O Tédio, o Vício e a Necessidade

Embora seja assessor parlamentar, não sou político, mas desde cedo comecei a compreender a política. E desde aquela época percebo que as realações interpessoais são tão diferentes como o dia é da noite.

Quando fui criança, convivi com um tio, que é uma mistura de Dom Quixote com São Francisco de Assis. Homem puro, bondozo, que ainda hoje guarda sob suas máscaras dois vícios odiosos, a bebida em demasia, e uma criação clandestina de pássaros. Uma vez tirei um canaro belga de dentro de uma gaiola. O pássaro não voou. Ficou ali andando aos círculos, aterrorizado com a largueza do mundo e a responsabilidade enorme de ter de sobreviver por si.

Assim foi comigo quando me libertaram dos seminários para padres por onde passei. Vagueava pelas ruas sem rumo certo. Também tinha dificuldades em reconhecer as coisas e as pessoas. As cidades por onde eu passava já não me pertenciam, as pessoas com quem eu me relacionava não tocavam meu coração. Minhas roupas eram estranhas para mim e para os outros. Eu era um habitante estranho dentro do meu corpo. Ele era uma protese para minha alma.

Uma vez levaram-me a uma festa. Estranhei minhas calças e as bocas apertadas no calcanhar. Os rapazes da minha idade tinham os cabelos artisticamente envezados e as ideias aparentemente também. Neste recinto a estupidez era sólida, constante e fundamental, ela estava na música do hambiente, no rosto das pessoas, no chiclete das mulheres. Eu não sabia dançar, não conhecia ninguém, nem se quer o dono da festa. As pessoas olhavam-me de lado – era o que minha paranóia julgava, possivelmente nem sequer repararam em mim – e evitavam conversar comigo. Mesmo assim, tentei algumas aproximações, sem sucesso.

Ao final da festa fui até um compartimento aberto, onde se encontrava um numero rasoável de pessoas fumando. Eu que nunca fumei pedi um cigarro a um senhor com a seguinte pergunta: - E o que faz? – Sou economista... –Ah sim? De quê? - Ele sacudiu a cabeça num movimento de reprovação da pergunta, mas com semblante sereno. – Tenho o meu próprio negócio. – Interessante! Muito interessante! -, respondi, tentando ganhar tempo para pensar. – E tem ganhado dinheiro? O homem sorriu-me dizendo: - É certo que não, hoje em dia são poucas as pessoas que ganham dinheiro. Tristes tempos para os homens honestos. O triunfo da globalização tem vindo colaborar com tudo isso. Escasseiam as pessoas de bem ora transformando-as em pessoas práticas, ora tomando-as em desumana pobreza. – Ganhar dinheiro não é para qualquer um, - tentei ajudar, quando prosseguiu o moço... – assim como amar. Eu que mais me interesso pelo tema do amor que do dinheiro perguntei, como assim? E logo ali expôs sua história.

Aquele moço da festa, disse-me ter estudado na escola naval do Rio de Janeiro, e que nos anos 80 desafiava qualquer competidor olimpico na natação. Contou-me que uma noite foi levado a um baile de quinze anos de uma das filhas do então governador do Rio de Janeiro. As mais abastadas famílias da cidade estavam presentes. E as moças, filhas de almirantes, capitães, coronéis, políticos, empresários; vestidas de festa, preparavam-se para a valsa que seria dançada com os alunos da escola naval. A festa estava no auge quando cada estudante escolheu sua dama e para ele sobrou uma moça sem braço. – Sem braço? – Declinei com surpresa. – Eu fui o último a escolher e foi ela que sobrou para mim. – Disse o economista. – Mas... dancei com ela e acabamos a valsa como namorados. Ela era toda bonita, mas faltava-lhe um braço, que havia perdido ao cair de um cavalo. – Disse ele.

Segundo meu interlocutor no dia seguinte à festa os dois marcaram de se encontrar perto do porto. Como a escola naval era um internato e seus internos não podiam sair da base, então o economista decidiu burlar as regras para namorar. Pois bem, por volta das 20 hs, após o jantar, ele colocava suas roupas num saco plástico bem lacrado e nadava uns 5 km até o porto, onde a moça sem braço o esperava para namorar. Chegando na praia ele tirava o sal do corpo num chuveiro a beira mar, vestia a roupa de namoro e ia ao encontro dela. Esse esforço para vê-la durou um mês, quando descobriu que ela era a filha do governador.

Enquanto isso, no fundo do meu coração, perguntei: por que não se casou com ela? Mas a impertinência da minha pergunta nem precisou ser concluida quando ele disse: - As grandezas, meu jovem, são muito perigosas, segundo os relatos bíblicos e todas as cronicas dos reis de Israel aqueles que se metem em assuntos públicos perecem de forma miserável e na maioria das vezes assim merecem. Veja Eglon, rei dos moabitas, foi assassinado por Aod; Absalão foi enforcado pelos cabelos, Saul transpassado por um dardo; o rei Nadab, filho de Jerobão, foi morto por Baasa; o rei Elá, por Zambri; Ocosias, por Jeú; Atalia, por Joaidaá; os reis Joaquim, Jeconias e Sedecias tornaram-se escravos. – Tem razão – disse eu.

Agora concordando com o economista, naquela noite, voltei para casa melhor do que sai e lá fiz profundas reflexões e delas extrai que os próprios negócios e o amor afastam de nós três grandes males que a política e a prisão nos devolve: o tédio, o vício e a necessidade.

Durval Baranowske, autor de O QUE DIZEM OS SANTOS. Ed. A Partilha.