Contos do senhor Lindolfo Benzedor

Admirador das coisas da terra, sempre busquei na experiência dos mais velhos o conhecimento das origens, da história de cada um. Cada lugar apresenta tipos diferentes que, com um ou dois dedos de prosa, nos relatam coisas interessantes e, muitas vezes, inusitadas. Foi assim que conheci o senhor Lindolfo Benzedor, na cidade de Nerópolis. Seu Lindolfo, como era chamado por todos, fugindo da seca, sai do sertão baiano rumo ao centro oeste goiano. A vida ali já não era possível! Olhando ao seu redor, o mormaço parecia não ter fim. A lama seca, rachada, sem vida, era um vestígio de que ali houvera um lago. Carcaças de animais vitimados pela sede se espalhavam pelo caminho, deixando um cheiro de morte no ar. No intenso azul do céu, um sol abrasador brilha, impiedoso! Aos poucos, as evidências da seca vão se revelando na paisagem. Sob o escaldante calor do meio dia, árvores amareladas de sede perdem suas folhas e seus galhos retorcidos, nus, entrelaçados, parecem buscar no espaço um ponto de fuga desse sufoco. A vegetação da caatinga, resiliente, luta pela vida, resiste às intempéries do ambiente. Aqui e ali, ora se vê um verde opaco, ressequido nos arbustos espinhosos que se espalham pela planície. Ao longe, nos rochedos, vez ou outra se ouve o grunhido de algum mocó, um dos poucos sobreviventes desse prolongado verão. Adaptando-se ao calor desértico, xiquexiques e caroás se espalham pelo chão, suportando o mormaço quente. Aroeiras quase sem folhas, vagueiam seus galhos buscando uma fuga do calor ardente. O umbuzeiro, com seus galhos retorcidos e emaranhados, apresenta uma folhagem robusta, esverdeada. Ademais, suas raízes, num processo mimético, retém água suficiente para alimentar a planta durante a estiagem. Assim, apesar das adversidades, a vida se evidencia, mesmo com tons peculiares. Era chegada a hora de ir embora! Decidido, o senhor Lindolfo parte para Goiás.

Homem bem apessoado, de poucas palavras, o senhor Lindolfo parte sozinho, deixando para trás a família: seus pais e irmãos, sertanejos arraigados na terra sofrida do sertão brasileiro. Como um passarinho que sai do ninho, alça voo e ganha as alturas, seu Lindolfo bate suas asas e, fortuitamente, vai de encontro ao desconhecido. Na mala pequena, além de uns pares de roupas, leva também seus sonhos e sua coragem. Em conversas com seus amigos, ouviu dizer que Nerópolis, em Goiás, era um lugar bom de se viver, o povo era acolhedor e a fartura era muita. Decidido, segue seu novo destino.

Enquanto caminha em direção à estação, o filme de sua vida vai passando diante de seus olhos: a infância quase sem escola (tinha pouca leitura); os amores e desamores que tivera; os amigos que ficaram; o difícil trabalho no campo; o sol ardente; a lida com o gado; a pele queimada; a vida dura. A dor no peito anuncia a saudade da história que fica... Já na estação, o trem não demora a chegar. No vagão, seu Lindolfo se aconchega numa poltrona junto à janela. Um apito estridente anuncia o início da viagem. Lentamente, o trem se afasta e, aos poucos, a cidade de Juazeiro se apequena no horizonte até se perder de vista, numa curva da estrada. A viagem segue tranquila. Da janela, seu Lindolfo observa a paisagem que, aos poucos, vai mudando, ganhando uma nova roupagem. A caatinga do sertão vai ficando para trás, dando lugar, agora, ao cerrado mineiro. Árvores de pequeno porte, com seus galhos retorcidos, se espalham pelas campinas. A vegetação ressequida e rasteira é abundante e, mesmo com o calor intenso, ainda se pode ver flores aqui e ali, à espera das chuvas. Há muito tempo não se via um verão assim, tão prolongado! De mansinho, a tarde vai caindo e o sol, sem pressa, vai se pondo por detrás da colina. A viagem rumo a Nerópolis é longa e o senhor Lindolfo, no balanço do trem, é vencido pelo cansaço e adormece.

No clarão da aurora, o trem viajante chega à estação de Belo Horizonte. Parada obrigatória! Aos poucos, as luzes da cidade se apagam, dando lugar a um sol abrasador, imponente, prenúncio de mais um caloroso dia! Seu Lindolfo é despertado pelo zum zum zum do vai e vem de pés arrastando-se pelo vagão. Nesse intervalo, meio assustado, desembarca e caminha pela estação. Para ele tudo é novidade! Nunca tinha visto tanta gente assim, reunida num só lugar! Pessoas diferentes, com jeitos diferentes de falar, educadas e acolhedoras, parecia um sonho! Num canto ali da estação, enquanto toma um fumegante café, o senhor Lindolfo observa as pessoas se aglomerando diante do balcão da lanchonete, ávidas pela primeira refeição do dia! A parada é curta e o trem está prestes a partir. Um longo apito avisa aos passageiros a iminência da retomada da viagem. Apressados, todos retornam aos seus lugares. Em seguida, "piuiii...piuiii...piuiii"... e o cavalo de ferro segue seu rumo, com destino à capital goiana.

Finalmente, o senhor Lindolfo chega a Goiânia, no coração do Brasil. Como um cão que caiu da mudança, ele olha para todos os lados e não consegue enxergar um rumo, uma direção a seguir. Sabe que não vai ser fácil, mas como todo bom sertanejo, resiliente, enfrentará as dificuldades do caminho e fará delas alicerce para edificar o seu castelo. Assim, o senhor Lindolfo permitiu-se adaptar-se à nova situação: buscou informações e logo sabia a direção da cidade de Nerópolis. Seguiu seu destino.

No final dos anos sessenta, seu Lindolfo chega a Nerópolis e se depara com um cenário desalentador: margeando as águas do Capivara, riacho que agora corre lento, sem forças, ainda se pode ver um verde empoeirado, pálido, serpenteando pelos vales e campinas dos arredores da cidade. Animais esquálidos, sob rala sombra de árvores desfolhadas, ruminam o fraco alimento que ainda encontram nas pastagens. Contudo, o céu já não está tão azul e algumas nuvens surgem aqui e ali. Nem tudo está perdido! Alimentando a esperança de dias melhores, no pó ardente da terra seca, as sementes esperam resistentes pelas chuvas para, enfim, como a fênix, ressurgirem exuberantes, cheias de vida, deixando, de novo, tudo belo. Era meados do mês de março e a chuva nessa época não faltava. Seu Lindolfo ficava cada vez mais extasiado com o clima da região. Aos poucos, as nuvens foram se tornando densas e o céu escurecera de repente, como se fosse noite. Que loucura!!! Nesse instante, uma forte ventania iniciava um espetáculo que se repetia todos os anos. O vento varria as folhas ferozmente, as árvores se dobravam como se fossem ser arrancadas pelas raízes. Em seguida, o céu chora como nunca e uma chuva torrencial lavava e levava tudo, com voracidade. As águas do córrego Capivara que cortavam a parte baixa da cidade de Nerópolis, em pouco tempo se tornavam um rio caudaloso, alargando suas margens, levando tudo que encontrava pela frente. Animais e árvores passavam boiando como se fossem brinquedos nas mãos de uma criança. A ponte da saída velha para Anápolis estava quase submersa e à sua volta, troncos e garranchos encalhavam, formando uma cachoeira no meio do leito. Era uma imagem dantesca e, ao mesmo tempo, bonita de se ver! Era a chamada Enchente de São José! Depois de tudo, veio a calmaria. Uma semana de uma chuva fina, leve, quase uma garoa. Era como se a natureza lamentasse o estrago que fizera dias atrás! Ao seu Lindolfo não restam dúvidas, Nerópolis será o palco de sua última estância. Finca suas raízes ali, na rua Agenor Caldas, saída para Nova Veneza.

A nova morada de seu Lindolfo era um grande casarão, com esteios de madeira. O telhado enegrecido dava a ele um ar sombrio; as paredes, desbotadas e corroídas, resistiam à ação do tempo. As portas e as janelas, tão grandes quanto a casa, apresentavam um cinza desgastado, opaco. No terreiro de chão batido, um jatobá centenário completa o cenário. Com seu jeito generoso e cativante, o senhor Lindolfo logo já era conhecido por todos do lugar. Passou a ser chamado de Lindolfo Benzedor, pois sempre que algum enfermo era levado à sua presença, ele realizava umas orações e a cura, milagrosamente, acontecia. Aprendeu esse ofício com um negro benzedor, filho da escravidão. Mas o senhor Lindolfo era também um exímio contador de causos, todos gostavam de ouvi-lo. A meninada se amontoava ali, no alpendre de sua casa, atenta a cada detalhe de suas histórias. Certa vez, quando questionado sobre como aprendera suas benzeções, ele explica que antigamente, a presença de curandeiros e benzedores era comum em qualquer comunidade. Havia aqueles que faziam uso de seus conhecimentos religiosos para fazer o bem, amenizando o sofrimento do corpo e, muitas vezes, até curando as suas dores. Entretanto, havia também os que usavam esses domínios para o mal ou até mesmo para se protegerem. Um dia, ainda jovem, por sorte ou obra do destino, conhece um mestre na arte das orações, o senhor Teobaldo Agripino, um moço nascido no outro lado do atlântico. Então, começa a contar uma passagem que ocorreu com o negro velho a fim de mostrar a força de suas preces.

Teobaldo Agripino era um senhor negro, descendente da escravidão, homem de poucas palavras. Andava sempre acompanhado de seu inseparável cão pastor alemão, animal negro de pelo reluzente, muito bonito. Conhecido por todos como Preto Velho, ganhara essa alcunha pelas assombrosas realizações que conseguia através de suas fortes orações, sapiências adquiridas de seu avô materno, feiticeiro da tribo onde viveu, no sul da mãe África. Homem de vida simples, Preto Velho vivia às margens de um pequeno riacho, num rancho de pau a pique coberto com sapê. Amante da natureza, poucas vezes ia ao vilarejo em busca de mantimentos.

Certo dia, enquanto caminhava rumo ao vilarejo com seu fiel escudeiro, um cão negro de pelo reluzente, Preto Velho ouve o tropel de um cavalo que cavalga apressado em sua direção. Era o coronel Coriolano Ferreira, delegado da Vila, famoso por suas abordagens violentas às pessoas que eventualmente levava presas. Acostumado a chefiar com punhos de ferro, o coronel era temido por todos e não era dado a receber um não como resposta às suas vontades. Aproxima-se sorrateiramente do negro Teobaldo e o cumprimenta com imponência. Preto Velho não se deixa intimidar e, respeitosamente, responde ao cumprimento com um leve movimento de cabeça. Ele e seu cão permanecem alertas, esperando a reação do coronel. Com modos grosseiros, o delegado manda que o negro suba em sua garupa, oferecendo-lhe carona até o vilarejo. Num tom mais ameno, Preto Velho dispensa o convite, dizendo que a pé chega mais rápido, preservando, assim, o cavalo de carregar um peso dobrado. O coronel toma aquilo como ofensa e, estalando seu chicote rente ao rosto de Teobaldo, sai em disparada proferindo cobras e lagartos. Mais adiante, longe do negro caminheiro, o coronel diminui o ritmo e, se sentindo ofendido, segue imaginando uma maneira de castigá-lo de algum modo. Enquanto vagueia em seus pensamentos, um par de araras negras passa voando calmamente, num rasante e elegante voo. Surpreso, pensa o coronel: --- Que estranho, nunca tinha visto araras daquela cor! Seu Lindolfo era mesmo um ótimo contador de causos. Ele tinha um jeito cativante de contar suas histórias que prendia a atenção de todos que o ouviam, deixando-os curiosos pelo desfecho. Vez ou outra, ele parava a narrativa e tirava umas tragadas em seu cigarro de palha, causando um suspense no ar...Outras pessoas se aproximavam, querendo ouvi-lo também. Era um contentamento só. E ele seguia contando.

A tarde já vinha caindo quando o coronel Coriolano entra no vilarejo e, de longe, avista um cão negro, bem cuidado, postado à frente do armazém da vila, à espera de seu dono. O coronel apeia de seu cavalo e o amarra num varal. Entra no lugar e se depara com o negro, num canto do balcão, degustando uma refrescante bebida. Sem deixar transparecer a sua surpresa, o delegado ficou imaginado como aquele filho da mãe mandingueiro havia chegado ali, primeiro que ele. Com os olhos ardentes de ódio, o delegado manda José Vicente, dono da venda, colocar dois copos de pinga e oferece um ao negro, boquejando que ele é seu convidado. Teobaldo recusa a bebida, dizendo que não consome álcool. Irritado, o coronel saca sua arma e aponta para a cabeça do negro e diz: --- Quero ver se sua mandinga te salva dessa, negro safado! Ou bebe ou morre!!! Sob a mira de um taurus trinta e oito, Preto Velho se vê obrigado a beber aquela pinga, sem dizer uma palavra. Com ar de vitorioso, o coronel atira várias vezes para cima e manda que o negro vá embora! Calado, Teobaldo sai do local e, juntamente com seu cão escudeiro, desaparece na escuridão da noite.

Na manhã seguinte, ainda nos primeiros clarões da aurora, Teobaldo Agripino já está na lida, amolando seu facão duas faces, com corte em ambos os lados. Trabalha a ferramenta com mãos de veludo, pois ela está prestes a realizar um primoroso serviço, sem margem para erros. Refaz a amolação por algumas vezes até o corte ficar tal qual uma navalha. Preto Velho nunca foi simpatizante a vinganças, mas a humilhação que sofrera fere o brio de um homem, não pode passar em branco. Satisfeito, coloca algum alimento no embornal, chama por Tucum, seu cão companheiro e segue rumo ao povoado.

O sol já estava a pino quando Preto Velho chega ao vilarejo. De propósito, passa em frente à pequena delegacia e segue em direção ao armazém do senhor José Vicente. Ao vê-lo, o delegado esboça um leve sorriso sarcástico e vai ao seu encontro. Teobaldo Agripino entra na venda e pede ao dono um naco de carne seca, uma rapadura e um refrigerante. Paga pelo pedido e se encosta num canto do balcão, tragando tranquilamente sua bebida. Nesse instante, entra o coronel, altivo, imponente, desafiador. Pede por uma pinga e fica ali, provocante: cotovelos no balcão, sentado, próximo ao negro. Então, de repente, Teobaldo Agripino chama pelo proprietário do recinto: --- Senhor José, tem aí um copo duplo, daqueles bem grandes? O dono do armazém traz um copo e o coloca no balcão, diante do Preto Velho. O delegado só observa. Teobaldo Agripino pede ao senhor José que encha o copo até a metade e, em seguida: --- O senhor tem pólvora preta? Por favor, coloque um pouco aqui, na bebida! Tem pólvora branca? Coloque outro tanto, sim! Tem alho? Amasse uma cabeça, bem amassada e ponha no copo, por favor! Tem pimenta malagueta? Duas colheres! Pimenta do reino? Ponha também! Agora, complete o copo com pinga até encher, por favor! Sem que o coronel esperasse, num movimento rápido, típico de um jogador de capoeira, Teobaldo Agripino salta para o lado e, surpreso, sem possibilidade de defesa, o delegado se vê com um facão afiado rente ao seu pescoço. Com a mão esquerda, o velho negro retira a arma da cintura do coronel e, com voz pujante, fala firme no pé de seu ouvido: --- Hoje o doutor é meu convidado. As condições são as mesmas, ou bebe, ou morre! Com o cano do revólver, Teobaldo Agripino revira a bebida, misturando bem o conteúdo do copo. Pressiona um pouco mais o facão e um fio de sangue corre pela lâmina, pingando no balcão. Pela primeira vez em sua vida, o coronel sente o temor da morte. Aquele negro ali, em sua frente, mais parecia um leão enfurecido, ávido por sua presa. Uma gota de suor frio escorre por sua testa e, obediente como um menino diante da mãe, vai tomando aquela bebida caudalosa, intragável. Suas entranhas reviravam e um calafrio atormentava sua espinha. Com a vista ofuscada e a voz embaraçada, o coronel começa a grunhir palavras incompreensíveis. Com muita dor na barriga, todo borrado, o coronel sai correndo, tropeçando aqui e ali, em busca de um banheiro. Nesse instante, Preto Velho recolhe as coisas que havia comprado e se dirige rumo à porta. José Vicente lhe faz um alerta, dizendo que tome cuidado, pois o coronel é um homem vingativo! Ele faz um gesto de positivo com a cabeça e toma o rumo de casa. Sabia que naquele dia o coronel não iria procurá-lo, pois estaria muito ocupado tentando limpar o intestino. Nesse instante, todos já torciam para o negro Teobaldo, sem um pingo de piedade do déspota coronel. Os olhos do senhor Lindolfo brilhavam de satisfação com o efeito que seu conto causava em cada um ali presente. Vez ou outra, esboçava um leve sorriso e seguia sua explanação.

O rancho de Teobaldo Agripino não oferecia muita segurança, mas ele estava sob a proteção das entidades que o acompanhava. Depois de realizar alguns rituais, faz uma benzeção em todo o lugar: rancho; terreiro; cerca... tudo ao seu redor. A noite chega sem nenhum contratempo, mas ainda na madrugada, Preto Velho é despertado pelo ladrar de seu cão, acusando algum perigo. Se levanta e sai para o terreiro. O dia amanhece quando, em vigília, Teobaldo ainda caminha próximo à cerca, para lá e para cá. De repente, um grito do coronel ecoa no espaço, proclamando voz de prisão ao negro mandingueiro. O delegado havia recrutado seus soldados e mais uma meia dúzia de homens do vilarejo e cercara o lugar para a captura do meliante. Sem dar ouvidos, Teobaldo segue na sua guarda, rente à cerca, para lá e para cá. Diante da resistência, o coronel ordena que atirem. Uma saraivada de balas é lançada em direção ao negro e ele continuava ali, como se nada estivesse acontecendo. A balas ricocheteavam, mas não atingiam o Preto Velho. Os estampidos dos tiros eram ensurdecedores. Uma pausa no tiroteio, e o negro continuava sereno, para lá e para cá. O coronel não acreditava no que estava vendo. Nunca havia errado um tiro naquela distância. Algo estava errado! Subitamente, o negro entra para o rancho! Nova ordem e o tiroteio recomeça. Dessa vez, as paredes são atingidas e se pode ver a poeira levantando. O fogo cessa novamente e o silêncio reina por alguns instantes. Inesperadamente, a porta do rancho se abre e o negro cão, com um embornal no pescoço, sai em disparada, passando por todos, numa corrida desenfreada, ganha o mato e desaparece. Os homens do coronel se entreolham, sem entender. Será que o negro tomou a forma de um cão e fugiu? Um assombro toma conta de todos. Sem ver movimento no rancho, o delegado, obcecado pela captura do negro, vivo ou morto, manda um de seus soldados se aproximar do local. O soldado se esgueira pelo mato e chega até a cerca e volta correndo, assustado. Apavorado, relata ao delegado: --- Coronel, tem uma carreira de balas rente à cerca! Por isso o Preto Velho não era atingido! Possesso, o coronel Coriolano fica pensativo: --- Agora tudo se explica: as araras negras; o cão protetor... e agora essas balas. O velho era mesmo um feiticeiro! Inconformado, decide invadir o rancho. O medo paira no ar e, para encorajar a sua equipe, o coronel toma a dianteira, de arma em punho e é seguido por todos. Com um pontapé, derruba a porta e invade o lugar, atirando sem direção. Para surpresa de todos, o velho não está ali e não há mais nada no lugar, senão um fogão improvisado com algumas pedras, uma cama de jirau, um velho baú com algumas roupas e poucos utensílios de cozinha. Encabulados, todos voltam para o povoado.

Quando a tranquilidade impera novamente, o cão negro reaparece, entra no rancho e late por três vezes. Nesse instante, o baú se move e a tampa de um alçapão é aberta. Teobaldo Agripino surge. O tempo todo ele estava ali, escondido para reaparecer no momento oportuno. Passa a mão na cabeça do animal, num gesto de agradecimento. Apressado, prepara um pouco de alimento com a carne seca, farinha e a rapadura que tinha guardados. A briga ainda não tinha acabado e precisava abandonar o lugar sem deixar rastros. No fundo do quintal, à beira do riacho, retira uma canoa que trazia camuflada sob uns arbustos. Antes de embarcar, pega um pedaço de cordão, produz alguns nós frouxos e o abençoa, fazendo mais uma oração, proferindo palavras num dialeto estranho. Já é quase metade do dia quando, juntamente com seu cão escudeiro, entra na canoa e joga o cordão na margem do riacho. Assustadoramente, o barbante salta por três vezes e se estica fortemente, apertando os nós. Vagarosamente, a canoa desce o rio, se deixando levar pela força das águas.

Enquanto isso, no vilarejo, os homens estão reunidos no armazém de José Vicente, bebendo e comentando a façanha do Preto Velho. Inconformado, o delegado ainda profere alguns xingamentos, deixando transparecer a sua raiva. De repente, engasga com a bebida e não consegue respirar. Com o rosto avermelhado, a pressão alterada, o coronel se debate, buscando o ar, que não encontra. Aos poucos, vai perdendo as forças, arqueia as pernas, desaba no chão e aquieta, sem vida. Ao meio dia, o sino da capela do vilarejo anuncia a morte de seu mais ilustre cidadão! O passamento desta vida para o outro plano é sempre triste, entretanto, neste dia, no vilarejo, ninguém chorou! Todos estavam admirados com a sagacidade do Preto Velho e com o poder de suas orações. O coronel recebeu o castigo merecido. Seu Lindolfo, satisfeito com o impacto que sua narrativa causara em seus ouvintes, finaliza seu conto com chave de ouro, dizendo:

Longe dali, o ocaso vem trazendo a escuridão da noite. No alto da copa de um velho pé de angico, os mais novos moradores do lugar, um casal de araras negras, se deleita com os encantos do entardecer. É dali que, felizes, a partir de agora, as araras saúdam as pompas do arrebol. Completando esse ambiente bucólico, no remanso das águas do riacho, uma canoa segue a vontade da corrente, levando consigo duas almas inquietas, sofridas, que buscam uma nova vida, um novo mundo onde reina a paz e a liberdade. Seu Lindolfo sempre terminava suas histórias deixando uma sombra de mistério no ar. Ora, perguntaram todos, se as araras são reais, como o Preto Velho chegou antes do Coronel lá no vilarejo? Essa é uma nova história que contarei numa outra oportunidade. Por hoje, ficamos por aqui!

Vez ou outra, sozinho, seu Lindolfo fixava o olhar num ponto qualquer e seus pensamentos vagavam pelo solo agreste do sertão, terra que o viu nascer. Assim, enquanto a saudade norteava seu peito, uma voz martelava em sua cabeça: --- Oh, Senhor meu Deus! Por mais que a saudade me aperte, voltar para o sertão já não dá mais! Sem arrependimentos, sou agradecido ao Senhor por ter me guiado até à hospitaleira Nerópolis, onde finquei raízes e realizei sonhos! Portanto, é considerável a ideia: Só voa alto quem não tem medo de cair.

Ranon Amorim
Enviado por Ranon Amorim em 12/12/2024
Reeditado em 22/12/2024
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