As Meninas
Ser chamada à sala da diretora não era exatamente motivo de satisfação para nenhuma das alunas, mas Devorah Grünenklee e Ada Raubal, acompanhadas da professora de ambas, Fräulein Katharina, pareciam absolutamente tranquilas, embora por razões completamente diferentes. Frau Rosalinde, a diretora, encarou o grupo que surgiu à porta do seu gabinete com ar cansado.
- Entrem; Katharina, por favor... feche a porta.
As meninas já conheciam as normas de uso do espaço, e sentaram-se em duas das três cadeiras de mogno colocadas à frente da escrivaninha da diretora, deixando o assento do meio desocupado para ser ocupado por Fräulein Katharina. Com as três devidamente instaladas, a professora empertigada como se estivesse pronta para erguer-se em posição de sentido, Frau Rosalinde começou a falar com sua voz estridente, mas de modo compassado:
- Meus amores, o que eu falei para vocês duas, no dia em que Ada chegou? - Questionou, de modo retórico. - Que por mais estranho que parecesse, a presença de Devorah como aluna desta escola, tinha razão de ser? Uma razão oficial. E quando digo "oficial", quero dizer "assunto de interesse do Reich". Acredito que para Devorah, seria melhor e mais fácil estar numa escola do seu povo, onde provavelmente devem ensinar o que quer que uma garota judia precise saber...
Ada encarou Devorah e cobriu a boca, fingindo disfarçar um sorriso de ironia. Devorah continuou a ouvir, impassível.
- Mas, em Berlim, o Reichsjugendfuehrer concluiu que seria necessário... atentem para a palavra... NECESSÁRIO... que Devorah frequentasse a mesma classe que nossa amada Ada. Ele reforçou que uma boa convivência entre ambas seria extremamente importante para o FUTURO do Reich.
Ada Raubal ergueu a mão, deixando transparecer que não estava satisfeita com o rumo que a conversa estava tomando.
- Permissão para falar, Frau Rosalinde.
- Permissão concedida - replicou a diretora, mãos entrelaçadas sobre a mesa em expectativa.
- Por que o futuro do Reich depende de que eu conviva com essa judia, e justamente na MINHA classe? - Inquiriu de modo enfático, os olhos azuis dardejando.
Frau Rosalinde ergueu as sobrancelhas.
- Meu amor, o que foi que eu acabei de dizer? Devorah é assunto de interesse do Reich, gostando ou não você da presença dela entre nós. Nossos líderes, que são indivíduos do mais alto discernimento, assim o determinaram; da mesma forma que a sua transferência para cá. Somos a melhor escola para meninas da região, e se Devorah tem alguma participação, por pequena que seja, no futuro que a Alemanha está construindo, temos a missão de prepará-la para cumpri-lo. O que jamais deve perder de vista é que, você e ela têm papéis diferentes, e os caminhos que irão seguir também serão distintos. Mas, por ora, a convivência pacífica faz-se necessária. Certo, Devorah?
E encarou a interpelada, que aprumou-se na cadeira e disse:
- Eu não fiz nada, Frau Rosalinde.
A diretora encarou a professora, que imediatamente redarguiu:
- Eu já disse para Devorah que não retribuísse os comentários de Ada, Frau Rosalinde.
A diretora olhou para Ada Raubal de forma analítica.
- Então, você continua provocando a Devorah, Ada?
Ada encarou Devorah com rancor.
- Não fui eu quem começou. Tem uma menina do meu grupo, a Brigitte...
Fräulein Katharina intrometeu-se na conversa.
- Verdade, Frau Rosalinde. Brigitte e as amigas dela já mexiam com Devorah muito antes da chegada de Ada...
A diretora fez um aceno de cabeça.
- Mas, por você ser quem é, Ada... uma indicação direta do Reichsjugendfuehrer... achou que poderia ir contra as minhas orientações, não é? - Indagou de um jeito falsamente calmo.
Ada ficou pálida.
- Eu... não queria desobedecer suas ordens, Frau Rosalinde.
A diretora abriu um sorriso melífluo.
- Meu amor! É claro que você não quis... mas talvez tenha que focar mais nas razões pelas quais está aqui e o que se espera de você, no futuro. Se você vai liderar... e está sendo preparada para isso... tem que ter opiniões próprias, não ir pela cabeça das suas amiguinhas. Devorah é importante para o Reich, e por isso deve ser preservada... assim como a família dela. Não queremos que sofram nenhum MAL, ficou claro?
Ada mordeu os lábios, mas acabou falando:
- Sim, Frau Rosalinde. Ficou claro.
A diretora escancarou o sorriso e bateu palmas.
- Ótimo! Seria realmente muito triste ter que dizer ao Reichsjugendfuehrer que você não se adaptou à nossa disciplina, Ada.
A interpelada pareceu realmente ficar apreensiva pela primeira vez.
- Não vai acontecer de novo, Frau Rosalinde.
A diretora inclinou-se sobre a mesa e sussurrou:
- Excelente!
E fazendo um gesto para a professora:
- Pode levá-las. E espero ver as três aqui menos vezes... e por motivos mais festivos.
Professora e alunas emitiram algumas frases protocolares de despedida, e depois apressaram-se em sair da sala. No corredor, depararam-se com um grupo de alunas que vinha em sentido contrário, uma delas sendo Brigitte. Ada parou no meio da passagem, mãos na cintura, e encarou a garota com raiva.
- Isso é pela VERGONHA que me fez passar - declarou, antes de esbofetear a colega, que apenas levou a mão ao rosto e a olhou com uma expressão de dor, assustada demais para dizer qualquer coisa.