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Zorro erótico

Praticamente toda semana lá estavam eles reunidos, sempre no mesmo hotel de Barra Mansa. Eram os vendedores e representantes das empresas que atendiam aos clientes da região.
Com o passar do tempo mais parecia uma grande família. Todas as noites, após o jantar, por volta das nove horas, a porta do hotel era o local ideal para um tradicional bate papo. Descontraía-se a tensão de um dia de trabalho, atualizava-se as novidades sobre os clientes, traçava-se planos e estratégias para no dia seguinte quebrar barreiras impostas por compradores e proprietários. Mas nem tudo era só seriedade.
Luiz, um dos vendedores, tinha o hábito de falar muito alto pelas dependências do hotel, fosse a hora que fosse. Quase todo dia, aos gritos deixava versos no ar ou então cantava algum sucesso do momento. Sem contar que, se precisasse de alguma informação de um colega que estivesse no aposento ao lado do seu, gritava de onde estava para que o outro respondesse. Contrariava dessa forma as normas do hotel que exigiam silêncio total.
Quando isso acontecia, Dona Judith, uma solteirona rabugenta de quarenta anos, irmã do dono do hotel e uma espécie de gerente do local, ligava imediatamente da portaria para o apartamento de Luiz para chamar-lhe a atenção. Quando não era atendida, ia pessoalmente até onde ele se encontrava e aí sim passava-lhe uma descompostura. Lá da porta do hotel eram ouvidas a bronca, bem como a gargalhada matreira do vendedor.
Num dia, Luiz avisou a todos que iria fazer uma molecagem tão grande que deixaria Dona Judith de cabelos em pé. Com essa divulgação antecipada, ninguém quis perder o acontecimento. Por volta das seis horas da tarde todos já estavam na portaria do hotel a postos.
Dona Judith estranhou a presença deles ali naquele horário. Talvez já prevendo o que poderia acontecer, estava agitadíssima e implicava com todo mundo.
Luiz chegou, passou pela portaria e cumprimentou seriamente a todos, inclusive a Dona Judith. Não parou e subiu para seu apartamento.
Não demorou nada e dali da portaria pôde ser ouvido a cantoria de Luiz no banheiro tomando banho.
Dona Judith controlou-se e não ligou.
Fez-se silêncio. De repente lá estava Luiz declamando novamente seus versos em alto tom. Dava para perceber que o som vinha agora do corredor superior do hotel, e não mais de seu apartamento. Sua voz ora estava próxima à escadaria, ora vinha do fundo do corredor.
Dona Judith não se conteve. Ligou, mas não foi atendida.
A declamação continuava cada vez mais alta.
Nova tentativa de Dona Judith, mas não foi atendida. Resolveu ir pessoalmente acabar com aquela gritaria infernal.
A turma de vendedores continuou na portaria, impassiva, aguardando o desfecho de tudo aquilo. Para surpresa geral viram Dona Judith voltando às pressas. Estava sendo perseguida por Luiz, totalmente pelado, com a toalha de banho amarrada ao pescoço, uma máscara negra nos olhos e com a vassoura na mão gritando:
- Eu, o Zorro Erótico, vou acabar com o seu mau humor, e vai ser agora!
Gargalhada geral, mas a brincadeira custou-lhe a expulsão do hotel.
Fernando Antonio Pereira
Enviado por Fernando Antonio Pereira em 14/10/2019
Código do texto: T6769629
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Fernando Antonio Pereira
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 71 anos
1085 textos (6660 leituras)
4 e-livros (173 leituras)
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Fernando Antonio Pereira