Mr. Fakeness


     Na pequena estação de Rio Calmo o grande relógio do saguão marcava três horas e vinte minutos. O sol estava à pino e o relógio, quebrado há muitos anos. E isso era, também há muitos anos, a única anomalia daquela cálida e minúscula vila, às margens da Estrada de Ferro Madeira Mamoré.
     O apito do trem do meio dia se fez ouvir por toda a redondeza. Não houve alvoroço na estação. Primeiro porque só havia o zelador, que também era o vigia e dona Zefa Princess (Princesa Preta para os íntimos), que cuidava da lanchonete. Depois porque aquele trem era o cargueiro da quinta. Ele não parava ali, nunca! Dona Zefa se preocupava com o preparo de tapiocas, mingaus, bananas fritas e outras comidas típicas para receber o trem das duas... Assim, tanto o apito quanto o próprio ranger dos vagões já integravam aquela reinante e monótona quietude. Mas de repente a experiência de anos e anos de estação fizeram dona Zefa perceber, pelo barulho diferente na composição que se aproximava, que o trem estava diminuindo a marcha. "Mr. Sleeper! O trem vai parar!" gritou para o vigia que fazia sua sesta numa mesa isolada. "Mas ainda não são duas horas...", retrucou o vigia, visivelmente confundido. “Por esse aí, oh! Até já passou o horário”, resmungou enquanto, levado pelo costume dos músculos, consultava o velho relógio quebrado apontando-o com um olhar comprido.
     Estava certa dona Zefa: O trem parou. Mas foi uma parada anormal. Trazia no cargueiro um velho ferroviário ardendo em febre. "Daqui a pouco passa a litorina¹ e leva Mr Fakeness para Porto Velho. Ninguém sabe o que ele tem. ", sentenciou o Chefe da composição, que após acomodar o coitado numa velha poltrona seguiu viagem.
     A litorina estava quebrada e sem previsão de retorno, a poucos quilômetros de Rio Calmo. Foi o que o pessoal da manutenção de trilhos avisou quando passou em sentido oposto, sobre uma velha cegonha². Sugeriram levar Mr. Fakeness para Guajará-Mirim, no trem de passageiros que passaria logo mais, mas essa ideia foi logo descartada. O “fuzuê” tava tão grande que até esqueceram do objeto principal, na berlinda: Mr. Fakeness, James Fakeness, nosso doente. "Mr Fakeness sumiu", gritou dona Zefa - "Mas creio que não foi longe, pois deixou o relógio de algibeira"
     Sumiu mesmo! E foi, sim, pra muito longe. Misteriosamente desapareceu! Ninguém sabia o seu paradeiro. Até a administração da Ferrovia empenhou-se em localizá-lo, a partir do terceiro dia após o ocorrido. A notícia se espalhou por toda a Ferrovia e não se falava em mais nada de Porto Velho Velho a Guajará-Mirim.
     Na madrugada do quarto dia, terça-feira, 19 de setembro de 1944, Mr Fakeness reapareceu na mesma Estação da Vila de Rio Calmo, para apanhar o velho relógio de algibeira que ali tinha deixado. Havia pouca gente na estação, mas logo chegou o trem que vinha de Guajará-Mirim e toda a tripulação quis saber o que ocorrera. Foi aí que Mr Fakeness começou a narrativa que se segue: “Pois bem, gente! No meio daquela confusão um índio Karipuna me levou para a sua aldeia. No caminho, me fez mastigar uma raiz e a minha febre aliviou em seguida. O pajé da aldeia é um americano chamado Carl Lovelace, que dizia ser médico. (Esse nome, não me é estranho) Ele me deu Aralen, um remédio que só ele tem. Aí fiquei em repouso absoluto por três dias. Depois o mesmo índio veio me trazer aqui perto. Estou totalmente curado.”
     De princípio a história não ofereceu nada de especial a não ser no que dizia respeito ao pajé/ médico americano. Ainda assim, no dia seguinte Mr Fakeness foi chamado no gabinete do diretor da Ferrovia e repetiu a mesma história, dessa vez com mais detalhes, ante a incredulidade do administrador. “ Doutor, é a pura verdade. Sem aumentar ou diminuir.”, concluiu.
— Pois bem, Mr. Fakeness! Carl Lovelace foi um médico que esteve por aqui até 1913, daí voltou para os Estados Unidos. Já deve ter mais de sessenta anos, se já não for falecido... Esse remédio aí que o senhor está dizendo ter tomado, Aralen, consultei alguns médicos e nenhum deles sabe do que se trata. O tal “Doutor” lhe explicou alguma coisa sobre ele? O senhor, por um acaso, tem uma amostra dele.
— Não deixou trazer, não senhor. Disse que é o remédio do futuro... Mas disse também que era um tal de "cloro-quinino"
— "Cloroquina"?
— Isso! O senhor conhece?
— Só de ouvir falar. Ainda está em pesquisa.
     O tal medicamento realmente ainda estava em fase de pesquisa e nem nos Estados Unidos havia sido liberado para uso humano. Fizeram um pacto de silêncio para que a quietude voltasse a reinar na ferrovia, sobremaneira em Rio Calmo. E quase deu certo. Quase! Pois poucos dias depois, um jornal local estampou a manchete "Morre no Texas Carl Lovelace" e acabou a calmaria de Rio Calmo, assim como a de toda a ferrovia. "O Médico Carl Lovelace morreu no dia 14 deste mês, aos 68 anos e alguns meses de idade, deixando uma linda história de vida...", prosseguia a matéria. Um exemplar do jornal ficou “bolando” pela estação até protagonizar outra situação inusitada…
— Princesa Preta! - Gritou apavorado Mr. Sleeper — Foi na quinta!
— O quê foi na quinta, homem de Deus!
— A morte do Dr. Lovelace! No mesmo dia que Mr. Fakeness desapareceu, mulher…
— Mesmo?... Nossa senhora! Agora me deu medo, Mr. Sleeper!
— Princesa, a senhora não vai acreditar, tem mais uma coincidência. O Dr. Lovelace morreu um dia depois no aniversário de criação do Território. Exatamente um ano e um dia da criação. Deve ter morrido feliz, com a nossa emancipação…
     Alguns anos depois…
— Aralen! — Grita Mr. Sleeper, olhando por cima dos óculos e do jornal que lia na velha mesa do canto, como se buscasse com o olhar a presença de dona Zefa Princess.
— Quem é essa? Tá sonhando, Mr Sleeper? — Resmungou Emile Princess, filha de dona Zefa e nova administradora do “Restaurante”.
— É o novo remédio para impaludismo, que inventaram agora!
— Sim, mas… porque o espanto?
— Ele ainda não tinha sido inventado quando receitado para o Mr. Fakeness pelo Dr. Lovelace, que já tinha morrido…
— Que confusão Mr. Sleeper!
— Se dona Zefa fosse viva… ou Mr. Fakeness… É muita emoção pra uma pessoa só...
— Durma Mr. Sleeper, durma!


 
¹) Litorina é um antigo veículo de transporte ferroviário, movido por motor a diesel.
²) Cegonha é um antifo veículo de transporte ferroviário, movido pela força de seus passgeiros

Ilustração: Montagem de Chico Chagoso a partir de fragmentos esmaecidos de fotos de Danna Merril e uma folhinha de setembro de 1944
Uma versão anterior deste conto está no livro: "Velha Porto Velho - Contos, Crônicas e Poemas",
Amazon.com, 2017 e no respectivo e-book, do mesmo autor.