ANDANÇAS - A HISTÓRIA DE MALENA (Vida e Superação de Vida) PRIMEIRA PARTE - CAPÍTULO 9

A essa altura já nos encontrávamos à mesa almoçando, pois aproveitei, durante o meu relato, para explicar a grande necessidade de estar em um ambiente como aquele, ou seja, juntos e a sós, na intimidade da minha própria casa. Pedi desculpas pela demora em ter-lhe aberto o livro de minha vida, mas o tema a ser tratado era por demais delicado e precisava de um momento especial como aquele. Afirmei que precisava de tempo para amadurecer a ideia e encontrar as palavras certas para não feri-lo nem magoá-lo. Finalmente, para mostrar que confiava totalmente nos seus sentimentos e no seu amor por mim, disse que meu desejo era ser sua, não somente como namorada, mas como uma mulher de verdade e que, se tivesse mesmo a intenção de ser meu esposo eu já podia ser dele a partir daquele momento. Aquele seria um gesto de uma mulher que tinha convicção do que queria para o seu futuro. Afirmei que, se pairasse em sua mente a desconfiança de que eu fora de algum outro homem além do meu padrasto em uma situação absolutamente forçada e involuntária ele podia descartar essa hipótese e ficar tranquilo; que nem mesmo um namorado eu tivera até ali; que era ele e mais ninguém o único homem da minha vida.

Ele demorou um bocado antes de me dar qualquer resposta. Houvera elogiado minha comida pelo delicioso cheiro que vinha sentindo desde que entrara em casa e estava comendo com grande apetite. Finalmente, quando começou a falar eu percebi, pelo seu tom de voz e já nas primeiras frases que não estava zangado nem infeliz. Disse que jamais esperava que eu não fosse virgem, mas que esse não seria um motivo realmente forte para se abdicar de um casamento, pelo menos em relação ao que ele sentia por mim. Afirmava que me amava de fato e que, segundo o meu relato eu não fora culpada pelo que me acontecera. Eu fora vítima de um canalha desalmado que sequer merecia continuar vivendo em função do ato mesquinho que cometera. Tranquilizou-me ao dizer que o passado estava morto e enterrado e que uma nova vida esperava por nós dois dali para frente; e que faria de tudo para me fazer feliz, que eu acabaria superando e esquecendo os momentos difíceis por que passara. Acrescentou, contudo que, não era por eu deixar de ser virgem que deixaria de ser uma moça casta e participar de um casamento com todas as honras e glórias de uma moça. Que aquele seria um segredo exclusivamente nosso. E que para provar que estava sendo sincero e que me amava de fato, não faríamos sexo antes da nossa lua de mel, como todo e qualquer casal de primeira vez.

Assim, casamo-nos e passamos a morar em minha casa. O primeiro ano de convivência com Pedro diria que foi um perfeito mar de rosas. O que os poetas enaltecem como sendo a verdadeira felicidade no amor penso que é exatamente aquilo que estávamos vivendo um com outro. Amávamos apaixonadamente. Fazíamos questão de estar sempre um ao lado do outro em toda e qualquer situação. Ele era somente três anos mais velho do que eu e nunca havia trabalhado; no entanto, tinha dinheiro e nunca precisou de mim. Pelo contrário, ajudava-me em muitas ocasiões. Sei que a vida financeira de um casal precisa ser compartilhada em todos os sentidos e não deve haver segredos quanto à origem dos ganhos, tanto de um quanto do outro, mas não era o que acontecia entre mim e Pedro. Segundo me contara desde que nos conhecêramos, era herdeiro de uma pequena fortuna deixada pelos pais a cerca de quatro anos. Possuía terras no sul do país e precisava viajar para lá a cada seis meses a fim de fazer negociações e investimentos. Já que vivíamos confortavelmente e era ele o principal mantenedor de quase todos os nossos gastos eu não me importava em desconhecer detalhes de suas transações. Pelo contrário, satisfazia-me o fato de poder economizar em quase tudo o que eu ganhava com o meu trabalho.

Só que comecei a ficar um pouco insatisfeita a partir da sua segunda viagem para o sul do país em que, mais uma vez, alegando motivos que não me convenceram de todo, negou-se a me levar com ele. Da primeira vez não liguei tanto e procurei compreender, mas a gora queria melhores explicações da sua negativa em me levar a passeio, já que viajar era uma de minhas paixões e eu tinha sonhos de conhecer o sul do Brasil. Ele irritou-se com a minha insistência e acabamos tendo uma briga, coisa que nunca havia acontecido. Quando discutíamos, tudo não passava de motivos banais e logo estávamos em paz novamente. Mas dessa vez percebi sua insatisfação. Comecei então a desconfiar de que havia algo de errado ou pelo menos de muito estranho nessas suas viagens. Na nossa última conversa antes de sua partida coloquei uma condição para que continuássemos casados que não foi absolutamente do seu agrado.

- Em não sei por que essa sua insistência em viajar comigo. Podemos ir qualquer outra ocasião e para as cidades do sul que você escolher no mapa e ficarmos o tempo que desejar. Mas já disse que esta que estou agora empreendendo é pessoal e não posso levar você. Devia respeitar o meu ponto de vista e me compreender.

- Você me pede essa compreensão e não tenta compreender o meu lado. Estou falando assim porque já é a segunda vez que me faz essa promessa sem cumpri-la. Há quase um ano aguardo essa viagem. E por que precisa demorar tanto? Se me levasse me deixaria muito mais tranquila e satisfeita. Não me importa o que vai fazer ou tratar. Existem hotéis e eu poderia aguardar o seu retorno enquanto me distraía e conhecia a cidade.

- Não! Por favor, não insista. Não posso levá-la. Pelo menos não dessa vez, ainda.

Professor Edgard Santos
Enviado por Professor Edgard Santos em 19/09/2013
Código do texto: T4488267
Classificação de conteúdo: seguro