Casa de Aposta

Casa de Aposta

Cardoso I

Quando a noite caía sobre a cidade, a Casa de Aposta ganhava vida. Era um lugar onde as sombras pareciam mais profundas e os sussurros ecoavam com promessas de fortuna ou desgraça. O jogo era simples, mas mortal: quem jogasse ali se entregava ao capricho da sorte. O ambiente era abafado, com uma única lâmpada pendurada no teto, e as paredes cobertas de fumaça e histórias de gente que passou, perdeu tudo, e nunca mais voltou.

Havia uma regra não dita na casa: ninguém perguntava sobre o passado de ninguém. Todos sabiam que, uma vez dentro, o que importava era o agora, o risco, o desejo da vitória a qualquer custo. Jogadores se sentavam nas mesas, como se a expectativa de perder fosse o que mais os atraía.

A cada lançamento de dados, o ar parecia se estreitar. A sorte sorria para uns e virava a cara para outros, como uma amante impiedosa. O azar parecia uma presença constante, tão presente quanto o cheiro de tabaco queimado, mas ao mesmo tempo, ele era invisível, uma sombra que apenas aqueles que o viviam podiam sentir.

Havia um homem na casa, o mais velho, que sempre chegava sozinho e com um olhar vazio. Ele nunca sorria, nunca reclamava. Seu nome era Hugo, mas todos o chamavam de "O Perdido". Diziam que ele já tinha perdido tudo: a mulher, os filhos, até a razão. E agora, ele jogava pela única coisa que lhe restava: o prazer de sentir a adrenalina, o frio na espinha que vinha com cada rodada.

Naquela noite, o jogo estava em seu auge. Hugo apostava sem hesitar, seus olhos fixos nos dados que rolavam sobre a mesa. "A sorte é só uma ilusão", ele murmurava para si mesmo, enquanto as fichas se acumulavam diante dele. "Azar é uma questão de perspectiva. Quando você aceita perder, a vitória é mais doce."

Mas, naquela noite, a sorte não estava ao lado de ninguém. O homem ao seu lado, um jovem arrogante e cheio de promessas, jogava com confiança, mas parecia ignorar o verdadeiro peso do jogo. "Você não entende", Hugo disse, observando o jovem empilhar as fichas. "Aqui, o jogo nunca acaba. Você perde, mas sempre volta, porque acredita que vai ganhar."

O jovem sorriu, ignorante. E foi nesse momento que, com um simples movimento de mão, Hugo mudou o rumo da aposta. As cartas caíram, os dados rolaram... e o destino, mais uma vez, se revelou cruel.

O jovem olhou para as fichas perdidas, a tensão em seu rosto crescendo. Ele tentou disfarçar a derrota, mas a verdade era clara: não se joga contra o destino, apenas se joga com ele.

No final da noite, Hugo levantou-se, pegou suas fichas, e saiu da Casa de Aposta sem olhar para trás. Ele sabia que, naquela noite, o jogo tinha sido mais do que uma aposta: era um lembrete de que a sorte e o azar dançam juntos, mas nunca em harmonia.

Ivonoel cardoso
Enviado por Ivonoel cardoso em 27/03/2025
Código do texto: T8295205
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