: “Tantum iungere si sapiens es socius”.
— Meu latim é péssimo. — Comenta o dono do programa “Caçadores de Lendas”.
Estevão sorri, lembrando porque suas esquisitices e divergências têm sido toleradas pelo chefe.
— O meu, não. E arrisco dizer que o autor não domina o idioma em seu melhor uso. A frase parece montada, como num jogo de cartas. Ali está escrito: “Junte-se apenas se for um membro sábio”. Tá na cara que é mais um alerta, né?
— Heh! Sei que tem essa “vibe”. Mas eu já vi esse tipo de mensagem antes. Em vários idiomas. E a função é sempre a mesma: repelir os curiosos e proteger segredos. — Rebate Alberto.
O pesquisador respira fundo, lembrando-se da frequência com que sofrera zombarias entre seus colegas de Ciências Humanas por conta das abordagens nada ortodoxas que utilizou em suas pesquisas de História e Antropologia.
Mas esse sentimento, essa sensação de que aquilo que pensa, aquilo de que gosta, o afasta dos outros, é sua rotina de vida, desde sempre. Fora criança tida como esquisita pela vizinhança, pelos colegas de escola e até por familiares.
Sua proteção, seus amigos, seu refúgio, foram os livros, as HQs, as histórias fantásticas, o mundo da fantasia e toda a espécie de estudo mais ousado sobre o passado humano. O tempo foi passando e isto se tornou sua trilha, sua identidade. Sua vida. Num certo sentido, está confortável em ficar desconfortável.
Sua teimosia em seguir estudando lendas, mitos, mistérios e rituais como base para a formulação de teorias e conhecimentos sobre mistérios humanos, rendera-lhe títulos, elogios e notoriedade. Juntamente com portas fechadas, para qualquer contrato permanente em todo o mundo acadêmico.
Viver de palestras, artigos e livros, tidos como “não científicos o bastante”, é muito incerto. Então, o convite para atuar com os dois jornalistas veio como uma boia salva-vidas. Não caberia questionar sua consistência, mas sim agarrá-la.
— Nenhuma coisa é só o que a gente quer que seja. — Responde, em tom comedido.
Alberto vira-se para o empregado e diz, fazendo voz de veterano:
— Ei! Nesses 3 anos de programa, só vi farsa, crendice ou coisa explicável. Isso me dá alguma experiência, não dá?
— É muito mais frequente ver o sucesso nos deixar presunçosos e imprudentes do que experientes. — Retruca Estevão, em tom elegante, irritando o patrocinador da incursão.
Aparentando estar meio alheia à conversa até então, Joice tenta fazer um comentário, mas dá uma engasgada. Tosse um pouco e, depois, consegue expressar o que pretendia:
— Alberto, o Estevão pode ser um chato com suas cismas esotéricas, mas dessa vez eu concordo com ele.
Os dois homens olham surpresos para a jornalista metódica e com fama de cética. Ela ameaça ficar sem jeito, mas recupera seu tradicional garbo e explica:
— Se houver a mínima hipótese de que aqui tenha funcionado uma sociedade fechada e rica, é lógico se esperar a existência de armadilhas nos acessos mais óbvios. E um incidente assim aumentaria o mito do poder da casa. Sugiro rodearmos o imóvel, procurando acessos alternativos.
Alberto, mesmo surpreso com a observação de Joice, cede. Os três circundam a casa e encontram, pelos fundos, uma janela quebrada, coberta por tapume improvisado. A barreira é removida. Com um pouco de esforço, a equipe investigadora consegue entrar e levar seus equipamentos.
Dentro do casarão, exploram e filmam os cômodos, cheios de teias, poeira, insetos e vermes. A estrutura interna lembra mansões clássicas, com escadarias para andar superior e, também, para um subsolo. Uma ampla antessala, que faz contato com o outro lado da porta principal de entrada; aquela evitada pelo trio. Uma sala de estar, na conexão imediata com o cômodo inicial e com o acesso às escadas, ao salão de jantar, aos lavabos e à cozinha. Desta, se vai para áreas de serviços e uma ampla despensa.
Alberto olha para todo aquele espaço, fascinado. Estevão, reticente. E Joice, ora se mostra serena, ora perturbada; como se estivesse vendo fantasmas. O colega de trabalho nota e faz menção de lhe perguntar algo. Mas ela nem o percebe e continua caminhando como se tivesse um mapa decorado na cabeça.
Do nada, a mulher parece “escolher” dirigir-se para o subsolo. O colega decide segui-la, preocupado. Em pouco tempo, o chefe da dupla faz a mesma coisa, intrigado com a decisão da funcionária.
Estando diante de uma das paredes, a jornalista toca-a e percebe que é falsa. Quase parecendo automático e rotineiro, ela aponta a iluminação para dois ponteiros móveis sobre o desenho de um mostrador de horas, com números de 1 a 13, além de outra frase em latim, escrita em relevo: "Tempore est mendacium". Então, demonstra inquietação, como se tivesse visto algo familiar.
Estevão torce o nariz, duvidando da legitimidade idiomática da frase. Em seguida, a traduz:
— “O tempo é uma mentira”.
Ao ouvir a leitura, Joice reage como se tivesse recém acordado. Olha em sua volta, aparentando estranhar o local em que se encontra. Mas antes de esboçar qualquer manifestação, volta a se mostrar autocontrolada.
— O que acha que significa? — Pergunta para o colega.
Estevão começa a girar os ponteiros do dispositivo, juntando-os sobre o número 13, enquanto fala:
— Pode significar muita coisa. Uma reflexão profunda, comum em sociedades esotéricas. Uma escolha poética. Mas como, novamente, a frase soa artificial... vou apostar que é uma senha.
— Senha??
No mesmo instante em que Joice faz sua pergunta, Estevão junta os dois ponteiros no número 13 e um ruído de engrenagem começa.
— Vou apostar que a mentira é o relógio poder indicar 13 horas e indicar 65 minutos...
O barulho é seguido de movimentos na parede, revelando uma porta camuflada, que se abre, dando acesso a um salão imenso.
— Uau! Que gênio! — Exclama a jornalista.
— Eu? Muito obrigado, mas o principal mérito é seu: como deduziu que essa parede seria o ponto chave exato?
A jornalista demonstra desconforto com a pergunta, evitando encarar Estevão. Seus olhos se fixam novamente na parede que chamara sua atenção.
— N-não sei. Intuição, sorte... eu acho. Podemos voltar ao que importa?
— Claro, Joice. Sem problemas...
Seu colega fica ainda mais curioso com a reação da mulher para um assunto que não mereceria tanta valorização. Uma resposta boba seria mais do que suficiente. E bem normal. Mas o nervosismo... por quê?
O trabalho de investigação prossegue. Equipamentos de iluminação são acionados para facilitar a visualização do cômodo secreto. O ambiente tem pouca mobília, castiçais caídos no chão, resquícios de velas, estandartes se desfazendo, quadros estranhos. Nada de teias, restos de insetos ou vermes.
Ouve-se um ruído de vento, enquanto uma brisa mais forte surge, passa na face de Joice e cessa, junto com o barulho. Olhando através da câmera, a mulher enxerga um vulto com túnica e capuz, deixando-a meio estática - como se estivesse em transe - e murmurando:
— No deberías estar aqui... no deberias...
.
Alberto e Estevão fitam a jornalista, intrigados. Esta, para de olhar pela câmera por um instante. E, a olho nu, não consegue enxergar o vulto misterioso. Neste instante, ela tonteia e quase cai.
Percebendo-se observada, a mulher finge estar ok. Alberto se aproxima, preocupado.
— Você está bem?
A funcionária fica sem saber o que responder ao seu chefe.
— O que foi isto? Que ar dramático é esse?
A pergunta agora veio do colega pesquisador, num misto de preocupação e ironia. Mas Joice a recebe como um interrogatório disfarçado. E decide desviar o foco da atenção dos dois homens.
— Sei lá. “Déjà-vu”, talvez. Sério, quem liga?
Os dois a observam em silêncio, ainda interrogativos. Ela acrescenta:
— Ei! Notaram? Não há vestígio de aranhas, nem insetos, neste espaço. Nem bicho algum... Numa região cercada de mato e criaturas... Como pode?!
A tática, por fim, funciona: Alberto e Estevão apontam os iluminadores para todos os cantos do ambiente, buscando flagrar movimentos, enquanto adentram o cômodo, junto com a mulher. E estranham, também, a ausência de insetos, aracnídeos, ou qualquer indicativo de já terem existido por ali alguma vez.
Os dois funcionários filmam cada detalhe do salão. Alberto faz anotações numa agenda volumosa que saca da mochila, enquanto olha para as paredes. Em seguida, pede que a mulher também as examine.
Joice compara os registros feitos com arquivos existentes em seu tablet.
— Esses símbolos não lembram nada que estudei.
Caminhando pelo estranho espaço, Estevão “finge” voz sinistra.
— Isso porque você só estuda povos desta dimensão e deste planeta...
Fitando Estevão, quase não disfarçando a irritação, Joice devolve na mesma moeda, imitando vozes de anúncios de seriados televisivos.
— Lá vem ele, falando de seus homenzinhos verdes e da grande conspiração cósmica! É agora que vem o bordão famoso, "agente Mulder"? “A verdade está lá fora?!”
Estevão faz menção de responder enquanto caminha. Mas toca o pé na borda de um tablado. Com seu equipamento, ilumina aquele canto do salão. A luz revela uma plataforma hexagonal, com um totem alto, retangular e vertical, coberto por manta escura e brilhosa. O pesquisador direciona, então, o facho de luz para o objeto.
— E se eu disser que “a verdade está aqui dentro”?
Iluminando o estranho objeto em simultâneo, os três investigadores o observam, por alguns minutos.
Alberto e a subordinada aproximam-se do tablado, examinando-o com as lanternas. A filmagem prossegue.
Na parte voltada para o salão, pode ser lida outra frase em latim, repetida ao longo das laterais: Incipientes, non ascendunt in ritu.
— “Principiantes, não subam durante o ritual.” – Traduz o pesquisador.
Fazendo pouco caso, Alberto sobe no estrado, deixando seu funcionário mais tenso.
— Mas não temos um ritual agora, temos? Por favor, filmem meus movimentos.
Estevão volta a se estressar:
— Estamos subestimando demais. Essa afobação é para atender a quem? Aos egos?
— Tá com medo, é? — Provoca o chefe.
— O medo, neste caso, é onde iremos encontrar toda a prudência que escolhemos não trazer...
— Afff, Estevão! Algumas coisas ficam melhor nos filmes mesmo, viu? Não tá nem um pouco constrangido de agir assim, submisso às teorias conspiratórias?
O pesquisador faz um grande esforço para ignorar sua vontade de explodir com a fala ofensiva ouvida.
— Constrangido? Alberto, você é o chefe; o dono do show. Não leu mesmo nada nos extratos de nossa pesquisa para este caso? Estão cheios de evidências de que o lugar teve ou tem algo incompreensível! E perigoso... muito perigoso...
— Evidências? Qual delas? O testemunho do cocheiro, que ficou do lado de fora da mansão, e jurou ter ouvido gritos e coisas sinistras após encher a cara?
Os dois homens se encaram com ar de desafio. Alberto mostra, em seu tablet, a imagem de uma das manchetes da época, onde se lê “CONVIDADOS MILIONÁRIOS SOMEM EM REUNIÃO MACABRA”.
— Olha essa notícia. Mas olha bem: aqui diz “milionários”. A história tá cheia de fugas espetaculares de ricaços que precisavam sumir, evitando as garras da justiça, após algum grande golpe para encher os bolsos ainda mais. Pense um pouco!
— Pense você! O lugar está repleto de avisos. Nossa amiga “cética racional” está aqui há poucas horas, mas já virou quase uma sensitiva. E a casa permanece intocada há anos. Principalmente, neste salão: mesmo sem um sistema de segurança, ninguém pôs os pés aqui, gente ou bicho! — Reage Estevão.
O líder da equipe quase aceita refletir sobre o que está ouvindo. Mas tem dificuldades em sentir a diferença entre acolher um argumento razoável e perder uma discussão.
— Opa, opa! Eu tenho a mente aberta, sim! Mas, nesses três anos de investigação, tudo — tudo mesmo — o que eu encontrei se revelou farsa, ignorância ou crendice. — Discursa, encharcado de vaidade.
— Nem toda a crendice é vazia! — Rebate o pesquisador, quase explosivo.
Enquanto os homens medem testosteronas, Joice, ilumina o piso do salão. E descobre, através da lente da câmera, um tablet envelhecido, empoeirado e pegajoso, perto de um dos castiçais caídos. Decide examinar a olho nu, e continua vendo o objeto. Então, interrompe a discussão dos dois.
— Gente! Alguém mais já andou por aqui, sim. E fazendo pesquisa também!
A mulher aponta para o tablet. A discussão cessa e todos voltam sua atenção para o equipamento recém descoberto.
O primeiro a murmurar algo é o pesquisador nada ortodoxo da equipe.
— Estranho. Não é um modelo antigo, apesar de parecer bem desgastado. Lembra muito o seu, Joice.
A observação de Estevão causa desconforto na mulher, que reage.
— Aquilo ali mostra que a casa é visitada, sim. Use um pouco a lógica; e guarde essa sua paixão por fantasias.
Estevão bufa e se cala. Alberto olha para o tablet velho.
— Modelo recente? É visível uma ação severa do tempo sobre ele. Dá a impressão de ter sido há muitos anos, tamanho o seu desgaste. Mas seria impossível. Eles só surgiram em 2002. E, no Brasil, em 2012.
Olhando para o aparelho encontrado, Joice demonstra nojo e, também, algum medo. Estevão percebe o segundo sentimento nela; e fica ainda mais pensativo.
— Recolham a peça. Vamos estudá-la. Que tal? — Fala Alberto.
— Eca! Não contem comigo. Eu não pego nisso!
Rindo, o chefe do trio se volta para o tablado e seu artefato encoberto com lona. Ao removê-la, expõe um objeto alto, retangular, em cor escura e brilhosa, cheio de símbolos em relevo. Como um totem.
A equipe filma o artefato e seus desenhos. Chama a atenção o estado de conservação da peça. Nenhum sinal de envelhecimento, nenhuma opacidade; nada de poeiras, oxidações ou coisa que o valha.
— É muito incomum encontrar algo nessas condições, num lugar fechado há sete décadas. — Murmura o historiador.
— Incomum ou impossível? Tá na cara que o lugar não é tão abandonado assim! — Provoca Joice, divertindo-se em discordar do colega.
— Nada aqui está na cara... Vou repetir: estamos mexendo com coisas que não conhecemos, e sem um plano B.
O comentário de Estevão provoca nova intervenção do responsável pela equipe:
— Talvez. Mas, neste instante, o que eu preciso é de sua avaliação sobre o sentido e a função desse objeto.
Resignado, o estudioso em história e antropologia abre seus arquivos no tablet e busca analogias e referências linguísticas, enquanto examina todos os ângulos do totem.
Há muitas inscrições em volta do objeto. Todas constituídas a partir de 3 tipos de símbolos, reorganizados e combinados de diversas formas. O grupo 1 parece um mapa celestial; o 2, um tipo de zodíaco integrado ao mapa; e o 3 repete, em posições diferentes, redemoinhos, com maior relevo e cavidade, como se tivessem outra função.
— Ah! Essas imagens vão precisar de um bom texto na edição!
A fala do chefe sai tão energizada quanto a de um menino com um brinquedo novo.
— Isso não é bom.
Sem dar muita importância para o novo resmungo de Estevão, Joice aponta para o canto esquerdo superior do objeto e concentra a câmera ali.
— Neste canto do “mapa”, há destaque para sete redemoinhos em curva...
— ...vórtices... — Corrige Estevão.
— Mas o que há com você? — Reage a mulher, sem paciência.
— Já leu sobre a "Portae Universi"? Se tivesse lido, saberia o poder que esse símbolo — vórtice — possui para eles.
— Vórtice, Estevão?
— Ou “vórtex”, para os mais pomposos...
O tom de impaciência e ceticismo cresce na voz da mulher.
— Sério, isso? Essa irmandade se reunia aqui? Há provas? O Dr. Lauffe, antigo proprietário daqui, sempre negou que seu clube de riquinhos fosse essa tal de...
— ..."Portae Universi"? — Indaga Alberto, interessado.
Joice sorri e demonstra pouco caso, irritando Estevão.
— Ah, Alberto... precisa ser atualizado? Ok. Essa foi só mais uma “lendária” sociedade secreta, dentre tantas. Mas afirmam ter sido uma seita que buscava túneis dimensionais, para este e para outros mundos.
— ...vórtices! Vórtices dimensionais. — Corrige Estevão, implicante.
Alberto cruza os braços e inclina a cabeça, fazendo o sorriso ambíguo de quem se sente em vantagem.
— Como aquele “fenômeno” paranormal e turístico da caverna brasileira que guarda o “portal para Machu Picchu”? Hah!
Joice e Estevão fitam seu chefe. A primeira, atenta a suas palavras. O segundo, inconformado com tamanha presunção.
Estufando o peito, Alberto declina o restante de seu discurso:
— Sei qual é o "túnel/vórtice" que esses dirigentes de sociedades secretas buscam: um que esvazie cofres de ingênuos crentes, usando truques, pompas e ilusões.
— Toda ciência já foi chamada de ilusão, até conseguir se provar verdadeira! — Pondera o pesquisador sensitivo, quase sem conseguir camuflar sua irritação.
Demonstrando impaciência, Alberto encaixa os dedos de uma das mãos em cinco dos sete "vórtices". Joice decide continuar filmando.
—— Bem lembrado, Estevão! Vamos provar, então?
— Espere! Não é melhor tentar entender um pouco mais este objeto?
Sem querer ouvir os argumentos, o líder da expedição pressiona seus dedos nos redemoinhos como se vestisse uma luva. O bloco escuro começa a vibrar. Contudo, para. Intrigado, o homem repete o movimento. Várias vezes. Mas não há reação.
Quando há uma nova tentativa, Joice toma um susto ao filmar: através da lente, vê mais uma vez o vulto feminino encapuçado, colocando dois de seus dedos no sexto e no sétimo redemoinhos do painel.
Intrigada, remove a câmera e olha. Não há sinal de vulto algum. Então, utiliza o equipamento outra vez: lá está ela. E faz um novo movimento, demonstrando sentir-se observada pela jornalista.
E é quando acontece: o vulto olha em seus olhos. E Joice corresponde. Então, deixa a filmadora ligada e caminha em direção ao totem, murmurando estranhas frases, assustando os homens.
— La mujer es la clave. Tu eres la clave. La clave es el vórtice.
— Joice? Joice...
A mulher não escuta nada. Parece em transe. Aproxima-se cada vez mais do totem; e agora forma uma “pinça” com os dedos indicador e polegar da mão esquerda.
— La mujer es la clave. Tu eres la clave. La clave es el vórtice.
— Chefe, não vai impedi-la?
Alberto não responde, perplexo e absorto. Paralisado por uma curiosidade mórbida. Adivinhando o que vai ocorrer, volta a colocar os cinco dedos de sua mão nas cavidades do totem. A mulher junta-se a ele e completa o preenchimento dos redemoinhos com seu indicador e seu polegar.
Ouve-se algo funcionando dentro da peça; agora, de forma contínua. Surge um vento, soprando cada vez mais forte. O ruído lembra uma grande sucção. Tudo escurece. Os três aventureiros sentem que irão apagar.
A escuridão parece diminuir. Sem certeza de quanto tempo depois, Alberto, Estevão e Joice abrem os olhos. E percebem continuar juntos ao "totem".
Tempo (lugar?) incerto
O salão está diferente. Há muitos castiçais acesos. O trio vê estandartes e quadros em todas as paredes, cheios de cores e símbolos estranhos. Como se o ambiente estivesse renovado e pronto para algum cerimonial.
— Mas que diabos é isso? — Inquieta-se Alberto.
Joice está paralisada de susto, mas mantém a câmera ligada. O terceiro integrante disfarça a tensão, valendo-se de comentários sarcásticos.
— Nas suas palavras, chefe, deve ser algum truque da “irmandade farsante”, usando seus shows de ilusões. Talvez estejam de olho na conta bancária do programa...
Alberto irrita-se ao ouvir, mas está mais preocupado em entender como o ambiente pode ter mudado daquele jeito. Haveria, afinal, alguma pertinência nas teorias absurdas sobre portas dimensionais? Que outra explicação poderia haver para aquilo?
Os dois homens direcionam seu olhar para Joice. Ela continua estranha, quase imóvel. E ainda assim, segue filmando. Não é possível notar murmúrios de espécie alguma na mulher. A rigor, nem mesmo demonstra respirar. Mas sua expressão estática é perturbadora.
— Joice? Joice...
Os olhos arregalados da mulher não exprimem disposição de mudar, mas sua cabeça gira para o lado do qual está vindo a menção a seu nome.
— Você está bem? — Pergunta Estevão.
— E qual de nós estaria?
A resposta quase hipnótica de Joice inquieta ainda mais os dois homens.
O autor da expedição começa a caminhar, pé ante pé, pelo tablado, enquanto busca algum outro detalhe ou sinal na decoração – agora renovada – do salão.
Seus olhos percorrem paredes, colunas e o que mais puder conter ilustrações, brasões, símbolos que possam acrescentar alguma informação traduzível. Nessa pesquisa, avista um enorme painel, que parece ter sido pintado a óleo sobre tecido grosso, estendido e fixado em parede lateral do salão.
A pintura chama muito a sua atenção: nela podem ser vistas várias pessoas em trajes cerimoniais, próprios de cultos esotéricos, todas postadas em volta do objeto misterioso que ele recém tocara.
Pensa em se aproximar da peça e examiná-la melhor, talvez com Estevão a tiracolo, para facilitar interpretações e hipóteses. Mas quando move um pé para fora do tablado, sente ruídos e vibrações no ambiente, antes mesmo de tocar no piso.
Intrigado e receoso, o líder do trio recolhe a perna, percebendo que o zumbido diminui na mesma proporção em que se afasta do chão do salão.
Vira-se para o pesquisador, com ar de indagação. Mas seu contratado presta atenção só na mulher, que continua agindo como se estivesse em algum transe. Alberto, então, resolve observá-la também. Joice murmura novas frases. Elas soam desconexas e circulares. Ao menos, para os dois.
— Las líneas dependen de los vórtices... pero los vórtices pueden dañar las líneas... las líneas dependen de los vórtices... pero...
— Joice? O que está havendo?
A pergunta de Estevão fica sem resposta, pois o vozerio de um cântico começa a chegar ao salão, vindo de um dos corredores. Parece um grupo de pessoas se aproximando. Os dois homens se entreolham e agem rápido. Carregam Joice, tapando sua boca com a mão, e buscam esconder-se no canto mais escuro do tablado, atrás da borda de uma coluna.
Aos poucos, o grande espaço vai se preenchendo com pessoas em túnicas ritualísticas. Três dos integrantes seguem mais à frente. Um refrão se repete, enquanto cada um vai assumindo posição específica no salão:
- Scientia moderabitur líneas spatii! Homo regnabit in universo! Portae universi nostri!
Estevão decide contar os integrantes do grupo. Há quinze pessoas postadas no salão, todas com túnicas e capuzes idênticos. E mais três em posição de destaque, usando trajes com símbolos que sugerem superioridade hierárquica. Ao todo, dezoito pessoas. Dezoito! O número estapeia a cara do pesquisador. Ele entende, mas não quer entender. Não conclui algo de que duvide, mas preferiria não acreditar.
Preocupado em não chamar a atenção, faz sinais com as mãos, tentando que seu chefe perceba o mesmo que concluiu. O Youtuber desbaratador de lendas não parece demonstrar qualquer compreensão aos gestos. Estevão decide movimentar a boca de forma pausada e caricata, para que o outro possa “ler” as sílabas sem som: “São dezoito!”
Alberto agora entende a expressão, mas não compreende sua importância, exceto a de que isso indica sua desvantagem numérica. O pesquisador arrisca, então, se aproximar de seu patrão para cochichar.
— Eles são 18 pessoas, Alberto. Tal qual a seita que sumiu no passado...
Os olhos do responsável pela aventura se espantam, perplexos com a coincidência, E incrédulos, quanto ao que o pesquisador apresenta como explicação para os fatos.
— Está sugerindo que os trouxemos para nossa época ou que viajamos para a deles?
— Nem uma coisa, nem outra. Estou considerando que nos encontramos no mesmo ponto espaço-temporal. Talvez num ponto cego. Nem lá, nem cá.
— Um limbo? — Caçoa Alberto, com um riso nervoso.
— ...eu preferiria considerar um ponto de intersecção num...
— ...túnel de fuga?
— É um termo impreciso e nada poético. Mas pode servir. Eu iria dizer “vórtice” ...
Neste instante, os três indivíduos com túnicas mais imponentes, até então de costas para o "totem", sobem no tablado, ainda sem notar o trio visitante.
Os dois aventureiros recuam um pouco mais e se juntam a Joice, que permanece com ar estranho, porém agora calada e parecendo entender que estão em risco.
No salão, dois dos integrantes da seita levam archotes para acender uma espécie de pira, posicionada próxima à grande pintura de representação do grupo.
Quando fazem isso, as chamas que evoluem em luminosidade, destacam algumas das faces da pintura. A claridade e o destaque repentinos chamam a atenção de Estevão, Alberto e Joice, que olham naquela direção, no exato instante em que o brilho destaca uma face feminina, ruiva e de olhar firme, pintada próxima à representação do totem. E com a mão em forma de pinça, se aproximando de seus símbolos.
O gesto. Os olhos. O sorriso. A face. Tudo se assemelha muito. A reação do trio vem de imediato. Os dois homens sussurram ao mesmo tempo:
- Incrível!
Já a mulher, ao ver a si mesma numa pintura de prováveis 50 anos atrás, tem a reação um pouco menos discreta. Um gemido alto, um movimento brusco e a queda de seus equipamentos no tablado são as respostas à surpresa.
O público presente silencia, surpreso com a ocorrência. Os homens que comandam o ritual viram-se para trás. Embora não enxerguem os invasores de imediato, estão decididos a investigar.
Joice, ainda nervosa, olha para um vulto na multidão, que lhe parece familiar. Uma mulher de capuz, integrante do público, a avista; e começa a gesticular muito. Burburinhos vão crescendo.
Em tom de ultraje e pânico, um dos líderes do ritual também os enxerga e reage:
— Qué está pasando? Quiénes son ustedes?
—— Isso é espanhol? — Reage Alberto, meio sem querer.
O segundo líder olha para ele, para seus equipamentos e vestuários. Arregala os olhos e fala com o terceiro homem de túnica especial:
— Helio, diles que están poniendo em peligro la continuidad dimensional! Creo que la brecha em la línea se abrió antes de lo esperado!
O homem chamado de Hélio inicia uma conversa com fluência em português:
— Senhores! Conseguem me compreender? Por favor, fiquem aí no altar! Este experimento é instável!
Aturdido, mas, inquieto, Alberto aponta para o homem, encarando-o.
— Experimento? Vocês são a “Portae Universi”?
Hélio se assusta, começa a olhar melhor para a indumentária dos visitantes, seus equipamentos e o jeito de falar, empalidecendo.
— Por que citou esse nome? Quem enviou vocês?
Estevão, observando tudo, aproxima-se de Alberto e sussurra com firmeza:
— Pare de falar... vai complicar tudo!
O Youtuber o encara, fazendo pouco caso de seu comentário.
— É sério? O que mais te preocupa aqui é o que iremos dizer para esses caras?
— Palavras podem parir desastres. Aqui, talvez, mais do que isso: o caos puro! — Assevera o pesquisador.
Sem dar a mínima para isso, premido por outros medos e nenhuma lógica, o chefe da expedição estufa o peito e prossegue falando com Hélio:
— Você é o Hélio Lauffe?
— Como sabem esse nome? De onde vocês são?
— Responda a minha pergunta, que eu respondo a sua!
Estevão resmunga um “cale-se, idiota”, mas sabe que seu chefe está mergulhado na blindagem de seu ego, hipertrofiado toda a vez que algo desperta seus medos. Toda a vez que o mundo deixa claro não estar sob seu controle.
— Sou Hélio Lauffe, sim! Há outro “eu” no lugar de onde vocês vêm?
— Doutor Lauffe! Insisto para que parem essa conversa! É perigoso saber mais!
A intervenção de Estevão é o bastante para que o suposto líder da “Portae Universi” perceba o que não estava querendo perceber.
— Oh, meu Deus! Vocês não são de um mundo paralelo!
Os dois outros homens com túnicas especiais demonstram pânico em seus rostos. Joice continua com ar estranho e meio sem ação.
— Nós não encontramos uma brecha dimensional. Abrimos uma fenda no tempo! — Fala, estarrecido, o anfitrião.
Pânico é a música tocada na mente dos mestres da seita. Incredulidade é o refrão que Alberto insiste em repetir. Então, não há muito para onde levar a conversa.
Em Estevão, a melodia é a do medo. Sabe estar na iminência de uma catástrofe. E esses episódios costumam cobrar um preço alto a seus causadores. Que, por sua vez, buscam terceirizar a dívida. É quando ele se lembra de olhar para Joice. Ela não está mais ali.
A mulher do grupo aventureiro, ainda meio desorientada, dá-se conta de que não recolheu os equipamentos que caíram. Começa a olhar e caminhar pelo tablado. E percebe que seu tablet sumiu.
— Meu Deus! Isso não é possível...
Joice larga a câmera e caminha atordoada na plataforma, apesar dos protestos do Dr. Lauffe. Então, olha para a integrante da plenária, a mulher encapuçada que gesticulara antes. Ela segura seu tablet.
A luz das velas expõe o rosto sob o capuz. E uma verdade incômoda se revela: as duas são idênticas!
— No deberías estar aquí!
Hélio olha para as mulheres, apavorado.
— Vocês! O que são vocês?
Estevão murmura, apavorado:
— Doppelgangers...? Eles são vórtices? Mas... nas linhas do tempo?
Então, tem um estalo e arregala os olhos.
- Ai... não!!
De imediato, ele percebe o risco. E tenta segurar Joice. Mas é muito tarde.
Surtando, a pesquisadora corre, de forma impensada, sobre a outra mulher e tenta arrancar o equipamento de sua mão. Dr. Lauffe grita para ambas.
— Não! Não façam contato! A fenda...
Ouve-se um imenso zumbido, seguido de ruídos insuportáveis. Pessoas gritam ensandecidas. O "totem", próximo a Alberto E Estevão, brilha e vibra. Tudo treme. Ouve-se um mecanismo trabalhando. E o trecho de um monólogo que Lauffe profere:
- "Miserere nobis! Mater peccati Vanitas est..."
Outra vez, sopra um vento muito forte. Uma nebulosa mancha a visão e envolve as duas mulheres idênticas, que somem em seu interior. Castiçais caem no chão. Túnicas e estandartes queimam.
Estevão tenta chamar por seus colegas de missão. Mas nem ele mesmo consegue ouvir sua voz, em meio a tanto inferno.
Súbito, tudo escurece. E um silêncio gélido e total assume o controle.
Tempo presente
O salão está de novo do modo como a equipe de Alberto o vira da primeira vez, ao entrar na casa. Pode, inclusive, ser percebido o mesmo tablet no chão, empoeirado e oxidado.
No altar, Estevão e Alberto despertam, próximos a alguns de seus equipamentos. Começam a se erguer.
— Meu Deus... Aquele era o Lauffe? Que experimento eles...? Fenda no tempo...? Vórtice...?
As perguntas, feitas em voz alta por Alberto, soariam desconexas para qualquer um que as ouvisse. Mas só há o Estevão por perto. E ele nada ouve, agora. Nem teria como.
— Joice? Joice! Cadê você?
Alberto observa Estevão, gritando pela colega. Depois, olha em volta. Vê que faltam alguns equipamentos; vê que os remanescentes parecem chamuscados. Então, também começa a procurar a mulher. Em vão.
— Joice! Joice!
Estevão chora. No seu semblante é possível perceber revolta, raiva e um pequeno nível de compaixão, enquanto olha para seu chefe.
Alberto não percebe nada disso. E segue buscando a mulher.
— Joice! Joice!?
— O que nós fizemos?!
— Calma, Estevão! Vamos achá-la... vamos dar um jeito...
O pesquisador explode com Alberto, enquanto o sacode pelo braço.
— Não entendeu ainda?? Nós causamos tudo!
— Nós...?
— Como espera dar um jeito?
Estevão continua chorando. Olha para Alberto com raiva e pânico. Depois, aponta para o tablet, caído no salão.
— Nossa intromissão tornou a lenda real!
Alberto olha para o chão, aturdido. E se apavora.
— Como...? Não! Ferramos o passado?!
— Pior: criamos esse passado! Nós somos a lenda da “Fatum Mansionis”!
Alberto estremece, pálido como cera.
— Inferno...merda!
— Todos sumiram por nossa causa. Todos...
Os dois homens se encaram.
— Ela... também...
Desmoronando por completo, Alberto mergulha num turbilhão de lamúrias e remorsos.
— Joice... Eu não queria... Eu não sabia...
Estevão contém sua raiva, acalma-se e põe a mão no ombro de seu chefe, em sinal de compaixão.
— ... e nem tentou saber, né? Nem tentou...
Buscando se agarrar a um último lampejo de autocontrole, Alberto dirige-se, mais uma vez, a Estevão:
— Aquelas palavras que o Dr. Lauffe proferiu, no final... o que foi aquilo? Uma tentativa de encantamento?
Estevão respira fundo, olhando para o nada, enquanto responde.
— Uma prece em nome de todos, eu acho. Só consegui ouvir uma parte. E me bastou: "Tenham piedade de nós. A Vaidade é a Mãe dos Pecados...".
O Youtuber cai de joelhos no tablado, incapaz de qualquer palavra, olhando a esmo pelo salão. Depois, fita o objeto que os deslocou pelo tempo. Em seguida, mantém-se fixo, observando o tablet de Joice, amargurado.
Ouve-se, então seu choro. Imenso, intenso e sem previsão de término.
Fim (?)