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Um carnaval romântico...

Detestávamos carnaval mas quando dei por conta estávamos no meio da turba alegre, Iara a elegante e eu o calado, porém desta vez em uma versão tropical e versão tropical sempre fica mais próxima da realidade.
Isso aconteceu graças a um casal de amigos o Quindão e a Verônica que nos chamaram para ver um "Carnaval rural" segundo a explicações deles, chegamos a tarde e este município onde a pracinha em frente a igreja era palco de um carnaval mambembe mas que se conservava como era no inicio do século XX , um caminhão muito velho e enfeitado levava uma bandinha que tocava marchinhas, era um clima alegre e descontraído chegando mesmo a ser inocente perto do cinismo que impera nas grande capitais.
Foi caindo a noite e durante este tempo que estávamos ali, Iara e eu passamos por ondas de euforia e quietude.
O movimento acontecia em vários pontos do lugarejo, em volta da praça seguindo o caminhão desfilavam os blocos e quem estava a fim de pular até inchar os pés, junto aos bares estavam os que apenas observavam o movimento enquanto comiam as especiarias mais simples que a região poderia oferecer além de destilados e cerveja muito apreciados.
Ao lado da igreja ficavam os blocos se aquecendo para a volta carnavalesca olímpica na praça esperando a chega do caminhão que demorava uma vida arrastando os foliões, no outro lado da igreja ficam aqueles que tombaram na batalha, os muito bêbados, os cansados, os que se recuperavam para mais uma empreita no meio da passeata do Rei Momo.
Eu nunca fui muito de beber, mas era quase impossível de recusar ao menos uma cerveja naquele clima. Sugeri a Iara ir a um bar escuro como uma caverna tomar alguma coisa, ela parecia ter adquirido um aspecto sábio no meio da multidão, como quem já conhecera muitos carnavais, era somente uma impressão esta peculiaridade era um intuito natural somado a um discernimento que até então depois de alguns poucos anos de namoro me era desconhecido.
Cheguei no bar e pedi uma cerveja, Iara interrompeu e perguntou se havia alguma batida para beber, havia, batida de maracujá e caipirinha. Eu fui de caipirinha e ela de batida de maracujá, chegaram dois copos enormes de 250ml cada um, com pouco suco e muita cachaça e gelo picado, estava doce e era uma bomba prestes a explodir quando combinado ao movimento todo.
Iara sussurrou em meu ouvido, estava impossível de conversar sem gritar ou falar ao ouvido:
- A cerveja vai encher a sua barriga e você tem que tomar três para dar o efeito de uma batidinha.
Sabedoria!... me senti meio bobo em pensar na cerveja achando que era coisa de um cara experiente como eu, era somente questão de pensar um pouco os que tomavam cerveja eram os que passavam mal, a batida era cheia de gelo e açúcar, tornava o álcool mais digerível.
Saímos abraçados um ao outro e ao nossos copos de plástico, era hora de encontrar nossos amigos que já tinham bebido bem mais e não haviam parado um só momento, seguindo as bandinhas no caminhão. Andamos no meio das pessoas e a noite já era presente, luzes cruzando as ruas davam um ar melancólico para quem tinham olhos para notar. Eu ia na frente segurando na mão de Iara ela me seguia sorrindo e tomando pequenos goles da batida, parecia que estava mais conectada ao ambiente que eu.
Bateu-me uma sensação de soldado que tem que cumprir uma missão, era preciso encontrar Quindão e a Verônica!...quanto mais entregue a essa "missão" mais eu me isolava da realidade a minha volta e mais parecia que Iara percebia e tentava me ajudar.
-Calma, não temos pressa, pra que correr assim?
-Quero encontrar os dois!
-Eu sei, mas vai no passo certo, senão você não aproveita, olha ai a sua volta as pessoas estão se divertindo. Estão dançando ao ritmo da bandinha e a letra e bem engraçada, você reparou?
Fiquei sem ação e concordei, porque eu não relaxava e apenas aproveitava o momento sem expectativa nenhuma.
- Não consigo beber andando! - disfarcei.
-Vamos sentar no banquinho ali da pracinha então.
Minutos depois estávamos sentados em um banquinho, eu ainda incomodado com algo que eu não sabia e Iara curtindo tudo, olhando para tudo e rindo de alguns incidentes que ocorriam a nossa volta. Concentrei-me em beber minha caipirinha, quem sabe não fosse um remédio contra o meu estado mental que não se ajustava...e foi, ao menos ajudou a sair um pouco da "missão" que eu me impus.
Iara estava encostada em mim e parecia estar me aturando porque queria estar no meio
dos foliões brincando e não sentada de modo depressivo olhando a vida acontecer a sua volta.
Com grande energia adquirida por minha caipirinha eu perguntei se ela tinha terminado a batida, e como a resposta foi sim, pedi que ela ficasse ali uns segundos  que logo eu voltaria, fui em um pe' e voltei no outro, trazendo duas batidas mas dentro de garrafas de água, era mais fácil de tomar.
Entramos no gargarejo da marchinha quase tocando o caminhão, mas eu era outro, agora afinado com o ambiente, olhei para Iara e ela parecia muito mais alegre e seguimos a via sacra do carnaval rindo e em conexão com todos a nossa volta, era só alegria todos os problemas do mundo sumiram, aprendemos os passos complicados de cada bloco e decoramos umas letras.
Madrugada a dentro fomos juntos de mãos dadas perdidos no mar de divertimento, em dado momento começou a chover, era chuva de verão vinda do céu que esperava o dia nascer, no meio da alegria que dobrava com o cair da chuva olhei para trás e vi Iara. Estava transformada pela experiência fantástica de estar ali no meio do povo. Seu olhar parecia entre nevoas de uma paixão ardente e descontrolada, Iara era como uma força feminina ancestral, uma deusa telúrica vinda dos tempos mágicos do inconsciente humano. Sua atração e beleza resplandeciam e ganhavam contornos encantados devido a chuva que escorria as torrentes pelos cabelos muito lisos colados no rosto. O torpor desta imagem somava-se ao som da multidão e da música e ficava como que encoberta por uma áurea de sonho em que o centro de tudo que acontecia estava a minha frente, Iara e para ela eu convergia. Euforia vertiginosa!...nos beijamos em grande conexão de corpo e alma, um beijo quase que desesperado porque sentíamos que rumo poderia tudo ter tomado esta noite maluca que chegava ao fim.
Deixamos a turba que neste mesmo momento tentava continuar a festa sem as marchinhas uma vez que as bandas haviam parado de tocar e os blocos se dispersaram, cada um seguindo sua direção.
Resolvemos ir para o lado da igreja onde ficavam os cansados (porem felizes) e lá encontramos nossos amigos, Quindão verde de tanto passar mal e sua eterna baixinha a Verônica.
- Falei para você não misturar bebida! ... mas o burro teve que misturar! "Eu sou forte!"
-Foi o misto que eu comi na padoca! - Quindão retrucava querendo mostrar que já estava recuperado, eu tomo um café ali e melhoro!
- E vocês dois que sumiram? - perguntou Verônica.
-Estávamos procurando vocês! - respondeu Iara
-Perdemos a festa por causa deste animal, fomos a um bar e o amigo de vocês aqui queria mostrar que era forte para bebida, e ai misturou destilada com fermentada e virou um palhaço e depois um doente!
-Dá para parar de me zoar?
- No próximo carnaval deixa de ser cabeça-oca e me ouve! - respondeu Verônica dando um furtivo tapa na cabeça do namorado e perdoou dando um beijo.
O dia estava para nascer a qualquer momento, nos refizemos como era possível tudo a base do café e da água-tonica. Pegamos a estrada e descíamos a serra, o horizonte estava avermelhado e entre nuvens longínquas, Iara e eu vínhamos no banco de trás. Quindão dirigia concentrado, eu interrompi o silêncio e pedi para nosso amigo encostar o carro em uma curva no alto da serra. Saímos no acostamento e no frio da manhã  ficamos os quatro olhando o sol nascer.
Repentinamente um brilho dourado surgiu no horizonte e seus raios cruzaram o céu anunciando um novo dia. Abraçado a Iara lembrei-me de meu estado de espírito no começo da noite passada, depressivo e desconectado de tudo e de como a realidade mudou depois, falei em seu ouvido:
-Obrigado!
Ela me respondeu com um selinho:
- seu bobo...
Cris Chanel e José de Assis Carvalho
Enviado por Cris Chanel em 11/01/2017
Reeditado em 12/01/2017
Código do texto: T5879188
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Sobre a autora
Cris Chanel
João Pessoa - Paraíba - Brasil
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