O QUE ACONTECEU?

Posso me considerar um brasileiro privilegiado somente pelo fato de ter conhecido a selva amazônica na sua mais pura intimidade. As aventuras vivenciadas permanecem nítidas em minha memória. É como se, agora mesmo enquanto escrevo, ouvisse o grasnar da arara ou o pipilo de tantos que são os pássaros que povoaram as minhas tardes na selva. Dentre as histórias que ouvi e que me impressionaram, a do Sr. Carlos realmente ocupa um lugar de destaque. Até chegarmos em sua cabana, bem no meio da floresta já se faz necessária uma coragem de caboclo nato e, ainda assim para lá de intrépido. Temos que construir nossos próprios caminhos pelo fato de as trilhas desaparecerem em poucos dias com o incontrolável crescimento da mataria.

Dependendo da hora e da temperatura, ao batermos com o facão para afastarmos os galhos intrusos desprendemos, de seus aconchegos, em voos descontrolados, abelhas, quando não perigosas vespas que podem, a qualquer hora, lançar-se sobre nossos rostos e presentear-nos com inchaços feito bolas de gude ou amêndoas por baixo das carnes. Óculos fazem-se indispensáveis se não quisermos ter as vistas furadas nas raízes externas e pontiagudas que podem surgir a qualquer momento. são, entre outros sons, o cavo crepitar dos ouriços que se partem em baixo das nossas botas, o coaxar de rãs e os dentes do pica-pau tamborilando no tronco de alguma árvore próxima que nos distraem durante este passeio arriscado. Isso porque o Sr. Carlos era nosso mateiro e era a preocupação com o seu bem estar que nos fazia, na maioria das vezes correr o risco de atravessar esse trecho que vai do hotel ecológico, à beira do rio, até sua morada naquele fim de mundo.

Se acaso pegássemos uma chuva no meio da caminhada, não havia recursos para nos protegermos; tiritávamos de frio. Após alguns minutos, com o corpo encharcado, as botas enlodadas dos charcos inevitáveis, parecíamos mergulhadores recém saídos das aventuras aquáticas; tudo grudava em nós. Urgia proteger, por dentro das capas de plástico pouco eficazes o nosso farnel. Pensávamos nos detalhes antes de nos embrenharmos mato adentro. Morrer de fome ou sobreviver à custa de ervas ou mesmo de frutas pouco acessíveis penduradas em árvores extremamente altas não era uma opção agradável. Assim portávamos sanduiches, bolos e guloseimas do tipo, mas que, uma vez ensopadas não serviriam mais como alimentos, transformadas que eram em qualquer coisa gosmenta a escorrer entre os dedos. Contudo, quando abençoados com uma temperatura agradável e um dia propício, não havia maior aventura.

Se ganhamos trechos mais abertos, em que o ar é ameno e a claridade bem vinda sentimos com intensidade a hospitalidade da selva. As árvores tornam-se muito mais próximas enquanto nos permitem melhor identificação. Nos trechos fechados passamos quase rentes a elas. Lá atrás, víamo-las como intrusas e agora, na condição de anfitriãs, dispostas a desnudar todos os seus segredos. São tantas e tão variadas e não se repetem até que dezenas de metros de caminhada as devolvam novamente à nossa visão. O chão que pisamos é formado de folhas cujos matizes mudam à medida que avançamos. A vida animal miscigena-se com a vegetação; não é raro surgir de repente uma cobra contorcendo-se em algum galho, confundindo a vista ao mimetizar o verde do ambiente ou enroscando-se em forma de bola deixando à mostra a cabeça, alerta a uma aproximação distraída. Sabedores dessa possibilidade passamos ao largo. Toda a atenção precisa ser redobrada durante uma caminhada florestal.

Há mais de duas horas cruzamos aquele pedaço de mata e, nesse ponto abre-se, diante de nós, uma clareira margeada de palmas. A circunscrição é quase completa, mas já podemos avistar, entre as folhagens, uma encosta de rio povoada de casebres minúsculos, de madeira, muito pobres, distantes entre si. Alguns inclinam-se para a frente como a quererem atirar-se nas águas do rio; outros, menores, ostentam telhados enormes em formato de asas que dão a aparência de pássaros prestes a levantar voo. Um pouco afastados, sobre o leito, um amontoado dessas casinhas conta com a proteção de palafitas para se manter firme no alagadiço.

Canoas coloridas e de formatos ousados enfileiram-se às margens. A correnteza é tímida e quase nula; ainda assim, sua força é capaz de jogar umas contra as outras aquelas embarcações, num bailado harmônico. É muito comum a cena em que uma criança experiente surge no comando de uma delas, em uniforme escolar, manobrando com maestria o pesado remo, transportando os irmãozinhos menores, os coleguinhas de classe. Impressiona-nos a facilidade com que conseguem equilibrar-se no barco sacolejante, ainda longe da margem, andando sobre ele sem apoiar as mãos e portando embaixo do braço o caderno ou o livro sem que uma gota d’água, um único respingo de sujeira macule a alvura de suas camisas. Pisam na terra e espalham-se em correria para as suas casas.

Sigo, com meus dois companheiros, na direção do nosso destino, ao encontro da cabana do Sr. Carlos. Afastamo-nos da margem do rio além da clareira e pegamos, mais para a esquerda, uma trilha quase intacta, ainda que estreita demais. Aqui não há árvores enfileiradas, mas pequenos arbustos entremeados por castanheiras, estas sim de enormes dimensões, com suas copas folhosas permitindo raros flashes de luz solar entre as pequenas brechas dos galhos; produzem formas geométricas dançantes e iluminadas que se projetam a nossa frente, sobre o solo esverdeado, sobre a ramaria dos arbustos. Mesmo na densidade do matagal nossas vistas, desacostumadas com o ambiente escurecido, conseguem distinguir uma lagarta ou uma daquelas terríveis tucanderas desfilando indiferente num galho de arbusto ou palmeando a superfície de uma folha, tendo sobre si o foco de luz, captando a atenção exclusiva, feito uma artista de palco. Ali, As borboletas predominam e as orquídeas são, delas, anfitriãs. Árvores maiores abrigam-nas. Entrelaçadas aos troncos, são espécies polivalentes, de cores e aspectos deslumbrantes. Que bem faz à alma a visão dessas flores, presas aos troncos ou balançando-se nos galhos, dando a impressão de malabaristas em arriscadas apresentações! As borboletas encantam, em volteaduras rítmicas, constantes. As cores então confundem-se, proporcionando espetáculo à parte aos nossos olhos surpresos.

Bem no alto de alguns troncos flores em pétalas alaranjadas, tendo por trás o azul do céu, são estrelas diurnas, dignas de um registro à parte. Ouriços despedaçados; nozes apodrecidas; a fartura da selva em pleno abandono. Encontrar uma castanha em bom estado requer tempo e paciência. Ainda assim, se a sorte nos favorecer pode-se encher os bolsos desses frutos deliciosos; vale a pena comer iguaria tão nutritiva.

Saindo da trilha, avistamos o córrego vizinho à cabana do Sr. Carlos. Surge de um interior de mata serrada, de acesso difícil e arriscado dada a presença de cobras. Desce estreitando-se e para atravessá-lo punham madeira reforçada por toras fincadas e bem presas a enviras possantes. Peixes coloridos, em pares, brincam, ziguezagueando na água cristalina dessa torrente. Do outro lado é a cabana. Solitária, simples até demais, quadrada feito uma caixa de papelão. Em volta, o mato da selva quase a esconde. Por fora, a casinha para as necessidades, um tonel azulado e o balde atulhado de roupas.

Aproximamo-nos, tendo que nos desviar das galinhas e do pequeno bando de marrecos que querem nos recepcionar. Fora isso, o silêncio. A mulher do seu Carlos não vem ao nosso encontro como é de costume. Entrevimos, por uma brecha da porta, sobre o lençol encardido da cama, suas botas de caminhada. Dorme, talvez.

- Sr. Carlos! Sr. Carlos! Somos nós.

Não houve resposta.

- Acham que devemos entrar assim mesmo? - Pergunto aos colegas.

- Sim. Já que não responde - disse um deles.

Deixando passar um pintinho vindo da casa, entramos. Ele está imóvel, pálido. Porém, com o ruído e uma leve sacudidela em seu corpo, desperta.

- O que querem? Deixem-me em paz! Vão embora! Não vou a lugar algum sem Estela. Já disse, deixem-me em paz!

Está bêbado. A cena já nos era familiar. Sem alternativa, retornamos dali e iniciamos o mesmo trajeto de volta. Fazer o quê? A mulher o deixara de novo, por causa da bebida e dos maus tratos. Por quanto tempo resistirão àquela situação?

Professor Edgard Santos
Enviado por Professor Edgard Santos em 27/08/2015
Reeditado em 27/08/2015
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