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Por Siempre (Parte 5 – Las Chucharadas de Dona Mercedes)

Foi um café-da-manhã agitado, aquele que se seguiu. Alice saiu de seu quarto e logo se desapontou. De certa forma, esperava que Pablo estivesse esperando-a. Não estava. Desceu as escadas e pôs-se à mesa. Pablo também não estava em uma das cabeceiras, como era de costume. Olhou para o relógio na parede que estava a sua frente e franziu o cenho. Olhou em volta e nada de seu namorado. Bruna e Carol logo chegaram e elas dispersaram um pouco dos pensamentos de Alice. Comeram e bateram papo enquanto esperavam Marcela e Thais chegarem para fazer-lhe companhia. Alice esperava por alguém mais.
Pablo acordara mais cedo que o de costume e se arrumou depressa. Foi para a cozinha a fim de conversar com sua mãe. Seria difícil, sabia. Mas não adiaria uma conversa assim.
- Hola, qué tal, D. Mercedes? – disse Pablo num tom festivo, quase cínico.
- Muy bien, hijo. – respondeu Dona Mercedes num tom cordial. Pablo achava melhor descontrair antes de contar o assunto daquela conversa. Achou que seria mais fácil. De qualquer forma, reação pior do que esperava seria difícil obter.
- Madre, - exclamou, pensativo – necesito hablar con usted.
- És sólo um ratito, no? Estou muy ocupada.
- Madrezita – Pablo tirou a colher que estava na mão da mãe e a puxou para sentar.
- Que és, Pablo? – com voz de impaciência.
- Madrezita, yo estoy enamorado.
- Cómo? Enamorado? Quien és la chica, Pablito? – Os olhos de sua mãe se encheram de brilho quando ouviu essas palavras. Quanto tempo não achou que o filho fosse gay por nunca ter tido uma namorada.
- Ella... Vos ya la conoce, madre. Un tiquito, pero la conoce sí.
- Quien, Pablo? Ella debe a ser una hermosa, muy guapa.
- Ella és, mama. Vas a gustar de conocerla mejor.
- No sendo uma chica brasileña, ella ya me encanta – Houve uma risada quase estridente vindo de sua mãe. Pablo não acompanhou o ataque de riso, mantendo-se sério e rijo.
- Madre...
- Ella és brasileña, no? – falou sua mãe com notável insatisfação.
- Sí.- Pablo se sentia mal por estar envergonhado. Alice era a garota mais incrível que conhecia, a mais linda e engraçada. Não era pra sentir-se envergonhado de namorá-la, mas sua mãe sempre expressou tanta revolta contra as brasileiras, sempre deixou bem claro a desaprovação que sentia pelo jeito que elas agiam e andavam e se vestiam e falavam. Dona Mercedes era uma preconceituosa e argentina patriota que levava a rivalidade dos países bem além do futebol. Sim, Pablo não deveria estar envergonhado, mas estava e isso era triste e constrangedor.
- Ora, Pablo... – Abaixou a cabeça e, de uma certa forma, ela encolhia. – Qué se pasa? Por qué? ORA CHICO! – voltando a si, pegou a colher e a levantou – QUIERES UNAS BUENAS CUCHARADAS, SÍ? És eso que quieres? Quieres veer tu madre muerta o llevar unas buenas cucharadas?
Era uma cena engraçada. A mulher correndo atrás do filho com uma colher em punho gritando mais de mil coisas mal criadas como uma criança mimada. É, era engraçado. Mas ninguém diria isso a Pablo, ele estava horrorizado. Bem pior do que havia imaginado. Sua mãe estava fora de si. Ouviu-se um barulho. Seu pai entrou na cozinha para apressar a refeição e se deparou com aquilo. Gritou algo que não se pode definir muito bem e os dois, mãe e filho, pararam.
Pablo aproveitou a sua deixa e saiu a cozinha o mais depressa que pôde enquanto sua mãe caía no choro e seu pai correu para consolá-la.
Já estavam todos postos à mesa, comendo os biscoitinhos que já estavam postos e esperando o “banquete principal”. O argentino procurou Alice com os olhos. Ainda estava vermelho e um pouco descabelado, mas seguiu sem se importar em direção à moça. Ela havia guardado um lugar ao seu lado para ele ainda na esperança de aproveitar aquela manhã junto de seu namorado. Ele notou o gesto e ignorou o seu lugar de costume. Era perto de onde sua mãe se sentaria e ele queria manter uma distância inteligente e saudável dela.
- Buenos días!
- Hola, mi amor.
Enquanto conversavam, o pai de Pablo ficava sabendo do motivo pelo qual Mercedes estava daquele jeito. Seu Sebastian era um homem que costumava ser calmo e paciente. O que de todo modo, compensava sua vida anterior deveras promiscua. O patriarca havia fugido com uma brasileira durante a juventude e só voltou por que soube que Dona Mercedes estava grávida de Pablo. Nunca culpou o filho e, apesar de ter ido embora, Seu Sebastian sempre amou muito sua esposa. Dona Mercedes amava o marido e jurara que o tinha perdoado. E tinha mesmo. Mas nada a impedia de ter a ferida frequentemente cutucada todo inverno. Brasileiras. Por que o Brasil sempre enviava turistas para Bariloche? Ela não sabia, certamente. Ninguém ao certo sabe. O caso é que ela não poderia nunca entender e não havia quem pedisse para que ela respeitasse isso.
A B Queiroz
Enviado por A B Queiroz em 26/06/2012
Código do texto: T3745785

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Sobre a autora
A B Queiroz
Manaus - Amazonas - Brasil, 26 anos
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A B Queiroz