Os Herdeiros - Part. 27
O que você faria?
No hospital, Jason se aprontava para receber alta. Iza e Júlio estavam juntos a ele, aguardando o médico vir dar a noticia. Era então que Marcos entrava no quarto, com os olhos vermelhos indicando que havia chorado não muito tempo atrás. O senhor parava diante do jovem e as lágrimas novamente escorriam sem controle. A garota se distanciava um pouco, deixando espaço para que pai e filho possam se aproximar.
- Será que algum dia você irá me perdoar?
Nenhuma palavra era dita em resposta. Jay travava a mandíbula, talvez por causa das palavras que ficaram presas ou por estar segurando um choro que não quer que vejam. As lágrimas voltavam a escorrer pelo rosto enrugado. Iza observava a cena com um aperto no coração, Júlio analisava a reação do pai e do filho, certamente atento as reações do genro.
O pedido era repetido várias vezes enquanto o empresário chorava. A pose endurecida de Jay era perdida quando Marcos quase caia ao chão de tanto chorar. Amparava o senhor que segurava com força em seus braços. Em um rápido movimento, Jason puxava Mark em um forte abraço.
Os minutos se passavam e os dois continuavam abraçados. Nenhuma palavra era dita entre pai e filho. O médico entrava no quarto e presenciava a cena, olhava para Izabel e tinha a certeza de que ela havia entregado a Marcos os envelopes que continham o exame de compatibilidade que ele havia feito dias atrás. No documento também constava a paternidade de Jason e Russel, onde apenas o primeiro era filho do empresário.
Izabel também abraçava seu pai. Júlio ainda ressentia por tudo o que Jason sofreu, e por dentro rezava para que ele superasse os traumas que possuía e não os jogasse sobre sua filha. Em seus cinquenta anos de vida, Júlio havia presenciado vários casais que se degeneraram por causa de traumas de infância que um não superou e jogou todas as frustrações sobre o parceiro e era esse seu maior temor entre o relacionamento de Iza e Jay.
Antes de retornar para a mansão dos Valente, os quatro iam a um restaurante jantar. Durante a refeição, Marcos tinha um pedido a fazer a Jason:
- Volte a morar em Londres comigo.
- O que?
- É isso mesmo que ouviu Jason. Continue aqui, comigo.
- E quem tomaria conta da empresa no Brasil?
- Eu certamente encontrarei alguém para me representar dentre meus funcionários. Não há necessidade de você ficar por lá.
- Bem... Eu tenho a faculdade ainda...
- Oras, as universidades aqui são melhores do que as do Brasil. É obvio que terá uma formação muito melhor por aqui.
- Mas... – Jason evitava falar, não queria discutir com o pai justamente agora que estavam reatando o laço.
- Então está acertado, você continuará aqui. – Marcos dizia vanglorioso.
- ... Existe alguém no Brasil que eu não posso e nem quero me afastar. – Jason por fim anunciava assim que ouvia a afirmativa do pai.
Os homens da mesa, no mesmo instante, olhavam para Izabel que mantinha a cabeça baixa desde que o assunto começou. Era obvio que ela não queria viver longe de Jason, mas queria que ele fosse mais próximo do pai e este era um momento perfeito. A jovem respirava fundo a olhava para cima, encarando os três ao responder:
- Creio que Jason terá uma formação muito melhor aqui do que no Brasil, mesmo nossa universidade sendo uma das melhores do país. Eu... Sei que você precisa ficar e vou entender perfeitamente, é o melhor.
- Bah, creio que ninguém aqui sabe o porquê fui para o Brasil. Pouco me importa o tipo de formação que terei. Meus professores sempre disseram que a faculdade é o aluno quem faz. Talvez meu diploma tivesse mais peso se eu frequentasse uma universidade daqui, mas outra vez, para que eu teria ido a outro país se minha preocupação realmente fosse os estudos? - Jason questionava a todos. Com os olhares agora voltados a si, ele continuava a falar, depois de pegar na mão de Izabel que estava segurando o choro.
- Fui para o Brasil começar uma nova vida, quero esquecer tudo o que vivi aqui. E quando eu te vi, eu quis me aproximar mais, e quando mais próximos, mais eu tinha certeza de que é ao seu lado que minha nova vida começa. Sei que é cedo, mal nos conhecemos e é por isso mesmo que não irei morar aqui, pois tudo o que aconteceu nessas duas semanas perderia o sentido. Não tem sentido sair de Londres para mudar de vida e quando as mudanças começam a acontecer, simplesmente jogar tudo pro alto e voltar ao lugar de origem. Meu lugar hoje é ao lado seu, portanto irei retornar junto de você e de Júlio e darei continuidade naquilo que já começamos.
- Mas como podemos ficar longe justo agora? Nós precisamos...
- Isso é com você. Minha vida agora é no Brasil. – Jason afirmava interrompendo o pai.
- Amor... – Iza sibilava e antes de dizer algo Jay olhava para ela e ambos conversavam com o olhar. A moça acatava então a decisão do namorado.
Jason retornava a mansão contra sua vontade. Izabel o proibia de levá-la ao hotel, afirmando que ele deveria passar o último dia no país junto do pai. Para o jovem, nada havia mudado. Trancado em seu quarto, ainda ouvia a madrasta rindo pelo corredor na companhia do filho. Não esperava nenhuma reação de Marcos, sabia que a família não apoiaria qualquer atitude que ele tomasse, não depois de afirmar por anos que a falecida esposa nada valia e a atual era um anjo enviado do céu.
Enquanto lia um livro, Jay notava que os risos haviam sumido. Saia do quarto querendo saber o que estava acontecendo, pois ainda era cedo para estarem dormindo. Avistava a porta sempre trancada aberta, se aproximava e lá estava o senhor em seu antigo quarto, abandonado pelo tempo. Marcos revirava os objetos antigos enquanto ele mesmo limpava o cômodo, tirando o mofo e a poeira deixados pelo tempo. Olhava para trás e avistava seu filho, encostado no batente o observando.
- Vem aqui Jason, quero te contar como sua mãe era.
- Eu conheço minha mãe.
- Conhece?
- Eu li os diários dela.
- Eu... Não consigo encontrar os diários...
- Porque eu os guardei. Queria ter uma lembrança da minha mãe.
- Porque as que possuem de seu pai são péssimas, não é? – Marcos perguntava e Jason dava de ombros. – Será que algum dia você poderá me perdoar? – O silêncio novamente reinava entre pai e filho. – Foi tão difícil para eu ter que admitir que Niki pudesse... Foi o pior erro que cometi confiar naqueles dois. Eu sei que nada do que eu faça irá preencher o abismo que existe entre nós, mas você poderia facilitar um pouco...
- Facilitar de qual forma?
- Fique aqui por mais alguns dias. Deixe-me mostrar que...
- Eu não quero continuar aqui.
- Mas filho...
- Marcos, o senhor deixaria sua felicidade ir embora?
- Obvio que não.
- Então, a Iza é parte da minha felicidade. O que sinto quando estou com ela é muito diferente de qualquer coisa que posso ter sentido em todos esses anos. Sei que sou jovem, mas posso afirmar com toda a certeza de que a amo de verdade.
- Mas filho, eu... Nós...
- Marcos, eu não sei se algum dia o vovô lhe pediu para se afastar de minha mãe, nem que fossem dias apenas, mas eu posso te afirmar que eu não consigo. Os três dias que passei longe de Izabel foram certamente os mais longos que já vivi. E olhe que eu tive dias que adoraria esquecer. Então, senhor, eu espero que entenda o meu posicionamento e não me peça novamente para deixar escapar a única pessoa que tem dado sentido a minha vida.
E sem esperar a resposta do pai, Jay dava as costas e retornava para seu quarto. Ajeitava a mala e se preparava para dormir, aguardando ansiosamente pelo dia seguinte, quando poderia ver sua garota novamente. Marcos continuava no quarto antigo. Agora chorava por ter se dado conta do estrago que havia feito. A cada conversa, percebia mais e mais que seria praticamente impossível trazer Jason para seu lado novamente.
Continua...
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Ps: Não tenho certeza de que poderei postar durante a semana, mas garanto que no fim de semana postarei ao menos mais uma parte da história.