O Homem no Escuro
O Homem no Escuro
Cardoso I.
Julia sempre foi uma mulher prática. Não acreditava em fantasmas, lendas ou qualquer coisa que fugisse da lógica. Por isso, quando viu pela primeira vez a figura parada no canto do quarto, pensou se tratar de um jogo de sombras, um efeito da escuridão contra a mobília.
Mas na noite seguinte, ele ainda estava lá.
E na outra também.
No início, tentou ignorar. Fechava os olhos com força, cobria-se até a cabeça, forçava o sono. Mas o instinto sussurrava que ele continuava ali, observando-a, paciente. A silhueta permanecia imóvel, como se fizesse parte do próprio quarto. Não havia detalhes no rosto, apenas um vazio onde os olhos deveriam estar.
No terceiro dia, ela acendeu a luz. E ele desapareceu.
Foi a primeira vez que sentiu medo.
A rotina virou um tormento. Julia passou a evitar a noite, a se perder em livros e filmes até que o cansaço a obrigasse a dormir. Mas, mesmo assim, às três da madrugada, os olhos se abriam sozinhos, e ele estava lá. Sempre no mesmo lugar.
Ela não contou a ninguém. Quem acreditaria? Talvez fosse apenas cansaço, um delírio causado pela solidão. Talvez...
Mas naquela noite, tudo mudou.
O apartamento estava quente, abafado de um jeito estranho. Julia se mexeu na cama, inquieta, tentando ignorar a sensação incômoda. Mas então percebeu: o quarto parecia mais escuro do que o normal. O abajur, que costumava projetar uma luz fraca e amarelada, estava apagado.
E o homem no escuro não estava mais no canto.
O coração dela disparou. O suor frio escorreu pela nuca.
Então, um rangido. O som da madeira do chão cedendo sob o peso de algo... ou alguém.
Ela não queria olhar. Não podia. Mas o medo tem um jeito cruel de guiar os olhos.
Ele estava mais perto.
Muito mais perto.
A sombra alta se erguia ao lado da cama. O corpo magro e longo parecia se misturar ao breu do quarto. Julia sentiu a respiração dele — não quente, mas gélida, como se roubasse o ar ao redor.
Ela tentou gritar. Mas o som não saiu.
A mão dele se moveu.
Lenta.
Deliberada.
Os dedos gelados tocaram seu rosto.
E então, no mais puro silêncio, ele sussurrou algo perto de seu ouvido:
— Agora você me vê.
A luz piscou.
Uma.
Duas vezes.
O breu se fechou ao redor dela.
A última coisa que Julia fez foi gritar.
Dessa vez, na escuridão total.