Superpoderes

Como assim? Quem sou eu? Ah, eu sou só mais um frequentador do

GMAA (Grupo Mundial dos Amantes Arrependidos). E, não, não servem café quente nas reuniões. Tampouco as reuniões são realizadas nas noites de quarta-feira. Por um lado, isso é bom. Consigo ver o jogo. Pelo outro, assim como nas reuniões, minha mente vira um turbilhão de cadeiras vazias, que, por não ter ninguém para acomodar confortavelmente, se sente inútil. Defasada.

E, o quê?! Você quer saber quem é ela? Tudo bem, eu até posso te dizer isso. Mas saiba, meu caro leitor, que este mundo é cruel, e nada é gratuito. Ou em vão. A interpretação é sua. Mas, tudo bem, tudo bem, vamos lá. Eu lhe conto sobre ela...

Ela tem superpoderes, sabia disso? Não, não dê risada. Eu falo sério. Os poderes dela são bem menos entediantes do que voar, ou, até mesmo, possuir visão de raio laser. Ela tem um poder que, bem, a faz se teletransportar e ser invisível. Pode cessar a sua risada, porque estou falando sério. Eu a conheço. Bem, acho que conheço. Na verdade, acho que ainda conheço. O tempo tem um poder destrutivo muito grande,

não?

Superpoderes, meu caro leitor, são raros. Na verdade, antes de conhecê-la, achava que superpoderes fossem como deuses: não existissem. Mas a nossa vã filosofia ainda não explica coisas que acontecem nesse mundo sensível. Eles existem, sim. Vivenciei isso. Ela consegue ficar invisível e se teletransportar, meu amigo. Toda a

vez que nos separamos, eu sinto a presença dela, como um fantasma que insiste em me atormentar. Mas, eu não acredito em fantasmas ou espíritos malignos. Eu acredito em superpoderes, entende? Eu sei que ela está ali. Ela de fato está ali.

Em um determinado dia, decidi estabelecer contato.

- Eu sei que você está aí – eu disse – apareça!

Mas ela é teimosa. Não me obedeceu. Insisti mais umas duas ou três

vezes, não lembro. É difícil contar quando se mistura álcool com saudade.

Depois disso, ela continou me visitando. Sem a ver, é claro. Mas eu sabia que ela estava ali, entende?

Vou dar o meu último gole nesse copo e vou-me embora. Mas, antes

disso, saiba que estamos juntos de novo. Acho que estamos. Ou, na pior das hipóteses, não estamos...ainda. Parei de frequentar as reuniões do GMAA, mas, tudo bem, não tem problema. Não teria ninguém para me receber mesmo. Eu não vejo ninguém. Nem ela. Mas, eu sei que ela está ali... entende?