O ESCRAVO DE RAMSES

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Todas a formas e todas as cores, que possam atrair a atenção e despertar, não só a curiosidade, mas os paladares mais exigentes, ali estavam expostas. Completamente apinhados de barracas simples, cobertas de uma lona branca e bastante forte, que as protegiam das fortes chuvas que ali se faziam freqüentes, e guarnecidas nas laterais por tecidos avermelhados, encontravam-se os dois lados da rua. A multidão se espremia e disputava espaços raros em busca daquelas que ofereciam os melhores preços e as melhores mercadorias. A vista das enormes e apetitosas ameixas, do vermelho das maçãs, realçado pelo brilho das gotículas que resvalavam do alto de uma pequena abertura, enchia de desejo os olhinhos de Ahamed e de água a sua boca, que desde a noite anterior, até aquele já quase final de tarde, ainda não provara alimento.

Valeria a pena se arriscar e pagar o preço da fome implacável? Por culpa do próprio regime em rigor naquela terra distante, a pobreza excessiva destruira a dignidade e a esperança da maioria. Ahamed era o exemplo vivo desta desumanidade. Seu corpinho raquítico destoava da idade de 14 anos vividos em meio à fome e à miséria. Os olhinhos fundos nas faces encovadas acompanhavam com agilidade o movimento da turba. Ao contrário daquela sua aparência, desfilava a sua frente a nata privilegiada, mostrando sem pudor ou constrangimento o produto do ganho fácil, fruto da discriminação.

Ainda não caíra com força a chuva. Restara, do temporal da véspera, o barro em alguns pontos da estreita rua de terra. As mulheres pisavam com cuidado e desviavam-se das poças protegendo as belas e coloridas sandálias, enquanto os homens que trajavam túnicas preferiam erguê-las até a cintura, não se importando em chafurdar os pés no negro lamaçal recém formado.

Ahamed não despregava os olhos de uma das barracas a sua frente. Era repleta de frutas; nozes, pêssegos, enormes cachos de uva pendurados a balouçar ante a sua visão maravilhada. Encostara-se no muro branco de uma residência a uns dez metros do portão e ali ficara, esperando a oportunidade de se aproximar sem ser notado. Talvez não tenha percebido a chegada de um morador descendo as escadas do terraço, trazendo nas mãos algumas sacolas contendo lixo. Ele abriu o portão, olhou para o menino, mas não esboçou nenhum tipo de reação. Caminhou alguns passos para o lado oposto, ergueu a tampa de uma enorme caçamba, atirou lá dentro as sacolas e retornou, subindo as escadas.

As ofertas tentadoras atraiam a todos que passavam. Os preços estavam expostos em tinta preta sobre plaquetinhas amarelas espetadas nas mercadorias. A multidão aglomerava-se ao redor, cobrindo com freqüência a visão de Ahamed. Súbito, uma idéia pairou em sua mente. Porque não se infiltrar no meio dos grandalhões para roubar algumas frutas? Era tão miúdo que talvez não dessem por sua presença. Esperou a passagem de um burro, montado por um sujeito muito magro e sem camisa que transportava uma menininha em sua garupa. Atravessou e meteu-se no meio dos outros. Uma gorda, vestida num avental branco e encardido, atendia aos pedidos, pesando em uma balança quadrada as mercadorias e ensacando as moedas no enorme bolso da frente. O moleque, sem que ninguém notasse, passou para debaixo de uma das bancas das barracas e ali ficou, na espera de uma oportunidade.

– Aproveitem! As melhores frutas da estação pelos melhores preços estão aqui – gritava a mulher e depois sorria, exibindo os dentes amarelados, com algumas falhas no lado esquerdo da boca. Ahamed, encolhido por trás de alguns balaios de vime, esticava de vez em quando a mão e puxava um pêssego ou uma ameixa, saciando, aos poucos, a fome.

Eis que surgem, entre a freguesia, vestidos em seus uniformes – saiote de linho alaranjado, jaqueta com cinturão de fibra de algodão e alpercatas de pano reforçadas com tiras de couro – os guardas do palácio imperial, fazendo a costumeira ronda. Ahamed os viu. De onde estava, acompanhou os passos de um deles que, súbito, retornou e veio em sua direção. Percorreu-lhe um calafrio e pressentiu algo ruim, quando duas enormes pernas pararam diante dele. Tentou sair dali e correr, mas já era tarde. Ao erguer-se pelo outro lado da barraca sentiu duas mãos pesadas que o agarraram pelo pescoço. O homem que vira minutos antes saindo da casa esperou o momento certo de tirar mais um desfavorecido de circulação.

O flagrante da prisão levou-o diretamente ao departamento de polícia onde permaneceu por duas semanas encerrado em um cubículo de oito metros quadrados junto com mais três menores que, como ele, se condenados, e certamente o seriam, receberiam o mesmo castigo. No Egito daquele tempo não havia apelação, idade e, tampouco, fiança para os crimes de roubo. Perder a mão, decepada ao golpe da cimitarra, era o que aguardava Ahamed. Triste penalidade para o triste suplício da fome que pede apenas que seja saciada.

Julgado e condenado chegou o dia da execução da pena. Foi levado a campo aberto na entrada do deserto e amarrado a duas traves fincadas na areia úmida e branca, na posição de pé, braços e pernas abertos e com os pulsos e mãos esticados e atados em grossas cordas. A mão direita pendia, inerte, aguardando o fim trágico. Ali se encontravam os homens da lei, representantes do faraó, testemunhas e outros interessados e curiosos. Foram lidos os termos da pena. Em seguida, um trecho do livro sagrado completou a cerimônia. O carrasco apresentou-se; os braços nus, musculosos e queimados pelo sol. As mãos peludas seguravam com firmeza a arma que brilhava e causava medo.

A aproximação de uma carruagem de forma repentina e barulhenta desviou a atenção do evento e, mais ainda, uma mulher bela, tanto em trajes quanto em beleza física.

– Quem ousa interromper a cerimônia? – quis saber o juiz presente.

– Sou Demétria, secretária de paz da princesa Bartira, do reino de Abdul.

– Que deseja a nossa adorada Bartira?

– O rei Abdul está doente. Os afazeres do castelo se fazem urgentes e acumulados e necessitamos de escravos. Poupe do castigo este pobre coitado que vou levá-lo agora mesmo à presença de Bartira.

– Embora não aceite fiança o nosso faraó, o condenado pode ser negociado como escravo e livrar-se assim da pena e a responsabilidade recai sobre o adquirente. Sabe, no entanto, que os valores da negociação são altos. Não sei se valerá à pena ao nosso rei.

– Não importa a Abdul o valor e ele está ciente de todos os riscos. Liberte-o agora mesmo.

Livrou-se assim Ahamed de perder a mão direita e seu peito encheu-se de gratidão e alegria. Aquele infeliz menino, vagabundo e sem família, atirado na rudeza e na solidão das ruas, viu transformar-se a vida de um momento para o outro como conseqüência afortunada de um fato corriqueiro nas ruas do Cairo nos tempos de Ramses. A fama de Bartira como favorita do rei Abdul era inquestionável. À bela princesa não faltavam o conforto e as riquezas do castelo onde vivia. Alta, olhos azuis brilhantes e expressivos e tez morena acentuada pelos raios abundantes do sol que invadiam os amplos espaços dos seus aposentos. As escravas cercavam-na de préstimos e atenção. Foi este ambiente de riquezas e maravilhas que acolheu Ahamed e o viu transformar-se de um raquítico e débil guri num forte e garboso mancebo. A princesa, acompanhando de perto esta mudança, mudava de igual forma o j eito de ser para com ele. Os músculos, desenvolvidos no exercício diário das pesadas obrigações como escravo, eram agora o colírio calmante que a enchiam de admiração e desejos por ele.

Tornaram-se amantes. A princípio, às escondidas, tendo como testemunhas de seus momentos proibidos não mais que as paredes e pilastras daquela morada.

– Meu coração não vê a hora de unir-se ao seu sem que precisemos ocultar ao mundo os nossos sentimentos, meu grande amor. Amo-o como nunca amei outro homem. Não foi à toa que rejeitei as investidas aventureiras de muitos que aqui estiveram trazidos pelo faraó. É porque sabia, do fundo da alma, que um dia seria sua. O fim de Abdul está próximo e, como rainha, não precisaremos fingir nossa paixão.

Ahamed deixava-se levar pelas declarações de Bartira, correspondendo integralmente. As mãos macias que penetravam os bastos cabelos macios do moço, como as unhas pontiagudas da futura rainha, deslizavam com afeto sobre o couro cabeludo, eriçando-lhe os pelos.

– Que mais poderia eu desejar da vida? Tanto sofri que já perdia as esperanças de haver alguma felicidade neste mundo. Até que, por desígnio dos deuses, surgiu você, salvando-me a existência. Mais do que isto, mostrou-me o doce encanto do amor. Quero viver a seu lado eternamente; este é o meu lar e você é tudo que quero e que preciso.

A morte de Abdul trouxe mudanças. Bartira, no trono, não cumpria, à altura do pai, as árduas tarefas de um monarca. O temperamento calmo e parcimonioso que a todos agradava e havia conquistado desapareceu com o tempo. Mudou leis, criou estatutos e afastou amigos e colaboradores. Tornou-se uma rainha má, na opinião de seus próprios conselheiros. As penas de morte, assim como as execuções, triplicaram, colocando em pânico a sociedade do seu tempo. Ahamed, por mais que a alertasse, não obtinha sucesso em abrir-lhe a visão ao que vinha ocorrendo. A paixão já não era a mesma. O fogo do amor diminuía ao transcorrer dos anos, os mesmos anos implacáveis que empanavam também a frescura da pele e o cativante brilho da fisionomia da rainha.

Alguns anos se passaram. A herança de Ramses II permanecia gloriosa, exposta nos templos e palácios da capital Tebas e, nas suas vizinhanças, Luxor e Karnac eram o habitat de Deus sobre a terra. De uma maneira inteiramente excepcional, Ramses III permite-nos lançar uma olhadela sobre a vida íntima do harém e suas diversões. Nos apartamentos das torres da “Grande Porta”, situada hoje na margem ocidental do Nilo, fez-se representar em suas relações familiares com suas favoritas. As mulheres, e ele próprio têm por únicas vestes uma coifa, um colar e sandálias. As esbeltas e graciosas criaturas cercam seu senhor, que traz à cabeça a coroa azul dos faraós, jogam com ele o xadrez e apresentam-lhes às narinas buquês de flores cheirosas. A gente o vê pegar pelo queixo sua encantadora companheira e não se pode contemplar este gosto de terna intimidade sem que ocorra a lembrança de que aquele mesmo soberano haveria de morrer, vítima de uma intriga do harém, na qual estiveram imiscuídos seus familiares mais imediatos.

Além das moças nativas, o harém compreendia representantes de regiões longínquas. Mais de uma princesa oriental foi enviada com grande pompa e ricamente escoltada para o vale do Nilo a fim de ali se tornar esposa oficial do filho do sol e contribuir para a melhoria das relações políticas entre os dois países. Depois de alguns dias de festa, em que a recém-chegada era coberta de presentes e honrarias, esta desaparecia atrás das grades do harém e os documentos históricos fazem o silencio mais completo a respeito delas. Sabemos somente que uma tumba lhes era reservada a oeste de Tebas e o que conhecemos da psicologia daquele tempo nos permite crer que a estranheza dos ritos fúnebres egípcios devia encher de inquietação e de angústia mística o coração daquelas belas exiladas.

Evidentemente, a escolha das concubinas era determinada, em primeiro lugar, pelos encantos femininos, sem que a nobreza de sua origem fosse tomada de maneira alguma em consideração. O faraó tinha por costume manifestar a particular estima que mereciam certos personagens da corte, oferecendo-lhes esta ou aquela beldade do seu harém pessoal. Não sabemos quanto tempo as pensionistas do harém viviam a cargo do soberano. É, entretanto certo que várias dentre elas, cujos nomes conhecemos, passaram, após a morte do seu senhor, para o harém de seu sucessor e ali ocuparam um cargo de destaque.

Ruana viera da Pérsia para encher de beleza e magia o castelo de Ramses III e ele, tendo na conta de um dos mais fiéis conselheiros o garboso Ahamed, fez questão de ambos aproximar. Agora, com 25 anos bem distribuídos, em beleza física e inteligência, Ahamed exercia no palácio as funções de escriba e gozava de grande respeito e admiração perante a nobreza. O passado de miséria ficara no esquecimento. O felá esfomeado e vagabundo, o ladrão de feiras emagrecido era apenas um a mais dentro da maioria esmagadora que era a população do Egito, a classe dos dominados. Mas quis o destino que uma sentença fosse interrompida e lhe trouxesse uma grande oportunidade. Amou-o Bartira pela constatação dos fatos que só fizeram comprovar a grande fé que nele depositava. Amou-o por vê-lo escravo durante o dia e seu servo favorito em todas as outras horas, estudante fervoroso, am ante das letras; tanto ou mais que as curvas do seu belo corpo. Devia a ela, sem dúvida alguma, a sorte que conquistara, devia-lhe, mais do que isto, a salvação.

Passou a valorizá-la ainda mais, depois da morte de Abdul. Temia então pela amada. A posteridade dos soberanos do vale do Nilo foi geralmente numerosa, o que tornava particularmente espinhosos os problemas que a sucessão deles suscitava. Inúmeros papiros fazem alusões a interrogatórios, a julgamentos secretos, a execuções sumárias e outros ajustes de conta, em ligação com a morte de um príncipe reinante. Desde os tempos mais antigos, certos domínios da coroa eram destinados à manutenção dos numerosos príncipes de sangue. Mas estes últimos eram obrigados, ao mesmo tempo, a assumir funções muitas vezes pesadas na administração, nos cultos e no exército.

Foi o que sucedeu com Bartira. Com a morte de Abdul, ela, passando para o harém de Ramses III, ocupou ali várias posições de destaque, mas não se sentia satisfeita. O poder da soberania anterior era-lhe muito maior e cheio de liberdade, o que agora não ocorria. Achava que Ahamed a traía com as demais concubinas. Com a morte de Ramses III por envenenamento, Bartira perdeu parte de suas regalias, que já não eram muitas. Foi a julgamento, conseguindo se livrar de uma condenação. Mas teve que abandonar o palácio e ir para os cultos como serva de Amon Rá.

Os dotes de Ruana juntaram-se aos de Ahamed e a paixão não se fez esperar. A ela não faltavam o luxo nem o conforto. Poderia sentir-se satisfeita com o estilo material de vida que a preenchia por fora, mas o vazio da solidão permanecia. Sentia-se usada, vivia num mundo que não era o seu. Nobres, guerreiros e sacerdotes faziam parte do seu dia a dia. O amor de Ahamed era notório. Sentia-o nos olhos do escriba ao cruzar com ele nos corredores do palácio, quando não o captava disfarçado num sorriso que ele fingia não ser para ela, mas para Ramses ou outra concubina nas festas coletivas. Usara da influência do faraó, soubera como nenhuma outra tirar vantagem dos momentos de orgia em que o soberano era mais seu do que de outras concorrentes. Foi fácil, num momento de fraqueza, incutir nele a idéia de lhe facilitar Ahamed.

A princípio, todos os que estiveram no palácio, ou que por lá passaram, eram culpados pelo assassinato do rei. A influência de Ahamed conseguiu tirar Ruana de uma possível condenação. Salvou-a. O amor fê-lo por si. O amor que já não sentia por Bartira. A mesma que um dia livrara-o da morte certa, perdera-o para uma escrava; quão revoltoso não devia estar o seu coração. Só mesmo os deuses para consolá-lo e ela vivia no meio deles, agora. Tanto a eles se dedicou que conquistou os sacerdotes do templo.

Passaram-se meses, a sucessão efetivou-se e, quando isto acontece, só não mudam de lugar as paredes do templo. Um papiro em forma de mensagem destitui de suas funções Ahamed que, rebaixado, não suporta a humilhação e decide abandonar tudo.

– Não sofra por mim, eu te peço. Preciso aceitar meu destino. Você é linda e inteligente, não posso aceitar que se arrisque ao meu lado. Não fuja. Permaneça aqui e enfrente tudo; no final estaremos unidos e nos amaremos para sempre. Confie em mim, meu amor.

– Por favor, não me peça tal coisa – disse soluçando Ruana. As lágrimas de dor e angústia banharam os contornos rosados de suas faces. Os olhos verdes e expressivos fitavam Ahamed, como a lhe suplicar que a não deixasse.– Prefiro a morte. Não suportaria continuar nesta vida sabendo que não mais o teria a meu lado. Vivi e tenho vivido envolta no paraíso. Quase esqueço que sou uma concubina que divide com outras as horas de alegria e descanso de um Ramses. Sou diferente delas porque tenho a ti, meu amor, meu guardião, minha fortaleza.

Mas, por maiores que fossem as promessas e por mais torturante a decisão que precisava tomar, Ahamed não titubeou. Ao dar o beijo de despedida em sua amada, foram de seus olhos as lágrimas que desta vez rolaram. O abraço apertado, o rosto oculto no choro e o vestido branco de linho umedecido irão se perpetuar na mente de Ahamed com a mesma força que já se perpetuara o amor de Ruana em seu coração. Naquela manhã calorosa partiu ele a cavalo para sua nova vida.

Bartira, a grande causadora do renascimento de Ahamed, como de sua queda, de promoção em promoção dentro do templo, tornou-se sacerdote, conquistando em todo o Egito respeito, admiração e, inevitavelmente, medo, posto ter sido ela no passado alvo de iguais sentimentos. E, agora, depois do faraó, a mais rica e influente personalidade tinha muito em suas mãos. Ahamed enfrentou anos de penúria vagueando no deserto, sacando de sua grande sabedoria a força e a coragem, sustentado pelo amor de Ruana. Os ricos e abençoados oásis foram seu lar e sua oficina; e a experiência, a convivência entre beduínos transformaram-no mais uma vez. Tornou-se próspero na compra, venda e criação de camelos. À sua tenda, bela e confortável, vinham mercadores dos quatro cantos da África. Com exceção de Ruana, Tebas, o palácio do faraó, as pirâmides, em fim, o Egito, passaram a ser, n ão só para ele, mas para todos da longínqua região onde agora vivia, não mais que uma referência comercial e bastante lucrativa. E foi graças a isso e a sua fama, e não menos à sábia mão do destino, que Ruana passou a ser sua novamente, trazida a camelo e com muita pompa.

Pelo poder da riqueza e da grande influência sobre a sociedade daquela época, eram os sacerdotes temidos e respeitados. Nem mesmo a força de um faraó era capaz, em certos casos, de sobrepujá-los. Tinham em mãos a fé cega de um povo submisso e ignorante. Sob o reinado de Ramses III, e mesmo depois, a riqueza do clero de Amon aumentou em grandes proporções. Os celeiros clericais regurgitavam de trigo. Um exército de 107.000 escravos servia os padres de Amon. E, admitindo que a cifra da população tenha sido de cinco a seis milhões, um homem dentre cinqüenta e sessenta egípcios era escravo do clero. E mais, a sétima parte das terras aráveis pertencia a Amon e a seu clero. Este era proprietário de 169 cidades do Egito e da Síria, de uma frota de 88 navios, de 53 estaleiros navais e de 500.000 cabeças de gado.

De fato, eram os faraós rebaixados ao lugar de criados dos servidores dos deuses. O poder e o prestígio reais decresciam à medida que aumentava o poder do clero. Sendo assim, Ramses III sobreviveu por pouco tempo à conspiração urdida contra ele e morreu em 1167 a.C. Sintomas alarmantes: domínio clerical, conspiração e invasão do país por estrangeiros eram os sinais precursores da ruína do Egito.

Dentro deste clima de insatisfação e revolta vivia a população do Egito. No palácio, Ruana amargava os maus tratos que sofria, instigados pelos sentimentos de perda e frustração de Bartira. A vida sem graça e sem sentido longe do amor de Ahamed tornava-se-lhe agora insuportável. Descuidou-se da saúde e da beleza física. Tornou-se, nos dois anos que agora os separavam, gorda e envelhecida. O período da transição que sobreveio à morte de Ramses III foi o pior de sua vida palaciana. As mordomias que ostentava deram lugar à tortura e a perseguição.

Bartira não se esqueceu da promessa de Ahamed de ser somente e para sempre seu, por isso não perdeu a esperança de reviver o seu amor. A influência que agora exercia no Egito atravessava fronteiras, afetando todas as transações comerciais que fossem do seu interesse. De maneira hábil e premeditada boicotou todas as relações de negócio com a Síria, reduto de Ahamed e sua principal fonte de riqueza. Isto o prejudicou imensamente. Dono de magnífico império viu, em pouco tempo, cinco das oito cidades em que prosperava passar para as mãos do clero egípcio. Perdeu com isto dois estaleiros, quatro navios, centenas de cabeças de gado, entre outras riquezas. Ele sabia, no entanto, que no fundo do coração de Bartira ardia, por trás de toda sua pompa e ostentação, um tremendo vazio, o vazio do amor. Portanto, foi até ela. Quem sabe não chegariam a um acordo?

A exuberante entrada de Luxor é o retrato da prosperidade do novo império Egípcio. Ramses II dedicou sua longa vida a estes exageros arquitetônicos; suas esfinges, como a querer eternizá-lo, nos recepcionam de forma imponente, para não dizer assustadora. Ahamed estacionou ali numa manhã de domingo em duas carruagens, trazendo consigo seis pessoas entre escravos e conselheiros. Como parte da condição de recebê-lo e ouvir o que tinha a dizer estava a aceitação dele em não ver nem perguntar de Ruana.

– Vejo que está muito mais bonita. Parece que Amon tem derramado sobre você as suas graças – disse Ahamed, sozinho com ela numa das salas do templo.

– Você sabe que minha felicidade só seria completa se o tivesse ao meu lado. Não sei o que viu em Ruana, uma simples escrava. Mostre que é realmente aquele sábio Ahamed que eu ajudei a ser, ficando comigo. Já provou isto ao deixar o palácio e tornar-se o homem mais rico de toda a Síria. Pode ter tudo em suas mãos. A mulher mais poderosa de todo o império egípcio, a deusa de Amon Ra, que tem a seus pés reis e rainhas. Mas tudo isso não passa de quimera se não tiver o que mais anseio na vida: o seu amor. Ahamed, case-se comigo e terá de volta tudo o que lhe pertencia; será rico novamente. Muito mais que isso, será o número um de toda a terra do Egito.

Ahamed a ouvia em silêncio. No fundo, o que sentia por Bartira não passava agora de mágoa e compaixão. Estava de todo transformada; só o poder agora a ela interessava. A transformação que ele já pressentia de longa data, somente agora, ante seu olhar surpreso, se evidenciava. Já contava, na verdade, com esta mudança. Mas a expressão e o tom de voz de Bartira não deixavam dúvidas do que o poder causou em sua alma de sórdido e repelente. Não quis, todavia, demonstrar o que estava sentindo. Afinal, a sua felicidade também dependia dela. Começou dizendo.

– Querida Bartira, meu peito não cabe de gratidão a tudo quanto por mim fizeste. Não é então uma vida tesouro maior do que todas as riquezas reunidas? Por mais que eu viva e por mais poderoso que venha a me tornar, nunca me morrerão no peito os momentos por que passei ao ver de perto o meu fim, posto que tornar-me-ia um inútil para sempre. Levarei para a eternidade a alegria de ter sido salvo por ti. Mas, pelo poder de Amon, não me peças o impossível. Não posso negar que um dia te amei mais do que tudo neste mundo. Porém, quem resiste às flechas da paixão inexplicável, do amor gêmeo, correspondido e compatível de sentimento, de carne e de espírito? Ruana é o grande amor da minha vida. Por ela cheguei onde estou superando todos os percalços deste mundo e resistindo à falta do amor causada pela distância agonizante, mas não carente de esperanças. Por Deus, pe rmita que a veja e fale com ela.

Diante destas palavras de Ahamed, viu Bartira cair por terra todas as esperanças que ainda restavam em seu coração. Sentiu, como mulher inteligente que era, que nada o traria para junto de si. Que, mesmo que dele arrancasse até o último do seu gado, não teria o seu coração, posto que à outra de uma vez pertencia. Mas, apelou, mesmo assim, para uma última tentativa.

– Então, é mesmo o que quer? – disse, não conseguindo esconder a frustração. – Alegre-se, pois; terá Ruana de volta. – Operou-se na fisionomia de Ahamed a mudança característica dos apaixonados. – Mas, é meu dever preveni-lo. Ruana não é mais aquela menina linda e cheia de vida que você deixou há mais de cinco anos.

– O que ela tem, está doente? – perguntou assustado.

– Não, pode ficar tranqüilo. Pelo menos, não fisicamente. Mas está deprimida. Não demonstra muito amor pela vida e come exageradamente. Não sei se irá reconhecê-la de tão gorda que está; quer mesmo vê-la ainda assim?

– Certamente que sim. Meu amor por Ruana é maior do que a perda de sua beleza física; se é como diz.

– Verá com seus próprios olhos. Mas, não é só isso. Existe mais um problema.

– Pelos céus! Não me torture. O que fizeram com a minha Ruana?

– Acalme-se. Não é sobre ela que vou falar agora, mas sobre os seus bens que ficaram na Síria. Entra em vigor ainda este ano a lei de execução penal de todos os envolvidos na more de Ramses III. Tanto você quanto sua amada não poderão viver no Egito e nem retornar a Síria. Seus bens serão confiscados até que sejam descobertos e punidos os verdadeiros culpados. Caso isto não ocorra, eles passarão ao poder do clero de Amon Ra. Contudo, Ahamed, pense bem. Eu tenho o poder de mudar toda esta história. Apenas peço que fique comigo e tudo será como antes.

– Não, Bartira. Perdoa-me, mas não posso. Que seja então cumprida a lei e eu fique sem os meus bens. Conseguirei provar a minha inocência. Enquanto isso seguirei trabalhando como tenho feito nos últimos anos, agora com muito mais alegria, pois terei a meu lado a mulher que amo. – Dizendo estas palavras, virou as costas e saiu, deixando Bartira envolta em lágrimas de perda e de fracasso.

E assim termina a historia de Ahamed. Ele e Ruana encontraram-se naquela mesma noite e pernoitaram no palácio, partindo sob escolta para a Turquia, onde viveram exilados por sete anos. Tiveram três filhos neste período. Unidos pelo amor, trabalharam e, pacientemente, esperaram. A mudança de governo da Síria favoreceu o seu caso. Reconhecido o grande serviço prestado àquela nação, foi aceito de volta e, ali, com Ruana e as crianças, estabeleceu-se definitivamente e reconquistou quase a totalidade de sua enorme riqueza.

Professor Edgard Santos
Enviado por Professor Edgard Santos em 14/07/2015
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