VOZ NOS TRILHOS

(inspirada nos "causos" de botecos)

 

 

Não há uma só cidade que não tenha sua própria história sobrenatural. Criaturas, assombrações, estruturas inanimadas ganhando vida, portais para o inferno ou para outros mundos, maldições assustadoras, ou o que mais puder disparar a pulsação e retirar o sono. Basta o grupo de moradores aumentar um pouco. Basta conviverem por alguns meses. Logo surgirão dizeres, lendas. E estigmas. Alguém, alguma coisa, ou algum lugar carregará consigo o peso do medo coletivo.  

 

Pode ser qualquer coisa para dar o ponto de partida. Da mais sofisticada à mais simplória. A comunidade pegará aquilo e lhe atribuirá o indizível, o ilógico, o aterrorizante. E deixará a narrativa insolúvel, sem fim. Porque precisam disso. Seja para criarem suas próprias fronteiras de conduta, seja para alertarem quanto à busca por redenção. Ou até mesmo porque coisas estranhas acontecem e precisam ser lembradas. 

 

Curitiba tem muitas histórias. Algumas, bem conhecidas. Outras, nem tanto. E quase sempre começam a ser contadas pela boca do temor, transitando também pelo anedotário das rodas de amigos. 

 

 

Bar Jacobina, terça-feira à noite, num mês de maio qualquer

 

Em mesa próxima à entrada do estabelecimento, o medo está concluindo uma de suas narrativas por intermédio de um homem, reunido com três colegas de trabalho.  

 

- ...e, por mais que eu procurasse, não encontrei ninguém! Usei até lanterna e, mesmo assustado, fui espiar atrás dos arbustos. Não vi vestígio algum... de nada. Mas sei o que ouvi! Aquela voz aflita não me sai da cabeça...

 

- Nossa! Que história arrepiante! Você é assim criativo quando está sóbrio também? - Debocha Eduardo, num esforço para obter antídoto à inquietação do colega.

 

- Podem rir à vontade, seus manés!  É mesmo difícil de acreditar. Só sei que aconteceu porque foi comigo. No lugar de vocês, eu também estaria debochando! - Fala Werner, oscilando entre o bom humor e a tensão das lembranças.

 

- Pois é... e em vez disso, está muito ocupado aí, alucinando! Tá certo... alucinar é melhor do que se borrar, né?!  - Interrompe, às gargalhadas, o colega.

 

- Que injustiça, Edu! Por certo, ele só molhou as calças. Só isso. - Rebate Olívia, ambígua e ácida como de costume.

 

Walter - o mais velho do grupo -, entretanto, ouve em silêncio soturno. Uma postura capaz de, aos poucos, reduzir a algazarra sobre a narrativa. E deixar uma grande interrogação na cabeça de Werner.  Logo, outros assuntos entram na pauta do “happy hour”, aliviando o restante do encontro.

 

Quando chega a hora de cada um ir para a sua casa, as despedidas costumeiras ocorrem. Olívia oferece carona para Eduardo, enquanto Walter prepara-se para chamar um motorista de aplicativo. Mas posterga sua iniciativa ao ouvir uma indagação de Werner.

 

- Hã... Fiquei com a impressão de que a minha história, no começo da noite, deixou você muito quieto. Posso perguntar se foi isso mesmo?

 

Com a mesma atmosfera nebulosa do momento anterior, Walter olha para seu colega. Em seguida, saca do blazer um pequeno estojo de cigarros, acende um, e faz a clássica cena da tragada lenta, enquanto balança a cabeça, concordante.

 

- Não sabia que você fumava. - Comenta o mais jovem, de forma irrefletida.

 

- Não costumo. Só quando estou tenso ou muito estressado.

 

A resposta deixa Werner ainda mais curioso. Mas administra a repentina impaciência e aguarda. Pelo contato que tem com o veterano da empresa, nos expedientes, sabe ser melhor deixar as coisas correrem no seu tempo, sem pressões. 

 

- Essa... história... que você nos contou hoje, quando aconteceu? - Prossegue Walter.

 

- Sexta-feira passada.

 

- E foi mesmo no trecho dos trilhos lá da Boa Vista?

 

- Sim, perto da rua Vicente Ciccarino...

 

- Então, o negócio ocorre às sextas. - Murmura o colega de meia idade, reflexivo.

 

Agora Werner não resiste e intervém:

 

- Do que você está falando? Também viu algo?

 

O olhar do homem de meia-idade muda a tonalidade, como se estivesse enxergando algo muito distante. Sua voz sai com estranho pesar:

 

- Mais de uma vez...

 

Em seguida, conta sua história para Werner.

 

 

Dois anos atrás

 

Walter anda apressado ao lado dos trilhos, entre o Bacacheri e a Boa Vista. Volta a pé de sua casa, indo em direção ao carro, que precisou deixar em frente ao restaurante Forninho. Tendo participado de um jantar com familiares, não conseguira encontrar a chave do veículo na hora de ir embora. Um pouco alto por conta do vinho, tomara a decisão de caminhar até seu apartamento, no Bacacheri, para buscar a cópia. 

 

Por morar na rua Costa Rica, próximo à ciclovia, decide voltar por esta. Afinal, é um trecho curto, e a noite está iluminada. Ainda intrigado com o sumiço da chave principal, decide apalpar todos os bolsos, até mesmo os mais improváveis, enquanto caminha na pista que ladeia a linha férrea. É quando percebe algo que lhe escapara antes: Há um furo na forração do bolso interno do paletó. Alisando o vestuário pelo lado externo, acabo sentindo uma protuberância próxima às costuras inferiores. A peça procurada havia caído para dentro do forro da roupa!

 

Cismado com isso, começa a comprimir a lateral do paletó com as mãos, forçando a chave para cima, decidido a recuperá-la antes de chegar ao restaurante. Uma ideia tola, mas irresistível. E o esperado acontece: distraído com esses movimentos, tropeça nas irregularidades da ciclovia no mesmo instante em que consegue remover o objeto do forro. Com a queda, a pequena peça voa de suas mãos. Na sequência, ouve-se um tilintar. Sua refinada audição confirma: metal contra metal. Ela está nos trilhos, com certeza. 

 

Sem titubear, o homem se agacha, acende a lanterna do celular e começa a apalpar a estrutura metálica, presumindo que a cavidade entre o boleto e o patim possa estar alojando a chave. E é neste momento que escuta uma voz feminina, rente a seu ouvido:

 

- Encontrou?

 

Surpreso e assustado, Walter dá um pinote, enquanto vira a face na direção do som. Mas não vê ninguém.

 

- Olá! Quem está aí?

 

Não há resposta. Aponta sua lanterna para todos os lados, e nada. Então, dá-se conta da concentração de árvores e moitas à sua direita. Escolhe para si a explicação mais simples: alguma jovem escondida, divertindo-se às suas custas.

 

- Moça, você pode achar engraçado assustar os outros assim. Mas essa brincadeira pode acabar mal. Pare com isso, antes que haja uma tragédia e você se arrependa para o resto da vida!

 

Junta sua chave, bufa e segue em direção ao seu objetivo. Mas antes de se distanciar do local, escuta aquela voz de novo, agora em tom de lamentação:

 

- Tragédia? Resto da vida?

 

Alto da bebida e da adrenalina, o homem retruca, ríspido.

 

- Vá para o inferno!

 

- Não posso. Estou presa aqui! - Replica a voz, ainda mais lamuriosa.

 

Inquieto e oscilante nas emoções, Walter acelera o passo até parecer correr. E ganha a rua, dobrando à esquerda na mesma velocidade. Só diminui diante do seu veículo.

 

Assustado e sem saber o que concluir do ocorrido, entra no carro, vai para casa e não comenta o assunto com ninguém. Os dias passam. O desgaste cru e palpável com os problemas do cotidiano acaba por fazer sumir, nas subcamadas da memória, a voz aflita daquela mulher. Mas até isso ocorrer, uma fala obstrui seu repouso todas as noites, antes de dormir: "Encontrou?" 

 

 

Um ano atrás

 

O aniversário de uma sobrinha faz Walter comparecer ao bar Menina Zen, na rua Itupava. Salvo algumas exceções, encontrar membros da família é algo que costuma lhe fazer bem. Mesmo sendo pouco falante, aprecia festas e seus clichês: abraços, brindes, conversas, elogios às músicas, boas comidas. E, claro, boas bebidas. 

 

Ele gosta bastante de destilados. Mas a recíproca não costuma ser bem verdade. Dor de cabeça e azia sempre o visitam no dia seguinte, não importa se tenha ingerido muito ou pouco. Às vezes, a tonteira vem mais rápido. Quando isso ocorre, Walter prefere ir embora. 

 

Mas no caso desta festa, não há tempo para avaliar se os drinks já lhe causaram algo. Pois sua irmã vem lhe dizer que a prima Eunice está ali, desejando falar com ele, coisa que não permite há anos. Responsabilizando-a por humilhação sofrida em evento público, não aceita ouvir sua versão dos fatos desde então. A dor e a raiva não passam, apenas adormecem, porque Walter ousara apaixonar-se por ela, abrindo todos os flancos da alma. Este sentimento fizera todo o episódio ser recebido no coração como um punhal traiçoeiro e premeditado. 

 

O homem finge ir ao banheiro e desaparece da festa. Quando passa pelo portão do estabelecimento, recebe também o recado das doses etílicas: é mesmo hora de se recolher.

 

A rua Itupava é muito ativa à noite, sobretudo às sextas. Foi preciso estacionar na via transversal, num trecho de terreno que ladeia os trilhos do trem. O pedaço para caminhar é pequeno, mas o efeito do Gin o faz demorar um pouco mais. O barulho de um bate-boca do outro lado da linha férrea o distrai, permitindo que passe do local correto, até bater com o pé num dos dormentes. Quando se dá conta, sua primeira reação é olhar em volta para localizar o veículo. Isso leva alguns segundos. Tempo suficiente para que o vento frio da noite sopre em suas têmporas, entregando aos ouvidos uma voz conhecida:

 

- Encontrou?

 

O coração de Walter quer saltar pela boca. A mesma fala de um ano atrás se repete! E acontece, outra vez, próxima aos trilhos.

 

 

Tempo presente

 

Meio sem ação, Werner gagueja uma breve frase:

 

- M-mas.... Isso é espantoso!

 

- Difícil de aceitar, né? E ainda assim, cá estamos. 

 

- Tentou saber se havia algum outro registro sobre esse mistério?

 

Walter sorri ante a abrupta indagação do mais jovem. Percebe que o assunto é bem menos imobilizador para seu colega. 

 

- Interessante você dizer isso assim, tão rápido. Eu mesmo levei semanas para tomar alguma iniciativa.

 

E, dizendo isso, puxa, do bolso, uma caderneta cheia de anotações.

 

- Após a segunda "aparição", pesquisei um pouco em jornais e periódicos. Encontrei relatos parecidos. Muito pouco elucidativos, é verdade. Levados tão "a sério" como tantos outros "causos" que já ouvi nessa cidade. Ou seja, ninguém se aprofunda; e vira mais uma história de bêbados que, no máximo, ganha o status de lenda curitibana.

 

Werner coça a cabeça e, meio sem jeito, propõe:

 

- Bom... não me interessa ir para a lista dos bêbados contadores de "causos". Eu topo tentar fazer alguma coisa a mais com essa história, se é o que você está querendo.

 

Walter balança a cabeça, concordante.

 

- Acho que a primeira coisa é pesquisar fatos envolvendo a linha férrea. Vamos começar por tragédias ou mistérios. Pode ser um tiro n'água. Mas é um ponto de partida com alguma lógica.

 

- Essas ferrovias são do final do século XIX. Não tenho muita noção da quantidade de casos trágicos envolvendo o trem pra Paranaguá. Talvez seja uma pesquisa longa...

 

- Ou talvez não. 

 

Werner demonstra não entender esse último murmúrio do colega. Dando mais uma baforada em seu cigarro, o veterano solta mais um grupo de palavras com a pretensão de soar mais claro:

 

- A voz que ouvimos é feminina, adulta. E parece procurar algo. Isso já deve restringir bastante as notícias que combinem.

 

- Certo. Faremos nossas pesquisas e iremos nos falando, então. É isso?

 

- Se não se importar, Werner, gostaria de propor algo mais dinâmico. Essa história pode ser nova para você. Mas ela já me persegue há dois anos.

 

- Entendi. E o que sugere?

 

- Poderíamos testar a teoria de que a aparição ocorre às sextas, escolhendo trechos diferentes do trilho para visitar nessas noites.

 

Werner faz gesto de concordância, embora tenha vislumbrado a estranha cena de dois homens à beira da linha férrea, à noite, oferecendo-se como iscas, achando-a ridícula e pouco segura. Em seguida, ambos se despedem e cada um arranja seu transporte para casa.

 

A primeira das noites de investigação chega, e nada de especial ocorre. Nenhum dos casos estudados em jornais antigos até ali parece relevante como pista; e tampouco o trecho ferroviário escolhido testemunha algum fenômeno fantasmagórico ou inusitado.

 

 

Quinta-feira

 

- Alô!

 

- Walter? Bom dia! Desculpa ligar tão cedo! É o Werner.

 

- Opa! Tudo bem com você? Não o vi ontem à tarde no trabalho...

 

- Eu pedi liberação e me ausentei. Acho que encontrei algo! Uma história envolvendo sumiços e acidentes! Na hora em que você puder, conversaremos.

 

A informação, que deveria ser estimulante para Walter, parece deixá-lo desconfortável demais. Como se houvesse um pressentimento de urgência, uma sensação pesarosa. De imediato, reage:

 

- Há uma padaria perto do trabalho. Que tal tomarmos café por lá daqui a pouco?

 

Com a concordância do colega, ambos se encontram no local combinado às 7h30. Após a escolha da mesa e os pedidos, o veterano inicia: 

 

- E então, Werner, o que você descobriu?

 

- Ainda não diria que é uma descoberta. Mas fiz uma leitura que me levou a cogitar outra coisa. Encontrei na internet o estudo de uma formanda da UFPR, retratando as questões sociais provocadas pela passagem dos trens de carga no centro de Paranaguá.

 

Walter demonstra estar confuso com a frase do colega.

 

- Calma, que já fará sentido. Decidi ler o trabalho, para ver se encontrava alguma coisa por ali que remetesse a algum acidente em Curitiba. Não encontrei. Mas li um trecho que me fez pensar numa outra possibilidade: o fato de parte da população se arriscar, durante as manobras do trem, passando por baixo das conexões entre os vagões, por não desejar esperar até que o comboio se retire. Em muitas ocasiões, ninguém faz nada para impedir. Mas, às vezes, profissionais ligados ao transporte tentam intervir, buscando convencer as pessoas a saírem do local, ou insistindo para que se abstenham de tais práticas.

 

- Espere... mas aqui nesta região os trens não fazem manobras. Só próximo ao porto; ou na localidade onde as mercadorias são depositadas nos vagões.

 

Werner o encara e responde, de forma ambígua:

 

- Por certo! Mas há outras situações que podem fazer um trem parar. Um bloqueio nos cruzamentos, por exemplo. Encontrei, assim, uma história muito curiosa: há cinquenta anos, um menino decidiu imitar cenas de seriados da TV e, aproveitando um trem que precisou parar - por bloqueio em cruzamento -, enfiou-se debaixo da conexão dos vagões. A brincadeira, contudo, quase virou tragédia: suas roupas engancharam nos cabos do vagão. O garoto se desesperou. Quando sua mãe percebeu, começou a gritar, até um cidadão correr ao local e resgatar a criança. E tudo isso aconteceu pouco antes da marcha do comboio prosseguir.

 

- Até aí, não houve tragédia...

 

- Pois é. Mas o nome do cidadão, citado como um herói, chamou-me a atenção: Oswaldo Petrônio.

 

- Quem?

 

Werner faz um sorriso meio sem jeito.

 

- Sei que não é ninguém para você. Mas, no meu caso, ele era meu tio-avô.

 

Walter fica perplexo. O colega mais jovem prossegue:

 

-  Então lembrei de histórias ouvidas quando criança, sobre ele ter passado mal após o resgate. Ele iria noivar naquele dia. Mas o momento romântico não chegaria a ocorrer. O anel, tão esperado, não estava com ele, quando chegou à casa da pretendente. Sua alegação de não saber como o anel caíra de seu bolso durante a boa ação, foi mal-recebida. Minha avó sempre achou que a tensão para salvar o menino, aliada ao desentendimento com a família da noiva – que nunca o aceitara bem, por razões de berço - foram carga demais para seu coração. 

 

- Então ele teve um infarto?

 

- Fulminante. E a jovem a ser desposada, Amélia "Sei-lá-das-quantas", mergulhou em depressão. As "línguas de plantão" diziam que enlouquecera pelo remorso de não ter acreditado em seu noivo - tido como herói pela comunidade -, que jurava ter perdido o caríssimo presente ao salvar o menino nos trilhos... 

     

- Então acha que...

 

- Ué... Fiz o que foi sugerido: procurei tragédias que envolvem a linha férrea. Esta envolve. Ninguém morreu nela, mas tivemos mortes ligadas a fatos iniciados ali.

 

- Mortes? No plural?

 

- Pois é. A segunda parte da história, que eu não conhecia, é ainda mais triste. Fui procurar saber o que se deu com a tal Amélia. Foi sinistro: inconformada com a culpa que sentia - talvez até exagerada -, começou a procurar o tal anel pelos trilhos, todos os dias. Esse comportamento obsessivo só piorou, embora ela sempre voltasse para casa, às vezes guiada por algum familiar. Porém, houve aquele fatídico dia em que a mulher não retornou. Por mais que a família a tivesse procurado, nenhuma pista de seu paradeiro foi obtida, jamais. E o dia da semana que marca seu sumiço é uma...

 

- ... sexta-feira? Curioso não termos achado muitas notícias sobre isto. - Murmura Walter.

 

- Desconfio saber a causa: era uma família abastada e poderosa. Deve ter obtido a garantia do quase silêncio sobre o assunto, valendo-se da sua usual influência, com ou sem a presença de ofertas monetárias.

 

- Quase silêncio?

 

- Sim. Sempre há alguma pessoa que fica sabendo e, por comoção ou por maledicência, passa o assunto adiante. Eu só precisei ir perguntando para os mais ligados à história desse meu tio-avô. Até encontrar alguém que guardasse os "causos", como legado familiar. 

 

- Impressionante, Werner. Que pesquisa!

 

- Obrigado, mas ainda é muito "chute". Vamos ver se coincide mesmo.

 

Ante a expressão de dúvidas feita por Walter, o mais jovem complementa:

 

- Poderíamos ir até os trilhos outra vez amanhã. E "provocar" sua aparição. Aí, tendo sucesso... talvez consigamos resolver o caso.

 

O veterano não entende muito o significado de "resolver o caso" na visão do colega. Mas ele queria um aliado para superar sua inquietação com as vozes dos trilhos. E conseguiu. Assim, acha não ser hora de fazer perguntas. Topa a proposta. E a ação é marcada para a próxima sexta. Ou seja, o dia seguinte. 

 

 

Sexta-feira à noite

 

O local escolhido pelos dois colegas é o ponto de proximidade entre o trilho e a ciclovia, ao se aproximar da rua Vicente Ciccarino, na Boa Vista. Além de ter sido o trecho de primeiro contato de ambos com a aparição, também é a referência mais constante nos parcos relatos encontrados. Esta região possui mais iluminação, hoje em dia, por conta da inauguração de uma panificadora bem próxima, a Bella Curitiba. Seu estacionamento e as próprias luzes da edificação melhoram a visibilidade noturna das vias.  

 

Ao chegar, Walter aguarda momento de intervalo nos ruídos próximos. Então simula procurar algo, imitando os movimentos feitos há dois anos. O silêncio prossegue. Mexendo-se de forma um pouco mais espalhafatosa, acaba chutando um pedregulho por acidente. Este bate no metal do trilho. Súbito, a quietude do lugar aumenta. Quase não há ruídos de insetos. E um som, conhecido de ambos, se faz ouvir:

 

- Encontrou?

 

Os homens se entreolham. Acreditam, agora, existir três condições para a manifestação sobrenatural ocorrer: ser sexta-feira à noite, alguém estar procurando algo, e haver contato ruidoso com os trilhos.

 

Mais afoito e menos prudente, Werner reage à voz com uma pergunta:

 

- É você, Amélia?

 

Não há respostas. Insetos são ouvidos outra vez. Interrogativo e meio sem ação, Walter cutuca o colega, que insiste nas tentativas de contato.

 

- Amélia...? Se for você...acho que encontramos o que procura...

 

Nem o olhar de perplexidade do parceiro veterano o intimida neste momento. Prosseguindo em seu intento, ele remove do bolso uma caixa porta-joias. Ao abri-la, um anel cravejado de pedras diminutas reflete as luzes próximas, causando belo efeito.

 

Há um silêncio total, agora, naquela parte da ciclovia. Nem mesmo grilos são ouvidos. Os dois homens sentem a proximidade de um perfume sofisticado e nostálgico. Uma aura de melancolia contagia a ambos. E, neste exato instante, a imagem pálida e sofrida de uma mulher apresenta-se entre os dois, deixando-os paralisados. Em seguida fala, em tom sereno, mas entristecido:

 

- Obrigada... Mas, não... Não é este...

 

Assim como veio, ela some. Um choro agudo e espectral pode ser ouvido. Arrepios angustiantes percorrem as têmporas dos dois homens. As testas aquecem de forma desconfortável. Sem saber o que fazer, ambos pedem desculpas em voz alta, fitando o ponto de ocorrência da aparição. Num arroubo intuitivo, Werner grita:

 

- Não há outra forma de te ajudar? 

 

 

Um novo sopro de ar é ouvido entre os galhos das árvores. As têmporas dos homens sentem novo arrepio. Um sussurro severo os invade. Ela reaparece, fitando-os. Interrogativa e suplicante, mas sem nada a dizer.

 

Como se uma voz interior aconselhasse Walter, o veterano tem um estalo e resmunga para o colega mais jovem.

 

- Diga que sua família a perdoa.

 

- Como é...?

 

- Você não disse que o tal Oswaldo era seu ancestral?

 

O jovem parece demorar um pouco para processar o que é dito. Então, seus olhos informam ter entendido e concordado.

 

- Amélia! Sou da família de Oswaldo. Nós te perdoamos. Foi uma fatalidade. Não culpamos mais ninguém.

 

O brilho espectral da noiva muda para tonalidade mais suave. Como se parecesse mais leve. Então ela se volta para o veterano.

 

- E você?

 

Surpreso e sem jeito, o homem gagueja.

 

- E-eu te perdoo também...

 

- Não! Não eu! Ela... e você...

 

Walter sente arrepios correrem sua espinha. Vergonha, susto, mágoa... Tudo vem à tona, desarmando-o.

 

- Quer que eu faça isso?

 

- Sim. Não me siga. Não é bom aqui...

 

A luminescência cresce, incomodando os olhos e as consciências da dupla. Então, tudo cessa. E a noite volta para sua melodia habitual, com grilos, ruídos distantes de carros e o crepitar de árvores.

 

- Nossa... O que você achou disso tudo? - Pergunta o mais jovem, atônito e frustrado.

 

O colega veterano, como de hábito, fica alguns instantes em silêncio, pesaroso. Depois, respira fundo e fala: 

 

- Primeiro, meu reconhecimento à sua ousadia. Você foi fundo na abordagem. Apostar num anel, presumindo que ela nunca tivesse visto o presente "original", foi um bom ardil. 

 

 

- É, né...? Mas não "colou". - Responde Werner.

 

- Verdade. Contudo, na minha visão, serviu para confirmar: ela é mesmo o fantasma da Amélia. E, ao que parece, não quer descansar sem achar o que busca. Mas...

 

- Mas o quê?

 

- Talvez o perdão seja mais poderoso que um anel. Se for sincero, pode ser outra forma dela se redimir.

 

- Não sei se fui sincero. Nem pensava nisso. Nem sei o que minha família pensa. - Fala Werner, encabulado.

 

- Eu sei. Só descobriremos se "colou" com o tempo. Mas senti existir outras maneiras dela alcançar essa redenção. Maneiras nas quais há o que fazer, também. Ao menos, foi como entendi seu último recado.

 

O mais jovem dos dois homens mostra-se confuso com a última fala do colega, que decide ser mais didático:

 

- Ao perguntar se ela esperava alguma atitude minha, a resposta foi "sim", porém disse uma frase curta e ambígua: "Não me siga".

 

- É. Tipo: "deixe-me em paz"...

 

- Ou tipo: "não faça o que eu fiz".

 

Perplexo, Werner encara o veterano, que se expõe:

 

- Ao longo da minha vida, fui rígido e presunçoso o bastante para não dar o benefício da dúvida a algumas pessoas próximas. Em especial, a uma delas. No fundo, uma voz aqui dentro sempre me contestou sobre tal atitude.  Mas o orgulho e, às vezes, a vergonha, tornaram cômodo manter a decisão sem revisão, sem me retratar, mesmo sabendo o quanto doía.

 

- Nossa. - Resmunga Werner.

 

O veterano olha para o nada, onde enxerga a si mesmo, e vaticina:

 

- Talvez esta seja uma quarta condição para se conseguir ver  essa "noiva fantasma": ter pendências no coração e dificuldades para encará-las. Tal qual ela. O fantasma pode estar procurando pessoas assim por comunhão de sentimentos. Ou por algo mais...

 

- "Algo mais"?

 

- Mútua ajuda, talvez. Quem vai saber, né? Não custa pensar nisso.

 

- Não tinha entendido dessa forma. - Responde, evasivo, o mais jovem. 

 

Percebendo o contrangimento, Walter silencia. Seu colega, talvez, ainda precise de alguns anos a mais de amargor para concluir a mesma coisa. Assim, não insiste com o assunto.

 

- Bom... é só a minha percepção. Deixa pra lá. Está na hora de irmos, né?

 

A resposta de Werner vem num silencioso assentir com a cabeça.

 

O coquetel de emoções do episódio vai da curiosidade saciada à frustração da impotência, passando por reflexões sobre chagas latentes. E alguma fagulha de esperança. Digerir tudo, cada um à sua maneira, não é simples. Os dois voltam em silêncio para suas casas e rotinas. 

 

É possível que o mais jovem evite falar no assunto por alguns anos; exceto quando não estiver sóbrio. Talvez o mais velho comente; porém, selecionando os ouvintes. Relatos assim costumam impressionar poucas pessoas; enquanto despertam deboches e piadas em muitas. 

 

O tempo dirá se o mistério foi resolvido e superado com a atitude dos dois homens. E a vida pode até seguir, como se nada de especial tivesse ocorrido nesta noite. Ou mesmo existido. Pode tudo ser tratado como apenas um lenda urbana menor.

 

Mas alguém testemunhou haver esperança de desfecho para o drama de Amélia. Senão agora, talvez num futuro próximo. Pois sempre existirão conversas de bar. E corações aflitos por redenção, que talvez venham a perder algo perto dos trilhos, numa sexta-feira à noite.