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Os negócios do velho Jacinto não iam bem. Apesar de não ter concorrência no pequeno município do interior gaúcho, a clientela estava diminuindo a olhos vistos, o faturamento caía quase ao limite para sustentar a padaria inaugurada há pouco mais de dois anos. Não encontrava explicação. Produzia com a melhor qualidade, pagava bem aos três dedicados funcionários, mas o lucro definhava. Não era só isso, nos últimos meses, reparou que a cidade também esvaziava de habitantes. Tal fato o obrigou a imaginar que, talvez, as pessoas estivessem migrando para searas mais prósperas. A recessão implacável não exprimia justificativa, apenas revelava os efeitos. 

Tudo aconteceu de madrugada, pelas seis da manhã, com o céu invernal ainda escuro, escutou as fortes batidas na porta do estabelecimento construído em estilo colonial, próximo à bucólica praça principal da região. Zonzo de susto e de sono, correu para verificar o que ocorria e se deparou com a casa cercada por 15 patamos e por um pequeno exército de homens de preto armados para a guerra, um deles balançava uma folha de papel diante do seu rosto. Tinham mandado e ordem de prisão. Reviraram tudo, abriram os pães franceses, as tortas, os quindins, vasculharam os fornos, olharam dentro das panelas, ensacaram agendas, blocos e caderno de receitas. Ao fim, o algemaram e o enfiaram numa das viaturas do cerco. Um assíduo grupo de fregueses, que ansiava pelo pão quente, observou tudo com pânico e perplexidade nos olhos. Dois policiais fecharam a padaria e lacraram as entradas com fitas amarelas. Alguns cidadãos fomentaram o boato de que foi intervenção da vigilância sanitária, que flagraram ninhos de camundongos nos sacos de farinha, que os brigadeiros tinham mais de um ano na vitrine e que o padeiro nunca foi padeiro, mas um açougueiro que faliu, matou a mulher e não entendia nada de confeitaria.

O camburão levando o comerciante, junto com os homens de negro e toucas ninja, acelerou cantando pneus até a delegacia. Desembarcaram sob uma chuva fina, num frio de cortar os ossos. Jacinto, acostumado com o calor das fornadas, vestia um casaco fino e rangia os dentes enquanto o empurravam para o fundo de uma cela penumbrosa e úmida.

- Aproveite a estadia – ironizou um dos policiais.

Nenhuma explicação, nada. Ele, simplesmente, desconhecia o motivo da prisão. Algumas horas depois, alguém o conduziu ao telefone e o orientou a ligar para um advogado. Lembrou-se somente do Dr. Nestor, que atuava como despachante, mas possuía formação em Direito e era membro da OAB. A demora foi angustiante, mas finalmente o defensor chegou, trêmulo, num terno amarrotado e gaguejando vênias para disfarçar o amadorismo.

 - O que está acontecendo, Dr. Nestor? Por que estou preso?

- Seu Jacinto, fique calmo. A prisão é temporária.

- Mas o que eu fiz?

- Não sei. Não me permitiram ver o processo. Mas disseram que a prisão é temporária.

- E o que vai acontecer agora, Doutor?

- Vamos aguardar, Jacinto. São só cinco dias e antes disso saberemos o motivo.

Jacinto continuou em brancas nuvens, numa cela gélida de 5 metros quadrados, com uma latrina suja.

Não existia janela na detenção, não distinguia se era dia ou noite. Em determinado momento, perdeu a noção das horas e nem atinava se estaria ali por mais de um dia. Passou a riscar na parede, com uma faca de plástico, a única marcação de tempo possível, a chegada das quentinhas do almoço e da janta, cada duplo intervalo formava um dia. Algumas vezes, se viu obrigado a comer com a mão e marcar a parede com a unha, pois não forneciam os talheres e ignoravam as suas queixas. Ele contava o quarto dia quando vieram três homens vestidos em ternos finos e engomados. Cheiravam a colônia de barbear e tinham semblante de lambri. Traziam o Dr. Nestor.

- Está pronto para falar? – perguntou um deles.

Jacinto encarou o advogado com uma interrogação.

- Comeram a tua língua, velho? – insistiu o sujeito.

- Falar o quê? – respondeu Jacinto.

- Você sabe...

Abriram a grade e o empurraram por corredores labirínticos até uma sala bem iluminada, toda revestida em fórmica bege, bem aquecida, com duas visíveis câmeras de filmagem apontadas para uma das cadeiras e decorada com uma mesa redonda que tinha no centro uma tigela de bombons Serenata de Amor. Sentaram-no de forma brusca e um longo silêncio constrangedor antecedeu a primeira frase da inquisição.

- E aí, seu Jacinto? Nós queremos ajudá-lo, mas precisamos da sua ajuda.

- Mas ajudar em quê? O que eu fiz para estar aqui?

- Somos os promotores do caso e queremos a sua colaboração. Basta olhar algumas fotos e nos apontar pelo menos um cúmplice, um culpado. Fazendo isso, poderá ficar detido em sua residência e desfrutar de algumas vantagens concedidas pelo juiz.

- Culpado de quê? Cúmplice de quem? Não estou entendendo nada – grita Jacinto.

Um dos homens fez um breve sinal com a mão, dois guardas levantaram Jacinto pelos ombros e o jogaram novamente na cela insalubre.

Minutos depois, surgiu o Dr. Nestor com a sua gagueira consolativa.

- Jacinto, meu velho, faça o que eles pedem – aconselhou com brandura.

- Mas fazer o que, Doutor? Nem sei o que estou fazendo aqui.

- É coisa grande. É caso de corrupção e usurparam os cofres públicos. Apenas faça o que pedem. Do contrário, sua prisão vai de temporária para preventiva, e Deus sabe se sairá daqui um dia.

- O que é isso?! Eu sou padeiro, não tenho nada a ver com governo nem com política. E os meus direitos?

- Eles informaram os seus direitos. Pense no assunto.

Dr. Nestor se retirou debaixo da vista escandalizada de Jacinto.

- Contratei um advogado só para me mostrar o beco sem saída quando devia me tirar dele – murmurava contrariado.

No dia seguinte, Jacinto sentiu de longe o odor da água-de-colônia se aproximando. Novamente, os homens vestidos de gabinete o convocaram à sala de fórmica. Desta vez, Jacinto ousou e pegou um dos bombons da tigela. Sorveu lentamente o gosto do chocolate, mastigando com delicadeza as nozes crocantes que o recheavam. A saudade da padaria o invadiu...

- Está pronto para cooperar, seu Jacinto?

- Onde está meu advogado – perguntou, percebendo a ausência do Dr. Nestor.

- Ele deve estar chegando. Pronto ou precisaremos prorrogar a sua prisão?

Jacinto sentiu náuseas ao ouvir sobre a prorrogação. Estava fraco, dormindo mal, com dores no corpo. Pediu perdão a si mesmo, virou-se afirmativo para um dos promotores que, em seguida, jogou um calhamaço na mesa.

Com o coração apertado, Jacinto olhava as fotos e decidiu apontar para Dona Gonçala, uma de suas freguesas que vivia reclamando do gosto do pão. Assim que confirmou a denúncia, informando o nome e endereço da culpada para a câmera posicionada à sua frente, o arrancaram da mesa e o conduziram a outra sala, onde outro homem de terno aguardava.

- Seu Jacinto, a partir de agora o senhor ficará em prisão domiciliar, sem contato com ninguém; nada de telefone, internet ou correspondência. O senhor continuará sendo provido de alimentação nos horários adequados. Quando tivermos outras instruções, será contatado por um dos nossos agentes. Sua casa ficará sob vigia constante.

- Mas e minha esposa? Terei contato com ela?

- Seu Jacinto, conhece as regras. Boa tarde.

- Mas?...

- Peço ao senhor que não mais se manifeste, estou sendo o mais educado que posso.

Mal terminada a frase, o forçaram para fora, lançaram dentro da viatura e o escoltaram no retorno ao lar. Durante o caminho, percebeu a cidade vazia, comércio fechado, fitas amarelas rodeando casas e lojas por todos os lados. Ao entrar em casa, não encontrou a mulher. Por todos esses dias, não teve notícia dela, nem dos filhos nem dos netos. Não avistou nenhum vizinho. Exausto, Jacinto não queria pensar em mais nada, desejava somente o colchão macio de sua cama e umas boas horas de sono. Deitou-se e desmaiou, só abriu os olhos, um pouco sobressaltado, quando ouviu o som de um veículo trepidando pelas ruas de paralelepípedos.

O jovem Iranildo e seu pesado caminhão atravessavam a cidade buscando um ponto para atracar e descarregar. Estranhou os depósitos fechados e rodeados de fitas. Todas as vias desertas, só constatou movimento na área da delegacia e do fórum, onde homens de ternos sóbrios, outros de uniformes pretos e alguns com capas pretas esvoaçantes perambulavam em passadas rápidas e gestos nervosos. De repente, uma patamo cruza o caminhão e o faz frear sem prudência. Logo é cercado pela tropa de toucas ninja, puxado para fora da boleia e atirado numa cadeia bolorenta e sombria.

Cinco dias se passaram, o homem de terno jogou novamente o calhamaço na mesa e alertou que seria a última chance para Iranildo delatar ao menos um cúmplice. Ele já havia tentado entregar 20 pessoas, do dono da transportadora ao frentista do posto, os promotores disseram que eles estavam presos, queriam um nome novo. Viu a foto do Dr. Nestor e berrou que era ele, nada feito. Ele exigiu um advogado, mas todos os advogados da cidade fugiram, teria que aguardar, convocariam um defensor público da capital. Por fim, quase sem esperança, mostraram a fotografia de dona Hidalina, uma senhora pálida, de olhos meigos e cabelos embranquecidos. Tombado por esgotamento e frustração, Iranildo chorou e com o dedo em riste pressionou o indicador contra o retrato.

- É ela – confirmou aos prantos para a câmera.

Após denunciar a mãe, Iranildo foi trancafiado no quarto de uma hospedagem humilde e deveria obedecer às mesmas regras de todos os outros suspeitos. Ficaria incomunicável, exceto ocorresse nova decisão.

Do lado de fora, a vida prosseguia e a primavera anunciava os seus encantos. Entre árvores frondosas, as flores brotavam dos jardins bem cuidados do imponente fórum de Arroio dos Justos (que antes de ser recentemente rebatizada, se chamou Arroio Verde). Curiós e bem-te-vis cantavam sobre togas bem passadas e paletós perfumados. A liberdade se reduzia a um privilégio rebelde da natureza, que insistia em debochar das perversões humanas.           

 
Alexandre Coslei
Enviado por Alexandre Coslei em 01/12/2016
Reeditado em 01/12/2016
Código do texto: T5840252
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Sobre o autor
Alexandre Coslei
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