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A cafeteria.

   Estou sentado em uma mesa para toma um café com o Osmar e o Orestes, tentando dialogar com os dois, tentando argumentar motivos para que os dois não se matem, de fato eles são alheios um ao outro, o Osmar odeia o Orestes desde que o Orestes dormiu com a mulher do Osmar, por sua vez, Orestes odeia o Osmar por pura reciprocidade, nada pessoal.

   Eu procuro explicar que não há motivos para eles se odiarem, tendo em vista que a tal mulher do Osmar fugiu com o Felipe, eu embaso e reforço os argumentos contra a mulher e o Felipe, mesmo porque, eu nunca fui simpático ao Felipe, sempre achei ele meio mau caráter. Mas, em contrapartida ao meu ponto de vista com relação ao Felipe, tanto o Osmar quanto o Orestes nutrem certa simpatia pelo Felipe, em certas situações eles até acham que combinam...

   Eu conheço os dois há muito tempo, tempo o suficiente para saber que um deles tem uma faca escondida no bolso e o outro tem uma arma na cintura e como obra do acaso, eu não me lembro qual tem o que. Uma garçonete bonita e de cabelos curtos vem e pergunta o que gostaríamos de tomar; eu sugiro um café expresso para todos, todos concordam, não de modo geral, concordam comigo, se a ideia tivesse partido de um dos dois, ninguém aqui tomaria café expresso, por isso, eu resolvi me adiantar.

   A garçonete volta minutos depois com três xícaras de café numa bandeja e os serve na mesa com um sorriso, ela me olha mais carinhosamente e eu retribuo com sorriso terno, os meus amigos se olham com um ar de ódio, agradeço a garçonete e como quem não quer nada, pergunto o nome dela; “Amélia...” Nunca tinha percebido que era um nome tão bonito. Sem olhar diretamente para nenhum dos dois, eu dou um pequeno gole do café, o suficiente para me lembrar que o café não estava adoçado.

   Vale um parêntese aqui, que enquanto esperávamos pelos cafés, não foi pronunciado se quer uma palavra, de fato, ninguém tem qualquer coisa para dizer e dependendo dos pensamentos de cada um, se já tivessem trazido o café, muito provavelmente já teria ocorrido uma batalha de café pelando. Após adoçar o meu café com dois sachês de açúcar, tomo mais um pequeno gole e reflito sobre o que acabei de dizer e agradeço pelo café ter chegado depois e pelo fato de ter conhecido mesmo que muito ocasionalmente a Amélia.

   Durante o café, forçou-se o silêncio, eu ainda tentei perguntar para o Osmar sobre a mãe dele, que da última vez que a vi, estava adoentada, disse apenas que estava bem... Silêncio... Viro-me para o Orestes e pergunto  como está a irmã dele, pois, soube por ela mesmo num dia em que a encontrei num ônibus, que ela estava cursando biotecnologia, não fiz questão de pedir explicação sobre o que seria isso. O irmão dela que estava na minha frente disse apenas que ela também estava bem... Silêncio...

   Sem muita demora, terminamos o café. Olho para eles e lembro do fato de que um deles tem uma faca e o outro uma arma de fogo, olhos para as xicaras vazias e imagino que teria sido melhor uma batalha de café do que uma facada, ou um tiro. Insisto mais uma vez, que eles não têm motivos para se odiar, a mulher que é o motivo desse sentimento tão puro quanto o próprio amor, disse que esse ódio não deveria ser direcionado um ao outro, deveria ser direcionado para ela.

   Vale outro parêntese, eu só disse isso por eu sabia aquela altura que ela estava em outro país com o tal do Felipe, se não me engano se mudaram para o Chile e ambos, Osmar e Orestes nesse caso, não sabem disso e eu não contei. Só por isso eu disse isso, sei que eles estarão impotentes com relação a ela. Não me entendam mal.

   Depois de dizer essas palavras eles deram um suspiro sincronizado, olhei de canto de olho, enquanto Osmar mexia no bolso por dentro do casaco, viro o olhar sutilmente para o outro lado e vejo o Orestes ajeitando algo na cintura... Olho para Amélia e como por obra do acaso, uma coincidência do destino, ela me olha também. Volto os meus olhos para a mesa, os meus companheiros já voltaram a postura habitual, ambos me olham e novamente sincronizados me agradecem pelo café; nos levantamos e cada um deles apertou a minha mão e num gesto extremamente esforçado eles apertam as mãos e se despedem.

   Eu os olho enquanto saem pela porta, não houve discussão, tiros ou esfaqueamentos, me senti quase satisfeito, sento-me novamente e faço um sinal discreto chamando Amélia, pedi que ela me trouxesse algo para beber, do gosto dela, ela disse que me traria um Chai Latte, que era delicioso e era o preferido dela, eu apenas sorri.
Henrique Fliehr
Enviado por Henrique Fliehr em 13/10/2019
Reeditado em 08/11/2019
Código do texto: T6768355
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Henrique Fliehr
São Paulo - São Paulo - Brasil, 25 anos
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Henrique Fliehr