IMPROVIZAÇÃO
É um causo triste, mas é bom que todo mundo fique sabendo que é para não repetir a besteira que aqueles meninos de compadre Euclides fizeram.
No final de semana caiu toda chuva que estava prevista para o mês inteiro. O riacho Ingá que não passa de um filete de água preguiçosa, virou-se num dragão arrasando tudo que estava na sua passagem.
Dias antes, os meninos tinham feito a jangada com troncos de bananeira para brincar no açude. Jangada é só o modo de dizer, porque os toros estavam presos apenas por varinhas de faxina e amarrados com cordão barbante de agave, desses que se usam para amarrar pacotes grandes.
Para as brincadeiras da molecada e para pescar no açude, até que poderia dar conta, mas enfrentar a violência das águas se deslocando muito rápido e cheia de entulho, galhos partidos e até animais mortos, só mesmo na cabeça daqueles dois idiotas que resolveram atravessar a correnteza para salvar a mocinha que um deles estava arrastando a asa.
A casa dela fica do outro lado e como as águas estavam subindo muito rápido, havia a possibilidade de ser levada ou de que a enchente passasse por cima do telhado. Por conta disso, as duas bestas acharam que deveriam ir fazer o resgate.
Mas improviso de quem não tem habilidade para isso, é a certeza de tragédia, porque para fazer resgate a pessoa tem que saber as técnicas adequadas e ter os equipamentos necessários a cada tipo de emergência.
Os dois, mal sabiam nadar e a embarcação não valia nada.
Colocaram a jangada n’água e com a ajuda de caibros longos, tentaram manobrar para fazer a travessia, mas pela fragilidade da construção e falta de resistência dos materiais, a jangada se desfez antes de chegar na metade da enxurrada e os dois foram levados pela correnteza sem que os que estavam assistindo pudessem fazer alguma coisa.
Se pelo menos eles estivessem amarrados com corda que desse para chegar do outro lado e que estivesse presa numa árvore para serem puxados para fora, talvez a desgraça não tivesse acontecido.
Enredados com troncos e galhos, mesmo que um deles estivesse usando o tronco de bananeira como boia, não foi possível saírem da água e os corpos só foram encontrados três dias depois presos na lama da desembocadura do riacho Ingá.
Mas a desgraça não serviu de exemplo porque já apareceu outra jangada lá na beira do açude.