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"DESEJO 06"

                                  RECAPITULANDO


               Esta foi a primeira vez que ele ousara assediá-la claramente, mas sabia que se ele chegara a este ponto é porque tinha vencido todos os seus receios e o desejo é que estava comandando suas ações. Teria que pensar em alguma coisa para dar-lhe uma lição que o fizesse desistir desta ideia, mesmo que ele a odiasse depois. Seu marido tinha viajado há apenas uma semana e provavelmente iria demorar no mínimo dois meses e meio para voltar.


                                                XF 06

               No outro dia acordou cedo como de costume, mas não saiu da cama. Ficou ali imaginando o que fazer para evitar seu compadre, tinha certeza que ele como de outras vezes passaria na casa grande, sede da fazenda para saber se ela estava bem ou se precisava de alguma coisa e sabia que agora ele iria voltar à carga. Ela era uma mulher inteligente, sabia avaliar o comportamento do ser humano, e se vivesse nos dias de hoje, certamente poderia atuar na área da psicologia com muito louvor. Seu quarto luxuoso ficava nas dependências do segundo pavimento da fazenda, ouviu perfeitamente quando ele cumprimentou Maria e perguntou: - e a comadre, não levantou ainda? Ouviu a resposta de Maria: - (não, ela deve de tê ficadu bordanu inté tardi onti e vai drumi mais muncadim). Maria também era mineira dos muitos que foram tentar a sorte em Pernambuco e acabou ficando viúva sem filhos, “ainda bem”...  Judite a acolhera e se afeiçoara a ela, dando-lhe a segurança de que nada lhe faltaria para viver com certa dignidade. Agradecida ela fazia todos os serviços relativos à cozinha e seu tempero na comida e a diversidade de pratos que sabia cozinhar, tornava-a cobiçada até por hotéis que a sondaram com boas propostas de trabalho, ela recusava e dizia; - (mordi que co vô trabaiá pa discunhicidu si  ca minina Juditi num me farta nada)?

            Marcelo falou novamente: - (Maria ocê faiz favori, vai vê si ela num ta duenti ô pricisanu di carqué coisa, mordi ca genti num sabi si ela ta passanu mar). Maria respondeu que ele poderia ir trabalhar que qualquer coisa ela mandava lhe avisar. O homem não insistiu e sabia que ela faria isto realmente. Na cama Judite, pensou que estava sendo injusta, já que esta era realmente uma preocupação com ela e era ordens de Antonio, que recomendava a todos os empregados da fazenda sempre cuidar para sua segurança. Ao mesmo tempo se lembrou do que ele dissera no dia anterior e pensou que fez o melhor. No horário de almoço, Marcelo voltou a passar e perguntar a Maria por ela, e a mulher lhe respondeu que ela estava no quarto bordando e não estava doente. O homem estranhou e até pensou que ela poderia o estar evitando pelo que ele disse a ela, mas deu um muxoxo e ponderou... – (Que nada sô, essas muiés tudu rasta um bondi pur causa do tamanhu du meu pirigosu, num é ela qui num vai querê, inda mais cum cumpadi Antoin só dexanu ela nas farta).

Para marcar presença, à noite ele apareceu com sua esposa e as crianças. Judite gostou da visita, adorava as crianças e comadre Alzira, ficaram mais de duas horas conversando e Judite evitando olhar para o compadre, sabendo que ele estaria com aquele olhar de cachorro quando sente cheiro de fêmea no cio em cima do seu corpo. Os compadres foram embora e ela foi cedo para a cama, no dia seguinte tinha que ir ao banco sacar dinheiro para o pagamento dos empregados e quem tinha ordens de levá-la era justamente o capataz, homem de confiança do seu marido, “o seu compadre cobiçador”. O banco só abriria às nove horas, mas da fazenda até a cidade era uma hora de viagem de charrete, e às sete horas e trinta o compadre já encostou o coche atrelado na porta da frente da casa. Ela estava tomando café e mandou Maria o convidar para entrar e tomar também, ele agradeceu dizendo que o fizera em casa.

Ela demorou mais dez minutos e carregando sua bolsa, e uma sombrinha para se proteger do sol, elegantemente trajada num vestido justo, mas sem exagero e que no, entanto, atraia os olhares masculinos de maneira inevitável, ela não se importava, e nem seu marido que era quem lhe dava os vestidos que às vezes brincava: eles olham e eu passo a vara, ela ria e sabia que ele confiava nela e ele poderia realmente fazer isto, se não mijasse tanto fora da palha... (Uê o trem agora mudô di nomi sô, é paia)? *** “Pensamento do autor que por sinal é mineiro do pé rachado”! Mas mulher até aceita que seu marido possa traçar outra mulher e até outras periguetes, mas ele nunca pode nem sonhar alto para não falar besteira deixando-a suspeitar. Se ela o apertar por isto ele tem que negar mesmo e afirmar: N-e-g-o-, nego, jamais faria isto com você meu bem, de jeito nenhum, isto é intriga da oposição. Agora se ele descuida e ela fica sabendo, adeus à fidelidade. O fato de chamar de meu bem: “Isto é uma estratégia de todo marido que coloca galho na esposa, bem daqui, bem de lá, ô bem. Ao mesmo tempo toda amante ou mesmo qualquer mulher com a qual ele tiver um caso, tem que chamar de bem, pois se sonhar que esta num vem cá que eu tô querendo com outra mulher e dormindo na cama com a cara metade, e ele falar alto, vai dizer, por exemplo: nossa como você é gostosa meu bem e agarra a esposa e ela fica toda feliz e pensando... Ó como o meu marido me ama”.


        Voltando ao caso, Marcelo quando a viu com todas as curvas a mostra tarou, ficou medindo a comadre de baixo em cima e até babando de tesão. Porém nada disse, sempre haveria chances numa viagem de uma hora por estradas desertas, ele sempre a ajudava subir na charrete e não seria diferente desta vez, quando colocou as mãos em sua cintura, ela notou que ele apertou um pouco antes de levantá-la, ela se segurava no suporte de madeira para subir, o que seria fácil se ela estivesse vestida para montar, mas com o vestido, toda mulher precisava de ajuda. As mãos grossas praticamente rodeavam sua cintura, ela fez força conseguindo um empuxo e ele ajudou até seu corpo ganhar impulso suficiente para sentar-se no banco de couro do coche. Ele sorriu para dentro pensando que ela estava se derretendo por seus encantos de macho enquanto despistava acalmando o cavalo com estalos da língua. Ela guardou uma raiva surda e engoliu em seco, mas nada disse. Já estava começando a achar que seria capaz de ameaçá-lo com uma arma, sabia que isto poderia açular mais ainda os instintos de macho do seu compadre e continuou calada, pensou em seu marido Antonio Jesuino, riu ao lembrar que seu marido não gostava do primeiro nome.
 
Trovador das Alterosas
Enviado por Trovador das Alterosas em 25/01/2019
Reeditado em 25/01/2019
Código do texto: T6559492
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