Linda de Morrer
Linda de Morrer
Cardoso I
Cecília sempre fora uma mulher de beleza sobrenatural, daquelas que causavam uma espécie de encanto instantâneo e, ao mesmo tempo, um desconforto nos que a observavam. Seus olhos, de um verde profundo como um lago gelado, pareciam ser abismos de pureza e segredo. O cabelo negro, que descia como uma cortina escura, refletia a luz em fios de seda, e seus lábios, sempre vermelhos, como se tivessem sido moldados pelo próprio desejo, atraíam os olhares de todos que cruzavam seu caminho. A simetria de seu rosto era de uma perfeição irreal, como se tivesse sido esculpida pela mão do próprio destino. E, por algum tempo, ela se sentiu uma musa, um ser feito para ser admirado e adorado.
Os primeiros elogios, os sussurros dos homens, os olhares de desejo que se deslizavam por sua pele, eram como bálsamos que alimentavam sua alma. Ela se sentia como uma deusa, uma criatura intocável. Mas, com o passar dos anos, algo foi se alterando no ritmo dessa dança. Os sorrisos começaram a se tornar mais escassos, os olhares mais curtos. A juventude, sua maior aliada, começava a se despir diante dela, como um véu que se desfaz, um fio invisível que se soltava lentamente. E foi aí que o medo se instalou em seu peito, como um veneno que corroía sua essência.
O tempo, esse inimigo invisível, fazia com que a certeza de sua beleza se tornasse cada vez mais insustentável. Cecília passou a viver com uma obsessão silenciosa e crescente, como uma sombra que a perseguia incansavelmente. A ideia de envelhecer, de perder a perfeição, lhe era insuportável. E, então, ela se entregou a um ciclo sem fim de tentativas, a um ritual de transformações e artifícios. Cirurgias, tratamentos, poções, todos os meios eram válidos. Cada fio de cabelo que se tornava grisalho era um pequeno assassinato. Cada linha suave que surgia no contorno de sua pele era uma traição.
Ela se tornava uma casca vazia, com um reflexo distorcido, como uma pintura que não retratava mais a realidade, mas a mentira de um mundo que só existia em seus olhos. O espelho, antes seu aliado, agora era uma sentença de dor. Ela o encarava por horas, buscando os sinais de uma beleza que já não estava ali, que se dissipara como um sonho pela manhã.
Foi em uma dessas noites que ele apareceu. O homem do espelho.
No início, não o viu de imediato. Ele estava ali, mas se camuflava nas sombras, como um espectro nascido da sua obsessão. Cecília estava diante do espelho, os olhos cansados e tristes, tentando detectar qualquer vestígio da mulher radiante que um dia fora. E, foi então, que ele se manifestou: uma figura etérea, com os traços borrados pela bruma da madrugada, mas de um magnetismo assustador. Seus olhos, sombrios como a noite mais densa, fixavam-na com uma intensidade desconcertante.
Ele não falava. A voz do homem do espelho era um silêncio profundo, um silêncio que penetrava sua mente e a invadia com palavras que ela não queria ouvir, mas que sentia de alguma forma, como um veneno se infiltrando em suas veias.
“Você nunca será suficiente”, disse ele, mas sua voz não veio de sua boca. Era um sussurro que brotava dentro dela, como um eco em seu peito. “A beleza é uma prisão que você mesma construiu.”
Cecília tentou ignorá-lo, afastar seus pensamentos como um pesadelo que se desfaz ao amanhecer. Mas ele não a deixou em paz. Noite após noite, ele estava ali, à espreita, dizendo-lhe verdades que ela não queria ouvir, desnudando a mentira que se tornara sua vida.
“Você jamais será perfeita”, repetia, seus olhos refletindo a mesma dor que ela sentia ao se ver desfigurada, aos poucos, pelos seus próprios medos.
Mas, ao invés de fugir, Cecília se entregou. A obsessão a consumia, e ela continuava a procurar, a modificar, a remendar o que já não podia ser remendado. O homem do espelho a observava, sorrindo com um prazer sombrio, sabendo que ela estava se perdendo, cada vez mais, em seu próprio reflexo.
Até que ela não mais existiu.
Cecília morreu não de velhice, mas de obsessão. Não fisicamente, mas de alma. Quando o fim chegou, ela não estava mais presente em seu próprio corpo, apenas a imagem de uma mulher que havia se tornado prisioneira de sua própria busca pela beleza eterna. O espelho, finalmente, refletiu uma mulher vazia, sem essência, sem ser.
Ela foi linda, sim. Linda de morrer.