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LIGADOS!
 
Ela, uma mulher ensimesmada. Estatura mediana, cabelos castanhos ondulados, meio feia, meio bonita, um tanto tímida. Romântica inveterada, ainda acreditava no amor de livros e heroínas, tinha lá suas decepções e, por isso, e além disso, evitava os homens do pedaço. Já tivera sonho de ser professora, porém em face das atuais situações em que se encontra a educação no país optou por fazer Gestão em RH .  Solitária, vivia sua pacata, sem grandes arroubos. Vivia.

Ele, um rapaz encucado. Tinha um gosto por leituras de terror e suspense. Era bem-apessoado. Bonito, não era não, era apenas simpático. Desde a tenra infância cismava em ser útil ao mundo, quem sabe, fazer parte da Cruz Vermelha, alguma coisa poderia fazer, mesmo que não fosse médico. Dirigia seu carro durante o dia todo em ruas e avenidas da cidade. Inteligente e sisudo, mais parecia um velho escritor desses que vemos em retratos de escritores “imortais”. Acalentava outros sonhos, mas ainda não tinha encontrado alguém com quem compartilha-los, não havia até então se deparado com sua cara metade, por isso, a solteirice. Um homem quieto.

A vida os uniu de alguma forma, simples e casual.

Um dia de chuva estava ela sem coragem para ir até o terminal e pegar o ônibus para casa, então se arriscou a usar o aplicativo, chamou o Uber.  Meio desajeitada, fez a solicitação e ficou na espera. Asfalto molhado, debaixo de uma velha cobertura de telhas de plástico, aguardava o carro.

Vinha ele em direção a chamada, viu a solicitação e foi rápido, estava próximo do local.
Chegou. Ela se dirigiu ao veículo, abriu a porta, e ele seu nome mencionou, perguntando:

- Isabel?

Ela, meio tímida, responde:

- Oi, sou eu.

Ele a olha e mexe no aplicativo, tenta focalizar a localização que ela deixará na chamada, encontra, então põe o carro em movimento.

Ela, fica meio sem graça, e olha de lado, enquanto ele dirige, atento ao trânsito, chuva, pedestres, guarda-chuvas coloridos, um festival de cores num dia como aquele.

Ele disfarçadamente a olha, e arrisca um comentário:
- Dia chuvoso, né...  – Ri, meios em graça.
Ela, sorri de volta e responde:

- É, mudou de repente. Eu vi a previsão, era amanhã que iria chover. – Se calou, achando que falou demais.

Silêncio.
Chuva
Pensamentos voam

Ele tenta outra conversa.
- Parece que vai melhorar sábado, acho que vai, ouvi em algum lugar.... Não teve nada melhor a dizer... se calou
_ tomara. Ela respondeu, já com seu rosto ardendo de vergonha. O que estava fazendo? Querendo papo com um estranho.
 
Silêncio
Chuva
Pensamentos voam

Chegaram ao destino
Ela já tinha arrumado o valor da corrida, coisa de gente tímida, não queria que outro a visse vasculhando a bolsa à procura da carteira, e neste ínterim, a observasse mais de perto e com atenção e percebesse em sua face, seus olhos e seus gestos a sua insegurança.

Ela faz o pagamento, inclusive as moedinhas. Ele a observa enquanto entrega o dinheiro, ela não consegue desviar o olhar. Foi repentino e muito efêmero, mas houve um contato, dizem uns que aquele instante que o mundo pára. Se parou, voltou logo a girar, pois ela abriu a porta do carro e se lançou na chuva.

-Grata, boa tarde para você. - E assim entra correndo portão adentro.
-Obrigado. Ele responde, mas ela nem ouviu.
 
No celular dela a mensagem do aplicativo, na pesquisa, pergunta como foi a viagem com o motorista André
André. André. Um nome bonito pensa ela. Nem responde a pesquisa. Ver a foto dele, acha bem interessante, mas deixa para lá... melhor não arriscar mais nada, já tem tantas preocupações e sua vida parece tão insossa, mas trazer alguém assim para o seu mundo pode gerar mais confusão...já teve outras decepções.
Vai para o banho e depois se arrumar. Tem aula na faculdade e não pode faltar, mesmo com chuva, então se apronta e saí.

Os dias passam, e ela segue sua rotina, ele segue a dele. Ambos tentaram não focar naqueles instantes que ficaram olhando para o outro dentro do carro, milésimos de segundos, que parecia tanto, mas havia algo, houve algo, e agora...bom ele tinha viagens a fazer e numa dessas a viu no semáforo, estava um dia sem chuva e ela iria atravessar, ele então, viu que tinha que a seguir, algo o movia a isto, e o fez.

Ela atravessou a avenida e nem se deu conta do carro dele, logo ela, tão observadora, mas sua atenção foi voltada para um bêbado que ao seu lado gritava enquanto atravessava a rua.
André a seguiu, viu onde ela entrou, devia ser seu local de trabalho, um escritório de contabilidade, tinha tudo a ver com ela, séria e quieta. Ele viu placa e anotou o telefone no celular. Agora tinha o número do celular dela e o do local onde presumivelmente, ela trabalhava.

Seguiu com suas corridas. No decorrer do dia, parou um pouco, e pensou em ligar para Isabel. No seu celular usou o atalho para fazer a ligação. Aguardou o sinal de chamada...pensava o que iria falar. Sei lá, dizer que era engano. Não sabia.

-Alô! Atende do outro lado

Silêncio
Pensamentos voam

- Alô! Insiste a voz do outro lado. Quem fala?

Silêncio
Ele desliga. Faltou coragem

Ela fica olhando o celular, não conhece o número. Tem poucos amigos e colegas, e quase ninguém liga para ela. Número estranho.

Ela fica curiosa e tenta o reverso. Faz o retorno no número.
Só chama. Ninguém atende. Caixa postal sem identificação.
Deixa para lá....

Silêncio
Pensamentos voam
 
À noite, ela vê que há mensagens de chamadas perdidas. Duas na verdade. O mesmo número que ligou na hora do almoço. Não tem recado na caixa postal.
Ela fica encucada. Quem? Será? Ele, mas se for, por que não falou nada.
Ela vai na pesquisa do Uber, e vê o motorista e a foto. Vê sua chamada no Uber, mas o número difere, é outro. Lamenta. Não era ele.

Vai para Faculdade.

Ele vai para casa, decidido a no dia seguinte ligar pra Isabel e perguntar se ela não quer sair no sábado, ir conversar, sei lá coisa do gênero. Ele não tem este jeito com as mulheres, precisa beber umas cervejas para tomar coragem, mas não pode ligar para ela bêbado. Que porre! Que raio de timidez danada. Homem tímido é de lascar, pensava ele. Foi dormir.

Dias se seguem.

Mensagens de ligações perdidas no celular de Isabel continuam, aquele número.Ela sempre tenta retornar, mas nunca atende, só uma vez, atendeu, ela prendeu a respiração e perguntou quem falava, que decepção, do outro lado a pessoa pôs uma música a tocar e ela ficou sem saber mais nada.

No seu dia de trabalho o telefone do pequeno escritório, por vezes, tocava com algum engano, mas como não era ela que ficava perto do aparelho e atendia as ligações, nem sabia o que se passava, até uma das funcionárias comentar com ela e com outra sobre o fato.

- Estranho, há alguns dias, atendo umas ligações, e fica mudo. Tem alguém do outro lado, mas nada fala. E por vezes, diz que é engano, pergunta se aqui é da Fábrica de Bolsas ou Loja de perfumes. Nunca acontecia.
Isabel ouve e acha estranho, Sorri meios em graça, mas acha impossível o tal fã, se é que era fã mesmo, ousar ligar no serviço dela, e se o fez, que maravilhoso, mas por que não se identifica e nada fala.

Checa o celular. Lá está ligação perdida. O  tal número.
Está na hora do almoço, sai e vai andar um pouco na rua celular toca, ela olha rapidamente e vê o número, atende ansiosa.

- Alô!

Silêncio
Pensamentos voam...

Alô! Quem é você? Por que faz isto? Aparece para eu ver você.
Nada de resposta.

- Olha, você quer falar comigo? Está ligando no meu serviço? É você?

Silêncio
Pensamentos voam...

Ela se irrita com o tal sujeito e desliga. Xinga!

Ele fica a olhar a tela e a foto dela, pegou no dia da chamada quando ela acessou para chamar. Fácil, o aplicativo confere essas facilidades. Quase todo mundo usa o tal do WhatsApp. Fácil demais.
Decide ele, vai ligar noite para ela e falar, hoje ele fala.
À noite, ela vai para a faculdade, e o celular toca diversas vezes, ela no ônibus, não ouviu, quando vê, as chamadas perdidas.

Retorna a ligação
Chamando. Chamando. Chamando. Sem resposta.

Poxa! Que falta de sorte a sua, nunca atrai ninguém e quando acontece algo é zoeira com ela, só pode ser, começa a desconfiar de uma galera da faculdade, aqueles que são os “rebeldes”, estão sempre nos barzinhos e com gozação com os demais. Será, pensa ela... que sacanagem.

Ele do outro lado da cidade, fica mais embotado, toda vez, perde a coragem.Vai para um bar e pede uma cerveja, melhor encher a cara e depois ligar para ela. Coragem homem, coragem! Pensa ele!
 
Isabel vai para casa, e no caminho, ainda tenta encontrar uma conexão entre o tal admirador e o motorista de Uber, mas parece sem sentido. Por que será que ele despertou sua atenção? Tolice de mulher romântica, ele nem ligou para ela, nem fez um gesto mais ousado ou comentário mais abusado...ela que cismou com ele...bobeira! Recosta a face no vidro lateral do ônibus e fecha os olhos, melhor sonhar.
 
André sai do bar, vai andando pela calçada, olha o relógio, e vê que precisa retornar, amanhã, um dia de trabalho, precisa fazer jus ao valor investido no carro, tem que conseguir mais viagens, esse negócio de transporte alternativo, agora muito concorrido, não pode ficar de bobeira.
Chega um ponto de ônibus, sempre que ele vai para o bar beber uma cerveja, nunca vai de carro, sabe bem dos perigos que um descuido pode fazer.

Aguarda a condução. A rua está tranquila, um ou outro carro que passa com velocidade; um morador de rua do outro lado, tenta acender um cigarro... calmaria.

Silêncio

Pensamentos voam...

Vem lá na esquina o ônibus, ele se levanta e aguarda a parada, entra no coletivo, faz o pagamento, em vai em direção ao fundo, e pasmem! Ele a ver, recostada no vidro, olhos fechados, será que estava dormindo... fica atônito, um misto de surpresa e hesitação. Tem que ser agora, nada acontece por acaso, precisa aproveitar o momento.

Senta-se ao seu lado, ela percebe o movimento e olha para ele, também demonstra supressa, e sorri.

- Você por aqui? Um breve lampejo de felicidade escapa na voz, e seu olhar não desmente.

Ele, todo sem jeito, afinal estava num bar, deve estar com hálito de cerveja, responde:

- É, saí um pouco, está calor, né?!... Fala pueril quando a gente nem sabe o que falar, tem que se arranjar.

Ambos silenciaram, se olharam
Pensamentos voam...

- Voltando para casa? Ele pergunta, meios em graça.

- Sim, a última aula de hoje estava vaga, sai mais cedo.
- Legal! Hum. - Um sufoco conversar

Noite quente, ruas calmas, ansiedade nas mãos, no olhar.

- Isabel?
- Hum?!? Lembra meu nome? Boa memória, hein,rrrss
- Sou bom com nomes e rostos, memória fotográfica. Ele assente, e sorri.
- Será que posso te ligar, sei lá, qualquer dia, para a gente conversar e talvez…sair um pouco? Fica ávido pela resposta, mas mortificado pela alternativa no não.

Ela, simplesmente, arruma o cabelo, disfarça um sorriso de contentamento.Enrola a alça da bolsa...um jeito  tímido de ser. Ele fica impaciente, e pensa, que mulher enrolada! É só falar sim ou não, e se for não, já desço deste ônibus agora!

- Sim!

Um alívio. Um sorriso.

- Ok! Me passa o número, não tenho no formulário do aplicativo, não tenho acesso...é confidencial, sabe como é, segurança.

- Ah! Tudo bem. Ela percebe o jeito meio esquivo na fala, mas não liga e assim fazem a troca de números.
Registram os números,  se comunicam com olhares...sensações de  cumplicidade, na noite calma, os invade.


- Vou descer agora, então...até qualquer dia... André! Reforçando o nome, um tanto entusiasmada.

- Claro, tudo bem. Até! Eu ligo.

- Vou esperar.
Nesta hora ela percebe que deixou o pudor de lado e se manifestou ansiosa...faz o gesto para levantar.


Ele se levanta para ela sair do assento, e neste movimento, os braços levemente se tocam, arrepios, uma sensação melindrosa a envolve, ele percebe, fixa o olhar.

- Então, tá! Ok!  Fala, Isabel com a face ruborizada.

- Tá!  Laconicamente responde, André.

Antes de sair de perto dele, ela se atreve e o beija a face.
Foi como se os céus descessem para eles...alegria, animação, doce sensação de leveza com um misto de desejo, quase infantil, tudo muito breve, mas foi o suficiente para sentirem que eram de alguma forma ligados.






Nota: Obra em caráter experimental e de ficção, qualquer semelhança com nomes ou fatos é mera coincidência.

 
 
Lilian Vargas
Enviado por Lilian Vargas em 11/09/2019
Reeditado em 11/09/2019
Código do texto: T6742467
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Sobre a autora
Lilian Vargas
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Lilian Vargas