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"DESEJO 09"

                                             RECORDANDO



              Agora preste atenção, vou fazer o que quer, mas ninguém nunca poderá saber do que vai acontecer entre nós, e você terá que fazer exatamente como eu disser. Ele chegou a esfregar as mãos de contente respondendo: - (faço o cocê quisé cumadi ocê podi impô as cundiçãu). - Muito bem, domingo é dias de folga do pessoal e quase todos vão para a cidade no sábado à tarde, onde ficam na farra, no sábado você também tem que ir a cidade para as compras rotineiras, só que desta vez, deixe para sair de lá bem de tardinha e quando chegar já vai estar escuro, você esconde a charrete no meio do colonião e vai se encontrar comigo no moinho de fubá, eu vou esperar lá, mas não leve nenhuma luz, não quero correr o risco de alguém descobrir esta sujeira. (E Marcelo jurava com os dedos cruzados; - podi ficá sussegada cumadi, ocê num vai si rependê, ieu prometu qui despois vô sê seu maió amigu e tá sempri juntu di ocê pru qui pricisá). - Esta bem, escutou direito o que eu falei? Não vá errar senão eu desisto e você não vai ter é nada, e agora vá, pois, já ficou muito tempo de trololó aqui. Ele se despediu e foi fazendo as contas, era quinta feira ainda, ele ia ficar doido de ansiedade até a hora.


                                                 DESEJO 09


           Neste dia Alzira até estranhou, seu marido estava em ponto de bala e deu duas antes de dormir. No outro dia depois do almoço, assim que Marcelo passou pela sua casa vendo-a na janela deu-lhe um sorriso descarado, que ela fingidamente correspondeu com um pensamento maroto na cabeça, - ah bobão, quero ver você rir depois de sábado. Ela saiu e foi à casa da comadre Alzira lhe dar conta do que tinha armado, e combinando que a comadre assim que escurecesse, pegaria os gêmeos e iria para a casa dela, tudo armado voltou para a fazenda e aguardou o sábado chegar. A sexta feira demorou a terminar para Marcelo que queria que as horas voassem, já tinha apelado para os cinco dedos numa moita de cana e mesmo assim estava cheio de tesão pela comadre. A noite partiu para cima da esposa , mas pensando na comadre resolveu economizar e mesmo com a perigosa querendo mais, ele tirou uma apenas e foi dormir. Sonhou a noite toda com a comadre gostosinha e a vadiagem que estava para acontecer, finalmente! No sábado pela manhã, ela levantou-se cedo e só para tentar mais ainda o seu fogoso compadre, colocou um vestido curto bem justo e foi aguar o jardim, ele chegou e foi direto onde ela estava e cumprimentou perguntando depois: -( Bom dia minha lindura, drumiu bem de noiti)? Ela respondeu com uma risada alta e zombeteira mostrando os dentes perfeitos e alinhados dizendo a seguir: - Claro Marcelo, “acentuou o Marcelo, como nunca o tinha feito antes, fazendo o homem babar” Eu só durmo é à noite, quem dorme durante o dia é morcego! Ele riu sem se importar com o tom galhofeiro e perguntou novamente: - (Intoncis ta tudu cirtim pa di noiti)? Ela respondeu: - claro vou esperar, não faça nenhuma trapalhada, não quero erro, pois, não posso magoar minha comadre e nem ninguém. Ele foi-se embora prometendo de novo que faria tudo certo e que ela poderia ficar tranquila.

                Se antes o tempo demorava a passar para Marcelo, no sábado ele voou, chegou à hora do almoço e ele foi às pressas conferir se tudo estava nos conformes, o pessoal só trabalharia até às treze horas e só ficariam até mais tarde, três homens casados para cuidar da separação de bezerros e prender os animais adultos no curral, a prensa do queijo já tinha sido feita. Quem ficava no plantão sábado e domingo, folgava na segunda e terça, quando aproveitavam para ir à cidade, comprar algumas coisas de necessidades ou apenas para beberem cachaça e voltar para casa, bêbados e caminhando trôpegos pelos caminhos de volta a fazenda geralmente à noite. Marcelo de propósito, deixou para sair às quinze horas, demorando-se nas verificações das tarefas e cuidando de alguns ferimentos nos animais, às quinze horas é que foi atrelar o animal na charrete e viajou para a cidade. Assim que ele saiu Judite foi ao moinho e verificou o acesso e subida da rampa até a área onde estavam instalados as rodas de pedras e o conjunto que moía o milho transformando os grãos em pó. Estava tudo normal e ela retornou e aguardou o resto da tarde, quando começou a escurecer sua comadre chegou com as crianças e passou pela porta da cozinha onde Maria já estando à parte do que a patroa e sua comadre iriam fazer. Limitou-se a levar as crianças para o segundo pavimento e embora achasse perigoso toda àquela maluquice, não cabia a ela ficar contra sua patroa e sim dar apoio e se preciso ajudá-la a brigar com o Marcelão, “maneira de se referir ao mineirinho”. As duas amigas foram para o moinho e Judite levava duas lanternas de pilhas potentes. Uma entregou à Alzira e a outra ficou com ela, esta tinha um ima incrustados no cabo e que servia para acoplá-la ao rifle papo amarelo, arma que era o xodó do seu marido. Depois de entrar com Alzira no moinho e escolherem o melhor lugar para ela ficar, deixou a lanterna num lugar fácil para ela pegar depois e saiu deixando a amiga lá, desceu a rampa, subindo os degraus de pedras até o lugar plano, escondeu-se atrás de uma pedra grande que ficava à margem do caminho, acoplou a lanterna no rifle e esperou pacientemente a chegada do seu pretenso amante, sorriu e por um momento achou que aquilo poderia terminar mal, mas se Alzira que era meio sonsa concordou, ela é que não iria desistir da brincadeira que a fazia vibrar, como nos tempos de criança quando aprontava alguma peraltice, de jeito nenhum.

                Menos de meia hora depois ouviu ao longe os passos de botas pesadas na terra firme do caminho, aguardou e ficou apreensiva, quando viu o homem parar bem defronte a pedra onde ela estava, chegou a levantar a arma, mas se conteve quando escutou o som de urina caindo no chão e deu até para sentir o cheiro acido do liquido. Quando acabou ele voltou a caminhar e iniciou a descida da escada. Ela acompanhou o som dos passos e ouviu quando ele subiu a rampa e ouviu a porta do paiol ranger. Não pode ouvir mais, pois o barulho da roda que chamavam de turbina fazia um barulho constante, e mesmo não sendo muito alto, para ela ouvir qualquer coisa dentro do pavimento, só se estivesse muito próximo. A ideia veio e ela já mandou a prudência às favas e resolveu com cuidado descer as escadas correndo o risco de estragar o plano, estava muito escuro, mas o tanto de vezes que ela tinha ido ao moinho durante todos aqueles anos, fazia daquele caminho um lugar onde ela poderia descer e subir de olhos vendados sem fazer qualquer ruído, além de que contava com a distração do homem empolgado pelos acontecimentos e o barulho monótono da turbina para se aproximar sem problemas, deixou a arma no chão ao lado da rampa e subiu a mesma até ficar perto da porta do moinho, ao se aproximar ele já ouviu os arrulhos dele para cima dela... “Não, para cima da comadre que se passava por ela”. – (Nossa comadi, ieu sabia que esta sua boca era que nem mel. Puxa minha Juditezinha cumu ocê tem o coipu quente e meu Deuso cumu é macia a sua pele, tira a roupa toda cumadi)... Ouviu um sussurro, não, só assim! Marcelo pensou que na segunda vez, ela nem ia querer a noite, ia querer é ver a perigosa em ponto de estourar, abraçando a mulher ele pegou seu pulso tentando segurar sua mão. Alzira acompanhou a mão dele que a forçava de leve em direção as suas partes baixas, enquanto ele sussurrava: -(minha gostosa, incaminha o trem procê sintí o tamãim dela, ieu quero cocê gosta muitu memo cumadi, mordi di que sô cê gostá ieu vô da ela procê toda veiz cocê pidí). Do lado de fora Judite pensou, que prepotente, já esta pensando que eu vou pedir para ele na próxima vez, riu para dentro e continuou ouvindo. Alzira fez o que ele queria e encaminhou o tal de trem mineiro com a qual ela estava já muito bem acostumada e que a fazia gritar toda vez que ele fincava nela. Enquanto ele ia introduzindo a perigosa ele sussurrava: - (nossa mãi, como cocê é apertadinha cumadi, ieu sabia cocê era assim, nossa cumu cocê é quenti minha cumadizinha bunita). Daí em diante só se ouvia sua voz baixa falando tudo o que lhe vinha à cabeça tentando agradar a quem ele jurava que era Judite sua linda comadre. Alzira não ousava nem respirar com medo de se trair, mas de vez em quando soltava um gemido mostrando que mesmo em situações mais esquisitas ela gostava da perigosa e o orgasmo vinha generosamente.

              A comadre Judite acabou saindo do sério ouvindo aqueles elogios caipiras todos dirigidos a ela por tabela e acabou dando uma esfregada na periquita conseguindo um pouco de prazer também. Depois disto desceu devagar a rampa e pegando a arma voltou a subir as escadas se postando no lugar de antes, rindo, mas se sentindo meio culpada por ter se masturbado. “Ela fazia isto com frequência, mas sempre pensando em Antonio e não vivendo uma aventura daquelas”... Pensou, dane-se, é apenas o começo do caminho que eu quero andar. Marcelo ainda comeu a Alzira mais duas vezes sem a deixar tirar o “trem” de dentro, e sempre sussurrando: - (ô cumadi só mais uma veizica, eu to doidim pur ocê, nunca qui ieu finquei numa muié tão boa qui nem ocê) e vamos que vamos se Alzira não força a barra e empurra o marido de cima dela que começou em pé, mas que sabendo da grande caixa de recolher fubá que tinha ali, ele no escuro arriou a tampa e a fez deitar em cima e mandou a perigosa pensando afoito... (É na moda do entra e sai e entra de novo a vuntadi e porveita que é na cumadi). Quando Alzira percebeu ele se levantar, sentou-se na tampa da cuba de fubá e sussurrou com voz rápida e disfarçada para ele não a reconhecer, agora vai embora, quem disse que ele reconheceria a voz da esposa ali? Para ele aquele era um murmúrio da sua gostosa comadre a mulher mais cheirosa com a qual ele já se atracara. “Só para corrigir, Alzira estava usando não só um vestido de seda, como também o perfume que sua comadre mais usava e que muitas vezes já tinha entrado no nariz de Marcelo, ele não se esquecia deste cheiro e era mais uma gostosura que ela trouxera para ele no paiol”. Ele abriu a porta do paiol, mas andando de costas e sempre agradecendo à esposa como a comadre – (brigadu cumadi, a sinhora num vai si rependê, ieu tenhu certeza ca sinhora gostô e vai dá pa ieu di novu, condi a sinhora quisé é só falá co to prontim pa silvi a sinhora). Desceu a rampa e começou a subir sem pressa a escada, subia um degrau e olhava para trás querendo ver se sua comadre vinha andando, talvez quisesse que ela depois de subir, resolvesse ir de * *bonde* * com ele até perto da casa grande. Quando faltava um degrau ouviu a porta ranger e o vulto da mulher descer a rampa e começar a subir a escada, ele terminou de subir o ultimo degrau e pensou – (vou ficar na berada du camim condi ela passá ieu garru ela, di brincadera si ela gostá ieu fincu nela traveiz). Alzira subiu rápida a escada e quando chegou no topo, Marcelo pensou em caminhar para o lado dela.


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BONDE: Casal andando um ao lado do outro se encostando, adjetivo usado nos namoros dos camponeses no passado.
Trovador das Alterosas
Enviado por Trovador das Alterosas em 08/02/2019
Reeditado em 10/02/2019
Código do texto: T6569912
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