563-O DESAFIO DE LURDINHA

— Lurdinha, não se esqueça de mandar um cartão pro doutor Bernardinho. Hoje é aniversário dele!

— Já me ia esquecendo, mamãe. Essa sua agenda é mesmo completa.

Dona Purêzinha tinha cuidado com tudo o que fazia. Também, tinha que ser assim. Viúva nova, não tinha nem trinta anos quando o marido passou para o além. Ficou com o encargo da criação das duas filhas e não podia descuidar da felicidade de ambas.

A preocupação sempre fora ver as filhas casadas com um bom partido. Preocupava-se e até tomava até iniciativas, a ponto de o marido, Norivaldo, ainda em vida, implicava com suas maquinações.

— Ô Purêzinha, deixa as meninas sossegadas. Um dia elas vão gostar de alguém, vão se casar e ser felizes. Não fica fazendo o papel de Cupido. — Ele dizia, tentando aliviar a pressão que a mãe fazia sobre as filhas.

Glorinha, a filha mais velha, resolveu-se logo. Ainda na Escola Normal, com dezenove anos, namorou Leonardo, competente advogado, com escritório movimentado, cheio de causas e mais causas. Tinha quase quarenta anos e era dono de um bom patrimônio. Casaram-se após poucos meses de namoro.

A súbita morte do marido aumentou a preocupação de Purêzinha com relação à filha mais nova. Aos vinte e um anos era, realmente, uma moça bonita, bem educada, elegante e inteligente. Contudo, não se entusiasmava com os rapazes, não gostava de festas nem de bailes. Era caseira e gostava de ler e de estudar. Estava se preparando para um concurso para professoras do Estado e pouca atenção dava às futilidades sociais.

— Minha filha, assim você vai ficar pra titia, falava a mãe.

Ultimamente, a mãe estava de olho no doutor Bernardo. Cirurgião competente dedicava-se completamente à profissão. Seu consultório estava sempre cheio de clientes. Tinha um carro novo, uma Bel-Air ano 1954, vestia-se muito bem, viajava constantemente e herdara uma fazenda do pai.

— Ele é tudo de bom que uma moça pode desejar — A mãe comentava com as amigas. — E serve com uma luva pra Lurdinha.

Entretanto, a Dona Purêzinha não ficava só nos comentários, não. Tal como havia feito para a filha mais velha, preparava para a mais nova um enxoval completo de roupas de cama, mesa e banho. Colchas de tricô, feitas por dona Mariinha, toalhas de mesa de linho trabalhadas à mão com bordados delicados, obra-prima de duas irmãs rendeiras; até a camisola-do-dia, com decote avantajado e muito curta, já estava no armário lotado de peças.

Tanto tramou, tanto falou na cabeça da filha, que conseguiu aproximar a filha ao Dr. Bernardo. O namoro começou sem entusiasmo. Mas após alguns meses de namoro, aconteceu o pedido de noivado.

— Ele é encantador! — Dizia Purêzinha para as amigas. — Imagine que me trás um mimo todas as vezes que vem buscar Lurdinha para o cinema, ou simplesmente, para saírem.

O noivado se delongou. Lurdinha queria passar no concurso e arrumar um trabalho antes de se casar.

A mãe, antes ansiosa para que o casamento saísse logo, não se incomodava com a demora. Gostava da situação, principalmente da atenção que o doutor Bernardinho dava a ela, futura sogra.

Lurdinha, mais atenta ao seu desejo de fazer o tal concurso, não notava que a atenção do noivo para com sua mãe era, por vezes, maior do que a que ele tinha com ela, a noiva. Gentilezas que até Glorinha, a irmã casada, observava mas não comentava com ninguém.

Ele às vezes dá mais atenção à mamãe que à Lurdinha. Sei não...

Bernardinho e dona Purêzinha se estendiam também em longos papos, enquanto Lurdinha se aprontava para sair, ou ficava fazendo hora com seus livros e estudos.

Enfim, chegou a ocasião do concurso. Lurdinha deveria viajar a uma cidade vizinha, sede regional da delegacia de ensino, onde se realizaria o concurso durante uma semana.

— Vou ter de passar toda a semana fora. — Explicou ao noivo, que também não mostrou aborrecimento pela ausência da noiva.

Foi, fez os testes e voltou. Pensava em viajar de volta pelo ônibus de sábado, mas na sexta-feira, ao terminar a última prova, foi convidada a voltar de carro.

— Meu marido veio me buscar e você pode voltar conosco, no nosso fusca. —

O convite era de Madalena, sua conhecida e que também estava no concurso. Como vamos chegar antes do esperado, nem precisa avisar sua mãe.

Retornou, pois, de carro e chegou a sua casa na sexta pelas nove horas da noite. Não avisara a mãe nem o noivo do retorno antecipado, pois fora um arranjo de última hora.

O que foi uma falha lamentável de sua parte.

Antes de prosseguir na leitura, apresento um desafio ao leitor: o que aconteceu na chegada de Lurdinha? Tente imaginar o que ela encontrou ao chegar em casa. Depois, veja se coincide com o final real da história.

A luz do pequeno alpendre da entrada estava acesa. Abriu silenciosamente a porta com sua própria chave.

Se mamãe estiver dormindo, não quero incomodá-la. Amanhã lhe conto tudo sobre os exames.

A porta da entrada abria-se diretamente para a grande sala de estar, ou living room. Um conjunto de poltronas estofadas, muitas almofadas, um lustre no teto (cujas luzes estavam apagadas) e um abajur de luz difusa e suave. E na poltrona...

Assustados com a chegada de Lurdinha, o casal interrompeu o beijo e separou-se do abraço. Lurdinha também levou um susto ao reconhecer os dois.

— Mamãe...!

— Minha filha, nós só...

— Eu posso explicar tudo! — Pondo-se de pé, Bernardinho dirigiu-se para a moça.

— Não, não quero explicações! — Correu para o quarto, onde entrou e trancou a porta.

A mãe correu atrás da filha, mas não pode entrar no quarto. Bateu na porta, a principio delicadamente, e depois com murros.

— Filhinha! Abra a porta! Vamos conversar!

Por mais assustada que estivesse, Lurdinha não chorou. Sentou-se na cama e, aos poucos, foi se acalmando. Quando a mãe desistiu de bater na porta, ela abriu e foi para sala, onde Bernardinho ainda permanecia, na esperança de conversar com a noiva e explicar tudo.

Antes que a mãe ou o noivo falassem qualquer coisa, ela disse:

— Não tem importância. Vocês não precisam explicar nada. Entendi tudo e compreendo. Não vou condenar vocês por isso, mas o noivado está desfeito. — Retirando o anel do dedo, devolveu-o ao doutor, que, antes bem falante e impositivo, permanecia silencioso e sem jeito.

— Mas, Lurdinha...

— Não, mamãe, sem explicações. Se é que vocês se gostam, não vou impedir a felicidade de vocês.

— Lurdinha, a culpa foi minha. — O doutor recuperou a atitude e começou a se explicar.

— Não, Bernardo. O coração é quem manda. Se vocês se gostam mesmo, acho devem mesmo é realizar este amor. — E saiu da sala, novamente em direção ao quarto.

Os dois amantes recuperaram-se,pouco a pouco do susto. Bernardinho, afinal, se despediu de dona Purêzinha. Ambos pareciam aliviados e satisfeitos com as palavras de Lurdinha.

Durante os próximos dias, o casal não foi visto junto. O que não significa que não estivessem se encontrando. Dona Purêzinha revelou para a filha casada o romance que estava tendo com o doutor Bernardo, com o entusiasmo de uma jovem enamorada.

A vida voltou ao normal da na casa de dona Purêzinha. Isto é, Lurdinha não guardou o mínimo ressentimento pela mãe ou pelo ex-noivo.

— Pra falar a verdade, acho que o Bernardinho cortejava mais a mamãe do que a mim. — Confessou à irmã. — Devo reconhecer que entre nós dois nunca houve mesmo um amor de verdade.

Antes de três meses, Lurdinha recebeu o resultado do concurso. Foi à capital, onde arranjou uma nomeação para uma cidade do outro extremo do Estado.

Os comentários e as fofocas que irromperam como furacão sobre a cidade na ocasião dos acontecimentos, amainaram-se de vez. Antes de se mudar para assumir o cargo para o qual fora nomeada, Maria de Lourdes assistiu o casamento da mãe, dona Maria da Pureza, com o doutor Bernardo Gonzaga de Lemos, realizado com toda pompa e circunstância que merecem as pessoas da alta sociedade.

E, cada qual à sua maneira, todos foram felizes para sempre.

ANTONIO GOBBO

Conto # 563 da Série 1.OOO-Histórias -

Belo Horizonte, 26 de setembro de 2009

Antonio Roque Gobbo
Enviado por Antonio Roque Gobbo em 03/12/2014
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