NO CORREDOR DO IMBAUBAL - LEMBRANÇAS DA VIDA RIBEIRINHA

NO CORREDOR DO IMBAUBAL - LEMBRANÇAS DA VIDA RIBEIRINHA

Autores. Francisco Saraiva e Moyses Laredo

No corredor do imbaubal que lambia a margem do rio e se estendia por longos três metros, dava a impressão de que as imbaúbas estavam a se afastar do local onde haviam brotado e crescido, na verdade, era o próprio rio que avançava floresta a dentro em épocas das cheias.

Lembrança de desalagar a canoa gitinha (pequena) feita de um tronco só, que vivia afogada pra não rachar e ir pescar mandim de batição no corredor do imbaubal, melhor época a da cheia. Batição para quem não sabe, é o mesmo que assustar os peixes batendo n’água de dentro dos igapós para os baixios e lá, capturá-los na malhadeira, mas o jeito de batição desse pessoal, é diferente. Primeiro tem que guardar silêncio, é condição essencial para preservar o próprio silêncio que parecia fazer o rio adormecer, ao mesmo tempo, em que asseguraria que nenhum peixe se assustasse e escapasse, é como um rebanho de ovelha, quando uma vai por um lado, as outras tendem a segui-la e aí, o rebanho se dispersa, com os peixes é assim também, mesmo qualquer um que escapasse já fazia conta em cada prato.

A emoção que um menino criado nas barrancas do rio sentia quando chegava a época de pescar mandi, parecia contagiar a todos, a curuminzada saia das veredas das matas quase todos ao mesmo tempo e diante daquela época de fartura se reuniam para pescar. A vida fervilhava sob a batuta de um grande e invisível maestro, tudo era regido como numa sinfonia onde nenhum ruído ou som, ficava fora da pauta, uma coisa dependia da outra e assim as coisas aconteciam. Nos galhos das imbaúbas, viam-se macaquinhos soins, macaquinhos de cheiro, martim-pescador, galo-campina, bico-de-brasa e araçaris, portadores de olhares atentos a bom observar a movimentação, como sentinelas ativos que se reversavam imponentemente, naquele ambiente natural de paz e cores.

Já a pescaria de batição nos corredores do imbaubal é do jeito próprio, no período de subida das águas do rio é hábito em comum dos moradores ribeirinhos e dos tripulantes dos regatões que por ali passavam se dedicarem a pescaria.

Uma vara de pendão de canarana ou de galhos de árvores com envergadura apropriada, uma braçada e meia de linha de nylon fina, com um anzol pequeno encastoado na ponta, sem chumbada, compunham o apetrecho da pescaria de batição. Como isca, minhocas ou pirão de farinha feito com água morna, amassado na mão, igual como se faz o famoso "capitão", também para quem não sabe, é aquele bonequinho que a mãe da gente fazia com os dedos da mão, no feijão misturado com arroz e farinha juntando todos e amassando-os em pé no prato, ninguém resiste. Quando então, você já com tudo pronto, bate com o lombo do caniço ou melhor dizendo, “caniçava” a linhada, na superfície da água, o mandim ávido e arisco fisgava rápido, achando que estava diante de alguma fruta de imbaúba que havia se despencado na água como tantas outras.

Com doze ou quinze mandins gordos e erados (adultos) nadando, já sem os esporões habilmente retirados, na poça d’água lodenta do fundo do casco da canoa, os pescadores satisfeitos pegavam o nebuloso caminho de volta por entre as canaranas, com o almoço ou a janta garantida. Para um visitante eventual (turista), o regime dos rios, subida e descida das águas, altera a paisagem, onde outrora era uma curva não é mais, onde não dava passagem, hoje é via principal. Isso não abala o ribeirinho, porque em sua memória, o faro dita o rumo, sei dizer não, mas é praculá diziam eles, na mais absoluta certeza, pode puxar a remada de proa da canoa, pra onde virar a cabeça dele, aprumar a quilha na direção da subida do seu beiço, que vai dar lá certinho onde ele quer ir.

Na cozinha das casas ribeirinhas existe o fogão a lenha já ardendo, uma panela empretecida, com água borbulhando, já à ferver, com temperos próprios, o que tiver no jirau, é o chamado caldo branco como assim dizer, nada de cor, na espera dos peixes que pela facilidade em tratar. Um corte no bucho tripa fora, uma conchada de mão de água, retirado da cabaça de cima do jirau, tava lavado e pronto, é só “tchibum” pra dentro da panela. Como diziam, é peixe liso (de couro), não tem o que inventar. O mesmo acontecia nas cozinhas das popas das embarcações dos regatões, quase sempre existia um fogareiro chamado de gasol (querosene comprimido), a boia toda era preparada com pouco combustível, do mesmo jeitinho. Depois, pratos no assoalho, panela no meio, cuia de farinha ao lado e cada um por si, o bucho enchia rápido, a farinha d’água inchava e fazia o resto.

Impossível não sentir apertar o peito da saudade desse modo de vida simples, sem receio do amanhã, sabendo-se que nada haverá de mudar no lugar ao raiar do sol. Gente de fora não consegue aprender isso, “mais quando já”, no dizer do caboco. Isso é como as cantigas dos pássaros, já nasce com eles.

Molar e Francisco Saraiva
Enviado por Molar em 15/01/2023
Reeditado em 15/01/2023
Código do texto: T7695629
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