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TROVULINO 06

RECORDANDO
 

     Terminou de falar e ficou aguardando a reação do irmão, que ficou por um longo período digerindo a conversa e tentando entender o que tinha acontecido. Quando assimilou a sua desgraça, não precisou da confirmação das crianças, sabia que eles estavam falando a verdade. Pediu ao irmão para sair com os filhos e ir para casa, o irmão pensou em protestar, mas a cara de Trovulino não dava lugar a dúvidas. Apenas foi saindo, com os meninos seguros pelos braços e foi-se embora procurar os outros dois irmãos por que a desgraceira estava pronta, só restava agora seguir o curso dos acontecimentos.
 
TROVULINO 06

     O homem que estava ali agora, não era o pacato trovulino, seus olhos eram vermelhos e soltavam centelhas, falou com voz fria e calma, mas que não deixava nenhuma chance de ser desobedecido. – Feche a venda para nós falarmos um bocado. O vendeiro fechou as portas, voltou para dentro do balcão e já tentando se safar foi falando: - compadre, eu não tenho nada com isto, não continuou. Trovulino fez um gesto para ele se calar e falou, responda só o que eu perguntar, certo homem? O português fez um sinal afirmativo com a cabeça e Trovulino pegou o litro de cachaça em cima da mesa se serviu de uma boa dose, tomou um pouco, não deu ao santo e puxou sua lapiana. O português tentou esboçar uma fuga, mas Trovulino segurou seu braço e encostou a faca na costela dele e falou: - conta direitinho esta história por que se não falar suas tripas vão sair do bucho agora mesmo e ninguém põe de volta, entendeu portuguê? Meu amigo e compadre... O vendeiro sentiu na ironia um veneno mortal, estava perdido.

     Com a faca espetando suas banhas e gaguejando o vendeiro contou tudo desde a chegada do pistoleiro, até de manhã quando ele se afastou do povoado indo embora. Quando terminou de falar Trovulino tirou a faca das costelas e perguntou: Por que, sendo meu amigo e compadre, já caçamos juntos, todos os dias nós conversamos aqui e você não me contou logo no primeiro dia a safadeza da Juversina com ele? O português pensando que ia se safar, disse: - eu não podia, o homem tem cara de pistoleiro e falou que se eu abrisse a boca ele me matava. Compadre Trovulino, esqueça isto, esta sua mulher não presta, largue ela e arrume outra, viu o braço do seu compadre se levantar e desferir uma facada na sua volumosa barriga e as tripas saltarem para fora, tentou segurá-las, mas viu a lamina da faca voar em direção ao seu peito e não viu mais nada, se não tivesse morrido quando a faca perfurou seu coração teria visto á lapiana entrar e sair das suas carnes tantas vezes que ele ficou retalhado e com seu sangue escorrendo como bica pelas gretas do assoalho alto da sua venda onde tantas vezes tinha se deitado com Juversina, já não tinha pecados a pagar, pelo menos nesta parte do universo, talvez... Tivesse que prestar contas a Lúcifer no inferno.

     Trovulino só parou depois que seu braço não conseguia mais levantar a faca, deixou-se cair em cima do corpo do morto e chorou como um desgraçado que sempre quis a paz e agora via os seus sonhos virarem o mais louco pesadelo. Foi se acalmando e pensou que ainda tinha que se vingar de mais gente e estas pessoas que roubaram seus sonhos nunca iriam escapar do seu castigo que seria um banho de sangue no sertão enquanto ele tivesse vida.

     Relanceou o olhar pelas prateleiras da venda e parou os olhos na espingarda cartucheira de caçar veados e por muitas vezes ele e o falecido português tinham ido à caça e vira o estrago que ela fazia nos bichos, pegou a caixa de cartuchos e depois de verificar se todos estavam carregados, se dispôs a sair à caça do tal pistoleiro. Quando abriu a porta viu a figura de S R S surgir no princípio da rua, ainda sem casa. Trovulino com rapidez saltou para detrás do balcão e engatilhou os dois canos da cartucheira esperando com o coração aos pulos a chegada do pistoleiro.

     Apesar de tenso, ele estava agora com todos os sentidos alertas assim pode perceber a tempo um dos braços do cadáver aparecendo no limiar da porta saiu de novo e presto, puxou o braço para que não pudesse ser visto da rua. S-R-S em circunstancias normais talvez desconfiasse de alguma coisa, mas devido à euforia das aventuras e o gosto da morena ainda estar dentro da sua boca e com o cheiro do perfume invadindo seu nariz. Nada notou de anormal no quadro que ele vislumbrava, mesmo por que seus olhos sempre se voltavam mais para a casa da morena, talvez tentando ver a cara cornuda do marido de Juversina, num ritual de maldade, próprio de quem se acha a salvo e acima da morte, não iria mexer com o homem, mas riria de sua cara.

     O homem na tocaia teve tempo de olhar bem o tipo de sujeito que ia matar, se não fosse o acontecido talvez até tivesse gostado do pistoleiro, pois, era um homem que tinha bom gosto para quem podia, de se vestir com apuro e gente mais pobre, “como ele,” desejava secretamente ser igual.Quando estava a vinte e cinco metros da venda, foi que o cavaleiro olhou para ela com mais atenção, mas era tarde, quando escutou o som do tiro a carga de chumbo já tinha se alojado no seu peito, o impacto o jogara para trás fazendo-o dar uma pirueta por cima do cavalo que empinara e cair de costas no chão, ainda com vida, mas fraco e sem nenhuma força para reagir, viu o corno se aproximar com a espingarda na mão e pronto para disparar outra carga de chumbo, tentou dar um sorriso de escárnio, mas só conseguiu fazer um esgar de dor, quem sorriu foi Trovulino apontando a arma para o rosto de traços bem feitos do pistoleiro e puxou o gatilho da arma, com prazer, como se tivesse feito isto a vida toda.

     A carga explosiva arrebentou e tingiu de preto a cara do rapaz, o sangue em esguichos misturava-se na roupa suja de Trovulino com o sangue do outro defunto. Friamente o novo matador tirou do cadáver o belo cinturão com os revolveres de cabos nacarados, afivelando na cintura como um despojo de guerra, também se apoderou do cavalo arreado, do chapéu e do dinheiro que estava nos bolsos e era bastante. Depois entrou na venda e pegou toda a munição e armas que o português mantinha lá, “para vender”, na maior calma, como se aquilo fizesse parte da sua vida, tomou um talagada de cachaça e só aí saiu e viu os três irmãos chegando. Com eles quase todo o povoado que durante a refrega se enfiaram dentro de casa, mas agora que as coisas pareciam calmas, tinham curiosidade de saber o resultado que por muitos anos seria comentado em todo o nordeste, como a honra lavada com sangue da desgraceira.
Trovador das Alterosas
Enviado por Trovador das Alterosas em 10/12/2018
Reeditado em 11/12/2018
Código do texto: T6523898
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