As Portas da Desesperança

E após ser capturado por bárbaros do deserto de Pinazar, o príncipe Faadi el-Mahfouz foi conduzido à presença do rei, que o recebeu em sua tenda forrada com tapetes persas e peles de tigres.

- Invasores de nossas terras são condenados à pena de morte - anunciou secamente o rei, sentado numa cadeira de armar sobre um estrado, e ladeado por dois guardas armados de cimitarras. Aos pés do soberano, estava uma bela jovem, com o rosto parcialmente coberto por um véu, assentada sobre um coxim.

- Magnânimo rei, venho de uma terra distante às margens do mar de Dhihidah, e se entrei em seus domínios, foi por falta de conhecimento, não por má intenção - defendeu-se o príncipe.

- Lei é lei - retrucou o soberano. - Todavia, como você apresentou-se como um príncipe, vou lhe propor participar de uma prova que decidirá se fala ou não a verdade, e que, a depender do resultado, lhe permitirá casar com minha filha Samiha, que vê aqui aos meus pés.

- Bem... mas que tipo de prova? - Indagou cautelosamente Faadi.

- Você será conduzido a uma arena, na antiga cidade morta de An Ruppur - explicou didaticamente o rei. - O único modo de sair dela, é passando por uma das duas portas que ficam ao fundo. Ocorre, que em uma das portas estará Samiha, lhe aguardando para o casamento. Já na outra, colocaremos um tigre faminto. De nada adianta encostar o ouvido ou bater nas portas para provocar o tigre, pois elas são à prova de som. Ficou claro?

- Bastante claro, magnânimo rei - admitiu Faadi.

* * *

E após uma noite em claro pensando no cruel destino que o aguardava, já que não esperava sair vivo daquela história, o príncipe foi escoltado até à arena da cidade morta. Numerosa multidão de bárbaros aglomerava-se no anfiteatro, antegozando o seu estraçalhamento pelas garras e presas do tigre faminto.

Faadi foi deixado na saída de um túnel de pedra, fechado por uma grade de ferro, que o separava da arena. Em seguida, a grade foi erguida para que ele passasse, fechando-se às suas costas. Agora, encontrava-se num semicírculo coberto de areia, ao redor do qual erguiam-se as arquibancadas apinhadas de gente. E, do lado oposto, bem à sua frente, duas grandes portas de madeira, separadas por cerca de um metro, com maçanetas de bronze. Deveria escolher uma delas para obter a liberdade... ou a morte.

Sob os gritos da multidão, Faadi caminhou em direção às portas e parou ao sol, exatamente entre elas. Tinha que raciocinar, para ter alguma chance de sucesso. Quais eram as opções oferecidas pelo rei? Em uma das portas, estaria a filha, Samiha. Na outra, um tigre faminto. Algo ali não fazia sentido, pensou.

Mas claro, concluiu. Será que o rei iria arriscar colocar a própria filha numa arena, tendo um tigre esfomeado na porta ao lado? E se ele abrisse uma porta, soltasse o tigre, e depois abrisse a outra porta e o tigre pulasse sobre a donzela, enquanto ele fugia? Muito arriscado, ponderou. O rei teria que ser louco para usar de tal estratagema.

Então, avaliou, a resposta correta só poderia ser uma: qualquer porta que abrisse, a consequência seria a morte. Apenas isso justificaria tamanha reunião de bárbaros sedentos de sangue, naquele antigo anfiteatro.

Faadi tomou fôlego, estendeu as mãos para ambas as maçanetas, e num gesto rápido, as puxou simultaneamente.

- [11-05-2019]