ALBERTO

Agora mesmo, lendo aqui no RL algo de um poeta romântico, lembrei dele, do meu primeiro namorado( porque o primeiro amor foi muito antes e platônico).

Era uma festa junina e estávamos todos lá, em um clube conhecido da cidade, respondendo ao convite da minha professora de Inglês que já era amiga da família.

Estávamos na mesa, reunidos, eu ia fazer 16 anos dai a um mês. E de repente um par de olhos verdes me atraiu, estava me olhando e olhei de volta .Ele sorriu e eu retribui.Ele me fez um sinal com os lábios que eu entendi que estava me chamando para dançar. Eu aceitei ,Levantei e fui ao seu encontro. (Acho que meu pai nunca o perdoou por não ter ido buscar-me à mesa)

Ele era tão bonito.Pelo sotaque percebi que era português( era um clube luso brasileiro)

Estávamos dançando a primeira musica quando ele perguntou se eu tinha gostado dele me chamar -Sim gostei, respondi.Gosto de dançar. Até tenho o hábito ( e tinha ,mesmo)

Ele então disse que era portugues, vendia produtos comestiveis que vinham de seu país e que morava no centro da cidade, em um hotel.

- Nós moramos em São Brás, aqueles são meus pais , a minha irmã e uma amiga.

- Seu pai não ficou aborrecido por voce ter vindo dançar?

- Não ficou, ele sabe que eu gosto de dançar, ele dança com a gente em casa e até em algum lugar.

Trocamos os nossos nomes, ele se chamava Alberto e tinha 26 anos.

Dançamos muito.Não nos largamos mais. Sempre às vistas da minha familia.Ele não me convidou para sair do salão.

Já quase ao final, quando já iamos embora ele perguntou:

- Como faço para namorar com você?

Eu estava bastante empolgada,lisonjeada, encantada. Era o primeiro lance desse tipo na minha Vida. E respondi:

-Voce tem de ir em casa.

E ele foi, no fim de semana seguinte e passou a ir sempre que podia. Infelizmente, meus pais não estavam sartisfeitos mas não queriam me impedir já que eu ficava na sala com Alberto sob a rigorosa vigilância da min ha mãe. Meu pai evitava vir na sala.Claramente não havia simpatizado com Alberto.

Eu e Alberto nunca ficamos sozinhos,as vezes conseguíamos driblar a vigilânc ia de minha mãe e nos beijávamos na despedida dele, no páteo( minha mãe permitia que nos despedíssemos a sós). Ele nunca fez nenhum arranjo para que nos encontrássemos longe de casa. Ele entendia que era certo o que meus pais faziam quanto a vigilância.

Naquela época não me passou pela mente que ele fosse um conservador.A gente nem usava essa expressão.

Mas apesar de toda a atenção de Alberto para comigo, chegamos a sair juntos minha mãe indo também ,ele nunca reclamou e tinha repeito por ela.

Mas meus pais,hoje em dia eu sei, foram preconceituosos. Eu estava no segundo ano do,que hoje é o Ensino Médio, pretetendia fazer vestibular, e Alberto se revelou uma pessoa sem muito estudo, chegou a dizer que fizera só o curso primário e sua meta era ganhar dinheiro, se firmar como comerciante, hoje chamamos empresário.

Minha mãe começou uma campanha fervorosa contra ele. Meu pai foi investigar a vida dele e alguém lhe contou que Alberto já havia batido em uma namorada. A essa altura o ano havia terminado já estávamos em 1966. E foi quando meu pai me disse que não queria mais o namoro, que Alberto não era homem pra mim. Que soubera que ele podia ser agressivo.

Alberto deixou de ir em casa, minha mãe chegou a assediá-lo para me deixar, disse até para que ele inventasse uma outra mulher e me deixasse.

Mas as vezes conseguíamos driblar essa vigilância e ele ia me ver no Colégio ( que era perto de casa) , chegamos a nos encontrar debaixo das arvores onde era mais escuro e papai, se me seguisse ,não poderia nos ver.

- Eu quero voce para me casar, não sou desse tipo que seu pai pensa. Nunca lhe chamei para encontrar comigo longe dos olhos deles. Estamos aqui agora porque eles me proibiram de ir na sua casa.

Mas meu pai soube dos encontros e minha mãe me contou que ele estava disposto até a chegar a algum extremo para fazer Alberto se afastar de mim. Eu não queria que acontecesse nada a nenhum dos dois, nem a Alberto nem a meu pai. E minha mãe vivia me dizendo que eu não tinha 18 anos e não podia fazer o que quizesse.

Então, um dia, já havia combinado com mamae, esperei Alberto embaixo da arvore:

- Nõs vamos acabar porque meu pai está com raiva de ti e eu não quero magoá-lo. Prefiro que seja seja a ultim,a vez que nos encontramos.,

Ei vi os olhos de Alberto brilharem ,eram lágrimas.

Eu era adolescente, então, não foi dificil superar isso. 1967 entrou, passei no vestibular e entrei na faculdade.

Alberto ficou sabendo e começou a passar de carro na frente da faculdade de vez em quando. No inicio não tive a certeza, mas em uma ocasião ele acenou pra mim.porque a minha sala dava para a rua , eu ficava bem perto da janela e ele percebeu logo isso.

Fiquei com vontade de dar atenção a ele, mas esperei completar 18 anos. Faltavam apenas alguns meses.

Um dia, consegui uma referencia de onde ele estava trabalhando e de repénte apareci lá.

- Nossa! Você aqui? Estou surpreso.

- Eu via você passar la na frente da faculdade mas ainda não tinha 18 anos e não tinha argumentos com a mamãe. Agora eu tenho por isso vim aqui. Afinal ,não terminamos porque que quisemos e quando voce começou a passar muito por lá eu compreendi que deveria vir lhe procurar.

Já era 1968;Alberto e eu ainda nos encontramos varias vezes .Eu entrava no carro dele e iamos dar uma volta,mas nunca fomos para motel.Sempre ficavamos estacionados em alguma praça conversando.

- Eu quero me casar´- disse ele em uma ocasião

-Mas eu quero continuar a estudar - respondi

-Mas como voce vai cuidar da casa e estudar?

Essa pergunta foi como um clarão nas trevas. Independente da opinião dos meus pais, eu tinha que decidir meu futuro e certamente não era casando, cuidando de filhos e de casa .

-Alberto, assim não dá. Eu quero estudar. Já estou no segundo ano. E gosto da faculdade( e como gostava, já tinha aprendido tanto !)

Percebi ali,naquela tarde de fevereiro que aquele não era o futuro que eu queria.

Em nenhum momento pensei que meus pais tinham razão, mas agora eu sabia que eu tinha razão em não querer trocar a faculdade por uma vida de mulher casada e do lar.

- Se não for para ter uma mulher só pra mim, não me adianta.

- Então temos que terminar,Alberto.

Disse isso e sai do carro. Ele ainda me chamou mas eu não me voltei.

Em outubro, voltando para casa ,no onibus, eu avistei Alberto saindo de uma maternidade acompanhando uma jovem mulher com uma criança no colo. Fiz as contas- se ela havia levado 9 meses até ali, é porque ou ela já estava grávida quando terminei com Alberto ou ele a engravidou assim que nos afastamos.

E pensei comigo, sorrindo: Do que eu me livrei!

Cheguei em casa e contei para a mamãe e ela disse ,”que bom ,assim ele esquece de vez de ti”.

Eu olhei para minha mãe e disse calmamente: -Mãe ,lembra quando eu fiz 18 anos? Pois é, comecei a procurar Alberto porque ele vivia passando na frente da faculdade e quando cruzávamos nossos olhares ele me acenava ou sorria.

Minha mãe começou a ficar espantada, mas se manteve calada; Eu continuei: Sabe mãe? Voltamos a namorar. Eu não aceitava que vocês tivessem decidido por mim. Eu que tinha que decidir se queria ficar com ele ou não. E foi o que eu fiz. Mas eu não queria casar ,ter logo filho e ser dona de casa. E por isso terminei com ele.

Muitos anos depois, um dos meus filhos teve um colega que entrou em um carro dirigido por Alberto. Não sei se ele me viu. Mas meu filho me disse que ele vinha buscar os filhos dele todos os dias.

Depois nos encontramos em um supermercado e até conversamos. Ele estava mais velho e mais bonito, confesso. E em uma outra ocasião , já bem depois, nos encontramos em uma panificadora de sua propriedade no centro da cidade ( que ele fez questão de me dizer que era dele e que tinha outras filiais em outros bairros.)

Lembro que eu disse para a colega que estava comigo e que morava em frente à panificadora:

-A gente quase se casou

E ele retrucou de trás do balcão:- Ela me deu o contra.

Eu repliquei: Mas olha só estás bem, como tinhas o sonho de ficar.

E ele me disse; E poderias estar comigo, fazias parte do sonho.

Estávamos nos meados dos anos 80.

Numca mais vi Alberto. Soube , depois ,pela colega( que hoje já é falecida) que o negocio faliu e ele voltara para Portugal.

Alberto pode não ter sido o primeiro amor da minha vida- mas foi o primeiro namorado e deixou lembranças boas. Comigo ele sempre foi gentil, atencioso, carinhoso, respeitando todos os limites impostos pelos meus pais.

Hoje eu penso que ele foi uma vitima da discriminação de meus pais.

NINFEIA G
Enviado por NINFEIA G em 28/07/2023
Reeditado em 30/07/2023
Código do texto: T7848370
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