A LUA É NOSSA TESTEMUNHA

A noite estrelada dizia que não choveria. Saímos pra dar uma volta pelo campo e curtir um pouco da quietude e dos sons da natureza. Sapos coaxando em turmas que se alternavam, pareciam uma orquestra de sons diferentes. De tempos em tempos uma cobra piava. Alguns grilos cricrilavam fazendo um barulho engraçado. Um bacurau me deu um susto danado, passando num voo rasante. Gritei e ele riu-se de mim. Uma coruja sentindo a nossa presença, piou em algum galho de árvore escondido. A voz dele me soava muito longe. Eu estava viajando em outra época distante. A lua cheia nascia sobre o leito do rio Cricaré. Ela é a testemunha deste amor e de tudo o que aconteceu.

Conheci Fernandinho no Sarau de Língua Portuguesa da Escola. Ele estudava no noturno e eu no horário Matutino. Ele recitou um poema de Vinícius de Moraes( Pela luz dos olhos teus) com tanta propriedade que me encantei. Eu recitei um poema de Vinícius também(Ternura). Essa coincidência nos aproximou. Os poemas falavam de amor e eles foram a pauta de nossos assuntos naquele dia. Fernandinho era filho de um casal de amigos de meus pais que não se viam há muito tempo. Acabamos aproximando as duas famílias. Todos os dias a gente se via. Tínhamos tantas coisas em comum. Sonhos e promessas que talvez se realizem.

Ele sempre passava na minha casa pra me buscar pra ir a escola. Minha mãe o adorava. Era tão cavalheiro com ela que parecia que ele era o filho dela e não eu. As vezes sentia ciúmes dessa relação dos dois. Meu Pai sonhava em nos ver casados. Mas era só amizade no início. Fazíamos trabalhos juntos e tínhamos muitos amigos em comum. Eu era muito tímida e apesar de gostar muito dele, mantinha uma certa distância.

Tudo ameaçou mudar quando resolvemos acampar com a turma em um acampamento de férias. Foi demais!!! Mesmo assim não deixei nada rolar. Fernandinho cuidava tanto de mim que alguns amigos começaram nos zoar com aqueles tipos de músicas idiotas em que se diz: “Dois namoradinhos, vão casar cedinho!!!” e eu me irritei com isso. Saí correndo do acampamento e acabei caindo de uma ribanceira e ficando presa em um buraco muito difícil de sair. O buraco ficava no nível do rio e quando a maré subisse eu certamente morreria afogada. Fernandinho foi atrás de mim. Eu me machuquei e fiquei desmaiada por muito tempo, nem saberia precisar o tempo exato. Já era tarde e anoiteceu logo. Quando acordei e vi minha situação, comecei a gritar. Mas ninguém me ouvia. Sentia muita dor nas costelas, na perna e falta de ar. As corujas piavam o tempo todo e eu quase morria de medo delas, pois não sabia que bicho era esse. A maré começou a encher e eu já estava dentro d'água. Estava condenada. Se a água subisse muito, me levava pro centro do rio mas a correnteza era muito forte, ou morreria afogada ali mesmo no buraco. Eu estava rouca de tanto gritar e por isso parei. Então vi uma luz que se movia por cima do buraco e tentei gritar. A voz simplesmente não saiu e então de puro desespero eu desmaiei. Com água pela cintura fiquei sentada dentro dela sem ver o que estava acontecendo. Fernandinho chegou na hora. Ele conhecia a região e lembrou do tal buraco.

Fui levada para o hospital com fratura nas costelas e na perna direita e a esta altura, minha família já havia sido avisada. A mãe de Fernandinho já estava na minha casa consolando a minha mãe e ajudou-a a procurar meus documentos pra levar ao hospital.

E foi por causa da confusão que tudo desabou. Olhando meus documentos ,a mãe dele descobriu que o nome de nossas mães biológicas era o mesmo. O clima ficou pesado. Elas choraram muito com a descoberta e ficaram a jogar uma pra outra a tarefa ingrata de nos contar a descoberta.

A propósito, nenhuma das duas contou. Acabou sobrando para o meu pai. Chorei muito com o que ele me contou. Eu já sabia que era filha adotiva deles, mas doeu demais saber que havia a possibilidade quase concreta de ser irmã de Fernandinho. Todos nós choramos muito no hospital. Fiquei internada por três meses. Meu pulmão foi atingido e assim não podia ir pra casa enquanto as costelas não sarassem.

Fernandinho, resolveu procurar a nossa mãe biológica pra conversar com ela e tentar descobrir alguma coisa que mudasse essa situação. Sabíamos que ela morava fora da cidade mas ele não desistiu até encontrá-la. Durante o tempo que eu fiquei no hospital, ele me visitou todos os dias, até eu pedir pra ele não vir mais. Queria esquecer um pouco o amor que eu sentia por ele. Descobri que gostava mais dele do que de um simples amigo. Queria beijá-lo e abraçá-lo. Esquecer esta história de irmão. Mas ele não aceitou. Ficou sumido por um bom período.

Tanto procurou que encontrou a tal mulher, que se chamava Madalena. Estava internada em uma clínica psiquiátrica. Tivera muitos filhos pela vida e nem se lembrava de nós. Depois que ele explicou bem a situação e os nomes de nossos pais, ela então disse que só tivera um filho nesse período e que não era minha mãe. Mas os nomes continuavam iguais no papel. Fernandinho voltou lá diversas vezes e depois de apertar o “Santo” dela, a mesma explicou a ele que doara junto com o bebê dela, uma criança de outra pessoa que fizera mal a ela no passado.

Eram amigas até disputarem o amor de um homem. A outra ficou com o namorado dela e por esse motivo, roubou-lhe a filha e deu pra adoção como gêmea do seu filho. Desapareceu da vida dela e nunca mais soube dos dois ingratos. Tivera seu filho em casa e assim nunca ficou comprovado o fato de seu filho ter ou não uma irmã gêmea.

Quando Fernandinho voltou ao hospital eu já havia tido alta, mas meu estado ainda inspirava cuidados. Então minha mãe havia me levado para a fazenda da família dela no interior. Ela queria que eu esquecesse o Fernandinho. Como eu poderia esquecer a minha vida? Ele estava entranhado em mim como meu sangue. Senti-me vazia, como uma embalagem de isopor. Sabia que não podia amá-lo mas sentia vontade de amar. Queria beijá-lo, abraçá-lo e nunca mais me separar dele.

Alguns dias depois, ele chegou na fazenda cedo. Minha mãe queria que ele fosse embora, mas ele não foi. Queria falar comigo e com mais ninguém. Durante a manhã eu dormi, vítima dos remédios que minha mãe me dava pra eu relaxar e não me cansar. A tarde, depois do almoço, ele voltou e minha mãe já tinha conversado comigo. Ela explicou que era melhor eu tentar esquecer e partir pra outra, pois irmãos não devem ter nada. Não quis falar com ele. Tranquei-me dentro do meu quarto e ele jogou uma pedra pela janela com um bilhete que dizia assim:

“Quer ser feliz ou não?

Ouça-me e vai ver que não precisa sofrer.

Fernandinho”

Ele ficou sentado em frente a sala da pequena casa do caseiro, enquanto eu olhava pela janela. Não queria que minha mãe o visse. Olhava-me diretamente nos olhos e durante a tarde inteira deixei-o esperar. Às 5 horas da tarde resolvi conversar com ele. Mandei dizer a ele que viesse falar comigo.

Depois que ele explicou tudo a mim, resolvemos que faríamos um exame de DNA e que comprovado tudo, poderíamos ser felizes. Ele colheu amostras do meu cabelo e partiu.

Já se passaram mais de um mês desde que ele partiu com meu cabelo na mão. E hoje, às 5 horas da tarde ele chegou. Tocou a campainha e eu atendi. Estava ansiosa pra saber o resultado. Assim que abri a porta ele pulou em cima de mim e me deu um abraço. Chorei e o empurrei. Então, chorando também, ele me mostrou o tal exame de DNA. Não somos irmãos afinal. Minha mãe assistiu a tudo calada.

_ Ei Márcia, onde você está? Acorda!!!

Era o Fernandinho me chamando a realidade. Ele segurou as minhas mãos e pela primeira vez em nossas vidas, eu sabia que podia deixar. Em seguida veio o mais delicado e apaixonado beijo, que eu jamais poderia imaginar, pois nenhum de nós dois, nunca havia provado um beijo. Era o nosso primeiro beijo de amor. O calor de nossos corpos acendeu o nosso amor e fez que esse beijo fosse inesquecível. A Lua era nossa testemunha e sempre será daqui em diante. Parece até que ela brilha pra mostrar o quanto o nosso amor é limpo. Na janela da sala da casa grande, minha mãe chora. Só que agora é um choro de alívio e felicidade. Eu e Fernandinho abraçadinhos sobre uma bancada no campo, chorávamos também, transbordantes de amor, alívio e felicidade. Era apenas o começo de nossas vidas, pois ainda somos adolescentes. Quem sabe o que o futuro nos reserva? Talvez a Lua cheia...

FIM

Nilma Rosa Lima
Enviado por Nilma Rosa Lima em 25/09/2014
Reeditado em 25/09/2014
Código do texto: T4975852
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