A NOTA PROMISSÓRIA
 

Sempre que havia eleição, papai era convocado para trabalhar. Foi muitas vezes mesário e, em outras tantas ocasiões, esteve envolvido com a apuração dos votos.

A tarefa começava assim que a votação era encerrada, as urnas lacradas e levadas ao Clube Sete de Setembro, perto de nossa casa. Os trabalhos se prolongavam noite adentro e, às vezes, mais que um dia era necessário. Colocavam uma espécie de cerca separando os que contavam os votos, do público ansioso, candidatos e apoiadores. Policiais e fiscais ficavam vigilantes. Às vezes havia brigas e algum tumulto que era logo abafado tirando-se os contendores para fora do clube.

Papai relatava que durante uma contagem de votos, um papelucho bem dobradinho foi encontrado em uma urna. Ao ser aberto, viram tratar-se de uma Nota Promissória de um certo Sr. Possidônio Camargo que ninguém conhecia. Alguém ergueu o documento e chamou por seu proprietário. Do meio do público saiu o irmão de meu avô Antonio Camargo, que na cidade todos conheciam por Tabinho. Ele foi até lá na frente apanhar o documento que havia colocado na urna por engano, e explicou:

“Aqui todos me conhecem como Tabinho mas meu nome científico é Possidônio!”

O tio de mamãe, Tabinho, era figura folclórica na pequena cidade e muito lembrado por alguma trapalhada ou fato engraçado.

Em outra ocasião, no centro da cidade encontrou o sobrinho Nelson que trazia o filho Milton pela mão. Milton era um molecote franzino, muito magrinho. Tio Tabinho foi logo dizendo:

“O Nerço! Você não dá comida pra esse guri?”




 
Aloysia
Enviado por Aloysia em 14/02/2020
Reeditado em 14/02/2020
Código do texto: T6866233
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