Apenas um gole de amor
“Pois o céu que me ajude
Me dando sorte e saúde
Que o resto eu seguro bem” Rita Lee
Passou pra lá e o viu bebendo. Passou para cá e o viu comendo. Continuava o mesmo. Gostava de beber, petiscar e cismar com um cigarrinho entre os dedos. Será que estava empregado? A turca da esquina não tinha o costume de vender fiado. Por fim, resoluta, vestiu coragem pra dizer que estava só.
-Senta aqui comigo!
-Não se incomoda?
Beberam, comeram e falaram sobre o batom dela, a cerveja, os óculos dele, o desemprego geral. A bela bunda da dona do bar, você viu? Ambos miravam a rua. Andavam pessoas na calçada. Iam com pressa, algumas devagar. Todas desfilavam solidão.
-Você vem?
-Vou pagar a turca primeiro.
Três quadras adiante, ela chegou à frente e pôs o tapete que estava no muro. Abriu a porta e o cheiro de almíscar adocicou-lhes o olfato. Tudo limpo, tudo lindo. A casinha estava uma beleza desde que começara a trabalhar. E não merecia conforto, não?
-Você merece muito prazer, meu bem!
-Entra aqui.
O quarto era pequeno, mas aconchegante. Parecia um jardim suspenso. Pinturas várias, feitas na parede. De um lado petúnias, rosas e gardênias. Do outro, jasmins, orquídeas e açucenas. Na parede do centro, de frente para a cama, um viçoso beija-flor, de bico recurvado esgarçava um amor-perfeito.
-Você transa com ele te olhando?
-Transo olhando para ele.
Despiram-se. Brincando mergulhou no colchão de molas. Antes mesmo de parar o movimento, ela já estava por cima. Beijava o peito, a barriga, as coxas. Deitou-se sobre ele como quem deita sobre a relva. Divina e displicente. Depois, fez um movimento giratório e encaixou-se na boca dele ao mesmo tempo em que o encaixou em sua boca. Após famélicas fricções sentiram o gosto um do outro. Encaixou ainda o preservativo. Adiantou-se escorregando pelo peito e barriga e o deixou contemplar as suas costas antes de sentar-se sobre ele com seu calor.
-Vamos tomar um banho?
-Você tem geladeira?
Os copos estalaram tin tin como nos filmes. Ele passava o dedo na superfície gelada da garrafa. A outra mão alisava calidamente o veludo morno das coxas dela. Levantou-se como quem se assusta. Deu a volta à mesa e o abraçou. Afinal um abraço, salvo engano, é sempre uma felicidade.
-Quando você volta?
-Quando você quiser, meu amor.
Já no portão acenou para ela. Retribuiu o aceno. Por ora, estava feliz. Sabia quem ele era. Sabia que não tinham ilusões. Apesar disso, nutria por ele um indecifrável afeto. Comparava esse sentimento a um generoso garrafão de vinho. Deveria ser tomado aos poucos.