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A Morte Vem do Alto

[Continuação de "A Águia Pousou"]

Mihaela Proca tapou os ouvidos, mas sabia de antemão que era inútil: depois do uivo estridente das sirenes de alarme antiaéreo, viria o estrondo das bombas detonando sobre a cidade, ora mais perto, ora mais distante. O centro de Varsóvia até então escapara dos bombardeios mais pesados desfechados pela aviação nazista, mas como a fumaça dos incêndios descontrolados atrapalhava a visibilidade para que as bombas fossem lançadas sobre os alvos previstos, volta e meia uma delas explodia sobre um alvo civil aleatório; ou, nem tanto: o apinhado bairro judeu parecia ter sido incluído entre os objetivos a serem varridos do mapa.

- As leis de guerra não contribuem para a nossa proteção - advertira o embaixador valaquiano no dia anterior, ao reunir seus concidadãos nos jardins da embaixada para explicar a delicada situação em que se encontravam. - Teoricamente, cidades sem guarnições militares não deveriam ser alvo de bombardeios, mas os nazistas as estão atacando assim mesmo... principalmente aquelas que possuem grande população judaica. No caso de Varsóvia, onde temos o exército polonês defendendo a cidade, nenhuma misericórdia deve ser esperada: a cidade é um alvo militar legítimo.

- Eu passei pelo bairro judeu... - relatou um dos refugiados valaquianos. - As ruas Nalewki e Zamenhof estavam cheias de escombros de casas atingidas por bombas... havia gente ensanguentada vagando em choque, sem saber o que lhes havia acontecido.

- Estamos no centro da cidade... - replicou o embaixador, erguendo as mãos para pedir calma. - Aqui é a Nowy Swiat, há outras embaixadas próximas, como a do Reino Unido. É possível que nos poupem, pelo menos de ataques deliberados... mas não temos como prever se algum piloto vai lançar sua carga sobre o lugar errado.

Isso, certamente, não contribuíra para apaziguar os ânimos. Os refugiados queriam saber o que o governo valaquiano estava fazendo para retirá-los daquela arapuca em chamas.

- Não vamos ficar aqui, aguardando o pior - enfatizou o embaixador. - Infelizmente, não há como nos resgatarem por via aérea, visto que o aeroporto foi um dos primeiros locais que os nazistas bombardearam, e seria arriscado enviar uma aeronave, mesmo de um país neutro, para uma zona de guerra.

- Não poderíamos sair de trem? - Indagou uma refugiada.

- Trens são alvos perfeitos para a aviação alemã - retrucou o embaixador. - Vocês não vão querer estar a bordo de um, quando um Stuka der um mergulho...

Não, ninguém queria. O embaixador pedira 24 h para deliberar com seus superiores em Bucareste, e o prazo estava se esgotando. Da mesma forma que a paciência dos refugiados, abrigados de forma improvisada dentro dos muros da embaixada, muitos deles dormindo do lado de fora com mulheres e crianças, sob barracas de campanha. Mihaela, uma das primeiras a procurar abrigo, por recomendação do irmão mais velho, o capitão Valentin Proca, podia considerar-se privilegiada, por dormir no chão da cozinha da embaixada com mais duas famílias - pelo menos, estava entre quatro paredes, sólidas.

E naquela manhã de setembro, sentada no chão frio, costas na parede, mãos nos ouvidos, e olhos bem fechados, sentiu que a sacudiam pelo ombro. Abriu os olhos e viu que era Stefania Kogalniceaunu, uma garota da sua idade, que estava ali com os pais e três irmãos.

- Acabou... acabou... - repetia ela.

Mihaela engoliu em seco e afastou as mãos das orelhas, devagar, sentindo-se aturdida. Como assim, acabou? O pesadelo sempre voltava!

- Nós vamos embora - disse Stefania, sorrindo. - Vamos embora. Vamos para casa.

- Quem... quem disse isso? - Sussurrou Mihaela, olhando em torno.

- O embaixador. Bucareste ordenou a evacuação da embaixada. Nós vamos embora, Mihaela!

Mihaela continuou a olhar para Stefania como se as palavras não fizessem sentido. Como assim, ir embora? Sair à rua, onde havia caos e a possibilidade de tornar-se alvo de bombas atiradas aleatoriamente? Talvez fosse melhor ficar ali mesmo e esperar que os poloneses capitulassem. A Valáquia era um país neutro, os nazistas não tinham interesse neles. Stefania segurou-a pelos ombros e a sacudiu gentilmente.

- Mihaela, escute... nós PRECISAMOS ir embora. Este lugar... este país... não é seguro para nós.

E só então, Mihaela entendeu que permanecer ali, era sinônimo de morte.

[Continua no "Em perigo"]

- [15-07-2019]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 15/07/2019
Reeditado em 28/07/2019
Código do texto: T6696825
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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