Romance proibido do casal sem libido (e distraído)

Essa história tem um certo sabor independente e livre, com laivos de modernismo, mas, ao final, é feita de implicações normais das relações humanas desde que descemos das árvores para andar erectos. Aliás, erecto é algo que endureceu, tornando-se túrgido, na plenitude da ação. Não era bem o caso do membro do marido, ultimamente. A relaxação da esposa durante aqueles dez anos de casamento já não sustentava o tesão. Ele, por sua vez, era um homem bondoso na idade dos cinquenta anos, espírito ativo e mente sadia com certa fixação comum aos homens: sexo. Homens vivem na corda bamba onde a carne domina por um lado e as coisas do espírito equlibram por outro. No caso do marido em questão, a carne era fraca e sem inspiração.

Deu-se que a mulher passou a dominar seu microcomputador. Daí para saltar para o mundo maravilhoso da grande rede mundial de computadores, com tudo o que isso implica em conhecimentos e novas experiências, foi um pulo. Como cronista não autorizado das intimidades desse casal, passo a descrever as peripécias que seguem, pedindo ao nobre leitor pudico que pare agora a leitura. Serei eu um pornográfico, evocador de luxúrias e libidinagens alheias? Não sou. Apenas quero ser um compilador de fatos que realmente aconteceram e acontecem, pedindo perdão ao leitor e leitora pela crueza das citações.

Despediram-se na porta da casa aquela boa e leal família. O marido seguiu para o emprego em um escritório de advocacia. A mulher ficou em casa cuidando dos meninos e cozinhando feijão. Os dois garotos foram alvos de sansões disciplinares não muito severas: brincar no pátio para não atrapalhar mamãe que atualizava seu orkut, facebook e badoo, dando uma passadinha no MSN para ver alguma amiga desocupada como ela própria, ali online às dez horas da manhã de uma sexta-feira.

Mensagem para uma amiga virtual: “Diga-me, e se você recebesse no seu email uma mensagem de um desconhecido elogiando sua bunda, seu andar e seus cabelos?” Resposta: “não sei, mas esse aí não é desconhecido. Pode ser anônimo, mas se conhece seu remelexo, é das vizinhanças.” A amiga: “Pois eu filosofei, escrevendo que para mim seria mais fácil se eu o visse. Eu poderia ler nos seus olhos, no seu rosto, adivinhar suas intenções e ir à luta, se fosse o caso de batalha”. A outra: “Muito atrevidinha pro meu gosto! Cuidado com essas coisas de internet, tem muito doido por trás, pode ser perigoso trocar mensagens com desconhecidos”.

“Estou contente por você estar online agora. Bom começo de dia”. Era o tal. Ela ficou vermelha, sobressaltou-se subitamente, como se tivesse levado um choque na coluna. “Ele está aqui!”, digitou para a amiga. Sensação de tremor e de peso na altura do estômago. “O que eu digo?”, pediu auxílio. “Ora, vai no embalo, mas não informa nada sobre teu endereço e nome real”.

“Meus cabelos chamejam ao sol na cor dourada, como pediu”. “Beleza! Gostaria de tocar seus cabelos, sentir como são macios. Um verdadeiro prazer! Mas, como estou longe disso!” Ela: “Quem sabe um dia...”

No jantar, o marido olhando colocar a sopa no prato.

--- Reparei agora que pintou os cabelos.

--- Pois é, pra sair da rotina.

Depois de brincar com os meninos, o marido vai dormir. Ela se tranca na salinha do computador.

(Continua qualquer dia desses)

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Fábio Mozart
Enviado por Fábio Mozart em 16/03/2012
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