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Tiro no peito

Eu sempre fui muito ciumento. Mas também sempre fiquei muito atento a quem se aproximava dela com segundas intenções.
Certa vez discutimos muito sério e eu fui dormir na cama da nossa filha, era véspera do aniversário dela. Já era próximo da meia noite e eu dei os parabéns, mas ele disse apenas "obrigado". No mesmo instante um cara que vivia mandando mensagens pra ela mandou felizes aniversário e ela respondeu: "muito obrigada, meu amor". Isso me tirou do sério.
Pode parecer baixa autoestima comparar a forma como ela tratava alguns caras à forma como ela me tratava, companheiro de quase 20 anos, mas me sentia por baixo, desprestigiado, pois ela era capaz de buscar um colega de trabalho em casa, num dia de chuva, mas reclamava quando tinha que me dar carona a algum lugar.
Em outra situação, já separados e eu tentando uma reconciliação, fomos convidados para jantar com um casal de amigos que tinham enfrentado uma situação de separação/reconciliação bem mais séria que a nossa.
Estavamos em um restaurante,  num clima agradável, uma boa conversa, mas por volta das 23h chega uma mensagem no celular dela. Era um "boa noite" do mesmo cara que vivia dando em cima dela. Confesso que fiquei louco. Pedi pra ver a conversa, mas na hora ela apagou a mensagem. Então ficou claro que tinha algo a mais. Pq uma pessoa mandaria mensagem para ela naquele horário, aínda mais sabendo que ela era casada?. O casal de amigos nos aconselhou a lutar pelo nossa casamento, a mudar de cenário, de cidade e tentar restaurar a nossa família. Eu queria muito isso. Mas o ciúme era grande, mas a decepção maior ainda. Eu ficava me perguntando o porquê de ela não "dar um corte" nesse cara, já que estava bem óbvio que ele estava "dando em cima" dela?
Alguns meses se passaram e eu ficava desesperado, pois não havia nenhuma possibilidade de ela me perdoar e voltar pra casa. Eu fazia promessas, planos, cronograma da reconciliação, mas ela permaneceu irredutível. Ainda assim tinhamos um relacionamento de parceria e de cama esporadicamente. Eu me sentia seguro, pois ela dizia que não tinha ninguém além de mim, que não precisava de mais ninguém, então era como se estivessemos casados, morando em casas diferentes.
Mas quando surge uma pulga atrás da orelha não tem jeito. Digamos que eu estava certo mais uma vez. Próximo do meu aniversário, (que por sinal era sempre o pior mês pra mim, ano após ano. Não sei qual o mistério disso.) Eu descobri que ela tinha outra pessoa. Aquilo foi como um tiro no peito. Eu queria morrer. Eu só queria dormir e não acordar mais. Ao mesmo tempo não queria fazer sofrer meus pais e nem a nossa filha. Mas queria sumir da face da Terra.
Conversamos em vários momentos, queria ouvir a verdade, mas ela fazia questão de não responder as minhas perguntas. Dizia que a culpa era minha por tentar descobrir e seria mais fácil pra mim se eu não soubesse de nada.
Que talvez ainda fossemos casados se eu não tivesse descoberto certas situações. Faz sentido, mas viveríamos uma mentira.
Perguntou-me o meu conceito de amor e eu disse que amor era querer tá perto, sentir saudade, querer conversar, dar e receber atenção. Então ela me interrompeu e me deu um tiro de misericórdia. Disse-me que nunca me amara. Que simplesmente permaneceu junto a mim por décadas apenas pela minha "insistência" e que em nenhum momento pensou em reatar o nosso casamento, apenas me suportuva ficando perto de mim pra se certificar de que eu não tentaria suicídio.
Eu já não tinha mais reação. Após a conversa, ela me deixou na parada de ônibus. Eu subi no ônibus após alguns minutos e, durante o percurso até minha casa, não consegui segurar o choro por vários momentos. Ficava imaginando alguns momentos felizes pra mim e lembrando que, segundo ela, esses momentos ao meu lado era apenas um peso. E eu que me achava uma boa pessoa, passei a questionar minhas atitudes. Será que eu era realmente a pessoa que eu enxergava no espelho. Será que eu era na verdade um crápula, um criminoso que manteve presa ao seu lado uma pessoa por quase 2 décadas?
Acredito que eu preciso desconstruir a imagem que eu tinha de mim e moldar, de dentro pra fora, uma nova pessoa. Pois eu nunca quis fazer mal pra ninguém, muito menos pra mulher que eu amo.
Vou seguir nessa jornada. Na intenção de ser melhor a cada dia, para os meus familiares, para nossa filha, para ela, como ex companheira, e para mim mesmo, para que eu olhe no espelho e me reconheça como eu realmente sou.
Antonio da Costa Júnior
Enviado por Antonio da Costa Júnior em 21/11/2020
Código do texto: T7117409
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Antonio da Costa Júnior
Manaus - Amazonas - Brasil
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