Dia do frio
No dia 20 de junho foi solenemente inaugurada a temporada de inverno, a data mais importante do calendário turístico da cidade. O prefeito determinou feriado facultativo e hasteou a bandeira nacional, com fogos de artifícios e discurso oficial, onde o orador oficial chamou a atenção para o fato histórico de que o primeiro brasileiro a declarar seu sentimento de muita energia, prazer e estímulo decorrente das baixas temperaturas foi um cabo da milícia que chegou aqui na caravela de Américo Vespúcio, em 1503, perseguidos por piratas franceses e holandeses. Habitada pelos índios tamoios que não conheciam o frio, por isso andavam nus, essa região foi tomada pelos portugueses arrepiados e gélidos. O dito cabo havia sentado praça na Estação Vozstok, uma base científica na Antártida considerada o polo do frio, onde foi registrada a temperatura mais baixa da história, quando os termômetros marcaram menos 89 graus. Chegando ao clima ameno da cidade em seu nascedouro, o cabo ficou maravilhado com a temperatura, suavizada com quenturas extremas das índias despidas. Acabou dando nome à cidade, batizada de Cabo Frio.
Sem temer hipotermia, a população compareceu ao banquete invernal onde foi servida mesa de frios composta por uma variedade de alimentos frios, como queijos, embutidos, frutas e pães, raspadinhas, sorvete de massa, gelato, sorbet, picolé, paleta mexicana e outros alimentos ricos em aditivos, conservantes e gorduras hidrogenadas sabor pistache, responsáveis pelo alto índice de diabetes, pressão alta e obesidade, graças a esses carboidratos refinados pelo frio local.
Naturalmente, é quase impossível imaginar a Rota Cultural Caminhos do Frio sem frio. Essa rota é um evento que acontece na Paraíba, incluindo atividades culturais e turísticas. A programação tem música, artes cênicas, gastronomia, trilhas e experiências únicas, como manter contato ao vivo com Chico Matos, um brasileiro que vive no Ártico há 13 anos e virou palestrante motivacional. Ele nada sobre o gelo, permanece dentro de um cubo de gelo tomando caipirinha por mais de uma hora usando apenas uma cueca Zorba, e ensina como dar gelo na sua mulher ou marido, comportamento que consiste em interromper o diálogo e evitar o contato físico durante um determinado período de tempo, de maneira pontual, depois de um bate boca quente.
As autoridades locais temem as mudanças climátricas que se verificam em sua região, como escassez de água, aumento da temperatura e declínio da biodiversidade. Com a redução da fauna, dificilmente se vê na Rota do Frio bichos como urso polar, pinguim, foca, leão marinho e rato de fava. Consta que os humanóides já desenvolvem características adaptativas para se manterem aquecidos, como o hábito de beber regularmente a bebida chamada cachaça, popularmente também conhecida como “amansa corno” ou “zombeteira”.
O frio em si recebe um novo desenho, representado algo referente ao mundo interno e às percepções individuais. Sendo o frio uma percepção subjetiva, cada um sente frio à sua maneira. Na cidade Solânea, o frio tem um desenho especial. O high society se veste com roupas de inverno europeu. As madames se emperiquitam no sentido cebola. Vestem várias camadas. Primeiro a segunda pele, depois a blusa de aquecimento e depois o casaco corta vento, com direito a meias de lã, botas de inverno e aqui e ali aparece um presépio usando luvas. Edileuza Maria, mulher de um próspero negociante, não economizou no guarda-roupa de inverno naquele ano, o mais quente do Brasil desde 1961, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia. Dona Edileuza mandou comprar lã merino, um tipo especial de lã que aquece e evita odores de sovaco aprisionado. Muito casaco de poliéster, suéter de lã, jaqueta com capuz, calças com forro de pelúcia e botas impermeáveis. Tudo isso para enfrentar frio em torno de 25 graus.
Naquela tarde quente de verão, um piano inútil jazia na sala de Dona Edileuza. Quando as temperaturas caem, a sensação de fome e o apetite crescem. Por isso, Dona Edileuza finge que o clima está no ponto de friagem máxima, o que permite que ela consuma os deliciosos salgados, bolos no pote, palha italiana, brownie, tortas e chocolate quente da loja Di Palude, sem incorrer em remorso. A temperatura está no grau que lhe satisfaz. Esse é um dos privilégios dos endinheirados. Podem fingir que vivem na Europa.
A tarde continua quente e a madame repulsivamente gorda, apelando ao Rei do Azevinho, um deus do frio da mitologia celta, só que não. Ela evidentemente nunca ouviu falar nesse Rei do Azevinho, muito menos em Despina, deusa do inverno e geadas, filha de Poseidon ou Zeus com Deméter, na mitologia grega. A casa cheia de gente, aguardando o fotógrafo Antonio Jararaca e sua Rolleiflex para registrar a estética do high society solanense no frio, gravado em negativo para a posteridade jamais duvidar do clima temperado continental naquela vivenda no cocuruto da serra da Borborema, festim animado pelo bonequeiro Zé Miranda e seu babau do terceiro mundo emendando com o frio do primeiro mundo.
Já ecoava no Ferro da Bomba e na barraca de Brasilina o boato de que no quintal de dona Edileuza estavam caindo flocos de gelo. As massas se precipitaram para a casa da madame, com o pessoal do bloco do Foiará levando de arrasto a galera de Milton Mago, seu Artur, Zé do Óleo e Adonias, no ritmo da batucada de Manezim da Bateria. Um falso carnaval para celebrar neve falsa. Muitos anos depois, Kleber Mendonça Filho produziu o filme “Recife frio”, um falso documentário que mostra a mudança climática confrontada com injustiças ambientais. O filme trata de uma estranha mudança do clima tropical do Recife, que, de repente, se vê congelado por uma frente fria inexplicável.
A festa do frio aconteceu no Grêmio Morenense. Noite quente demais no baile vermelho e branco, com muita gente fantasiada de Papai Noel, o velho garoto propaganda da Coca-Cola e suas vestes alvirrubras de frio.
Destaque para o carnavalesco Ofinho, na sua roupa de Papai Noel, confeccionada no tecido cetim charmousse com detalhes em pelúcia macia, acompanhada de cinto e par de polainas em poliéster, gorro com elástico para mais ajuste, com elástico na cintura da calça, tornando mais confortável e prático, blusão com abertura na frente em tiras autocolantes, um luxo! Dona Edileuza foi eleita a rainha do inverno.
Muitos anos depois, o frio atrasou tanto que nem veio. Aumento da temperatura global, causado pelas mudanças climáticas, provocadas pela ampliação da concentração de gases de efeito estufa, vem impactando na saúde e bem-estar dos humanos e, em muitos casos, rebaixando alguns agrupamentos urbanos para o nível de terceiro mundo calorento. Na casa de dona Edileuza só o café está frio. A antiga Rainha do Frio não existe mais. Desencarnou em uma noite quente, devido ao colapso do seu corpo nobre em temperaturas extremas para desidratar aquele ser, construído pela irrealidade social e climática. Edileuza e família, e mais o restante dos seus munícipes, viveram arquitetando sonhos de nobreza baseada na friagem local, para no fim só restar a excreção comunitária, o esterco histórico civil. Quase ninguém ficou sabendo daqueles fatos antigos, do tempo em que a temperatura ajudava a se criar uma irrealidade. Mas o rumorejo do povaréu perpetuou de alguma forma essas quase lendas urbanas. Mesmo porque a gente não sabe se livrar das próprias merdas, diferente dos gatos que, bem instruídos pela natura, pelo menos enterram seus excrementos.
E mais não digo, porque está fazendo um calor dos diabos.