Dá o guimba aí, moreno!

Mundica bateu na janela, de madrugada:

- Tonho, o João cortou o pescoço com caco de vidro. Dá pra levá ele na Santa Casa?

Faz frio. O irmão, de férias, dorme no quarto que dá pra rua. Tonho, no chão, cortesia para o mano mais velho, que mora na capital.

O caso, de acordo com Mundica, era sério: corte no pescoço, é urgente, nada de esperar. E vizinho é pra essas horas.

Os dois irmãos se organizam. Tonho acorda o pai, explica a situação e pega a chave do carro. O mano dá a partida e logo param na frente da casa da Mundica, a uns cem metros dali.

O João desce com um pano em volta do pescoço. Teria tentado suicídio?

A saudação, em tom de general, é a mesma de sempre:

- E aí, moreno? Respeita o Figueredo. Seu irmão encontra comigo em Brasília todo dia no Palácio.

E olhando para o irmão do Tonho:

- É ou não é, moreno?

Não parecia preocupado. Entrou no carro sem cerimônia e sem gemido. Mundica diz "vai com Deus" e acena da janela, sorrindo com um dente só.

Carro a álcool precisa esquentar, mas a questão é a urgência. João - Figueredo para os íntimos - tem um corte no pescoço. Mundica enrolou um pano em volta da ferida, mulher de expediente. O enfermo vai deitado no chão do carro.

Partida autorizada. Saem do Beco, giram à esquerda, pegam a baixada do corgo, mas no Morro do Vinício o carro também morre. Carro a álcool, o motor não esquentou o suficiente, que maçada! Agora a pressa aumenta, vai que o João tá mal e nem sabe. Dizem que bebe todo dia, vai ver nem sente mais dor. O pior de tudo é que três caminhoneiros muito experientes moram em frente do local da barbeirada. São terríveis os três: quando estão de folga, ficam nas janelas "secando" os carros que passam na baixada do corgo. Na gíria local, estão "capando" os pobres motoristas. Sorte do irmão do Tonho: é madrugada fria, os "capadores" estão fazendo meia-noite.

Enquanto o irmão espera o motor esquentar, o Tonho distrai o João. Ele parece calmo, vê o Tonho fumando, faz o inevitável pedido:

- Me dá o guimba aí, moreno...

O Tonho não amarrou micharia: passou logo o pito pro João dar um trago. João tragou, levantou a bandagem, tragou de novo, levantou a bandagem, outro trago. Toda vez, a fumaça escapulia pela chaminé do pescoço.

No hospital, foi bem atendido pelo Dr. Ademir e logo pôde voltar pra casa. Mundica prometeu 100 vacas para o Tonho e 100 para o irmão. Esse, que não se preocupasse: iria recebê-las na capital federal.

Ela também não amarrava micharia.