994-AMOR EM TEMPOS DE GUERRA

Faz parte dos regulamentos de todos os exércitos a proibição de convivência amorosa com o inimigo dominado. Além do desvio da missão (os soldados estão em território ocupado para matar e não para amar) há o perigo de desvio de informações ou de revelações indevidas ao inimigo.

Durante a ocupação francesa pelas tropas germânicas, na segunda guerra mundial, não foram poucos os oficiais e soldados alemães degolados silenciosamente antes, durante ou depois de relações com as francesas.

Na guerra do Vietnã, apesar da ferocidade dos combates, aconteceu um sem-número de encontros amorosos entre ianques e mulheres vietnamitas, cujo resultado foi a conseqüente baixa da moral das tropas, e a geração de milhares de crianças filhas de soldados norte-americanos. Após a derrota dos Estados Unidos naquele confronto, as mães de filhos nascidos daquelas relações mudaram-se para os país dos derrotados, por iniciativa própria ou por solicitação dos ex-combatentes.

Enfim, trata-se de relações amorosas incompatíveis com o estado de guerra. Não é bem este o caso do soldado americano Tarik Abdul-Assam, que, descendente de árabes jordanianos radicados na América do Norte, alistado no exército daquele país, se viu cara a cara com outros árabes, nos combates entre tropas americanas que ocupam o Iraque e rebeldes de diversas facções.

A colcha de retalhos de minorias raciais (sunitas, xiitas, palestinos, etc.) que habitam a região do Oriente próximo e que não são capazes de uma convivência pacífíca, não é óbice para que, individualmente, se estabeleçam relações outras além da inimizade.

Tarik Abdul-Assam cultiva em família a tradição, a língua, os usos e costumes de seus antepassados. Portanto, quando foi enviado para o Iraque, sentiu uma estranha alegria íntima. Era como se estivesse voltando às origens. Em pouco tempo acostumou-se com o clima, fez amizades com habitantes de Bagdá e de outras regiões para onde era mandado em missões de combate.

Um dia, entre escaramuças numa vila do oeste, quase na divisa com o Irã, desapareceu. Sumiu sem deixar rastros

Atualmente, Tarik consta como desaparecido, pois tantos têm sido os atentados contra os soldados americanos, que alguns desaparecem inexplicavelmente. Não são considerados desertores, pois não há provas de que estão vivos. Nenhum grupo de guerrilheiros assumiu a sua prisão, para efeito de resgate. Se aparecer novamente, sem uma explicação plausível para seu desaparecimento, ainda que por alguns meses, será considerado desertor, e submetido a julgamento.

Mas, com certeza, Tarik jamais reaparecerá. Pelo menos, para os americanos.

Num oásis cercado densamente de tamareiras, do outro lado da fronteira, em território do Irã, próximo ao vilarejo de Naft-Shah, ele está anos luz de distância do exército e de seus regulamentos. Sob as vestes de beduíno, a barba crescida e um cavanhaque típico de autêntico sheik, ajuda os aldeões na colheita e tratamento das tâmaras. O uniforme está enterrado em lugar que só ele conhece, com as placas de identificação militar.

É afável, domina o dialeto, e vive muito bem. Cinco vezes por dia, ajoelha-se com os companheiros, olhando na direção de Meca, e faz as orações de bom muçulmano. Agora é conhecido por Jediad Tal Kaif, e ninguém pergunta por seu passado.

Ah! Está casado, de acordo com as leis do Alcorão, com Rutha, linda como uma personagem das mil e uma noites, filha de Benik Hadhar, proprietário da plantação de tâmaras.

Que Alah proteja Jediad e Rutha para todo o sempre.

ANTONIO ROQUE GOBBO

BHTE, 31 de Outubro de 2006

Antonio Roque Gobbo
Enviado por Antonio Roque Gobbo em 13/03/2017
Reeditado em 13/03/2017
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