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UM HOMEM MUITO RICO

O homem acordou assombrado. O pijama de linho francês estava colado no corpo pelo suor. Não levantou, ficou sentado na ponta da cama de madeira de jacarandá. Tentava assimilar as ideias. Deu uma olhada no relógio de parede: duas e quinze da manhã, já era domingo. Respirou fundo. Lembrou que estava sozinho. A esposa viajara para visitar os filhos que estudavam na capital, Salvador.
Era conhecido por Coronel Lemos, Afonso Rodrigues Lemos. Era um homem considerado o mais rico do país, segundo jornais e seus contadores, dois em Itabuna e três em Salvador.
Coronel Lemos tinha quarenta fazendas de variadas culturas: cacau, soja, gado de corte e gado de leite. Casas em várias cidades da Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro. Um homem deveras milionário. Havia comprado um prédio de apartamentos residenciais na cidade de Nova Iorque.
Mas, o Coronel não gostava do que havia sonhado naquele domingo. Nem gostara de saber que sua esposa, Dona Alice, não estava ao seu lado para dar-lhe um apoio de esposa amada.
Morava na sede da fazenda em Itabuna, onde plantava cacau e criava gado leiteiro. Levou alguns minutos até chegar à grandiosa cozinha e foi beber um copo d’água e tomou um delicioso chocolate quente. Era um homem bem discreto, poderia chamar a criadagem, mas preferiu não incomodarem pela hora. Queria também ficar sozinho.
O administrador da fazenda morava ao lado, entrou no escritório do casarão e viu a presença do coronel, sentado diante da imensa biblioteca e com um ar pensativo. Ainda estava vestido com o pijama. Seu Jordão se assustou e perguntou com um tom cerimonioso ao patrão, o quer fazia tão cedo num domingo no escritório e ainda de pijama.
Ele mandou que o sentasse e o escutasse:
-  Jordão! Tive um pesadelo e não gostei de nada do que vi!
O cidadão o olhava e o escutava com bastante atenção.
-  O coronel pode me dizer o que foi?
Num breve instante o lugar silenciou-se e o cantar dos pássaros lá fora adentrava na biblioteca assim como os tímidos fios de sol matinal, pois uma das imensas janelas estava aberta.
Coronel Lemos relatou com detalhes ao Jordão, seu amigo e administrador de metade das fazendas, o idílico sonho nefasto.
Jordão levantou da cadeira forrada de camurça verde e parou na janela. Observava o horizonte quase infinito da plantação de cacau, aquela paisagem verdejante - amarelada dos cacauais e as dezenas de barcaças abarrotadas de amêndoas secando ao sol. Mesmo num domingo havia trabalhadores na fazenda debulhando o fruto precioso.
O cuco do relógio da biblioteca e também escritório do coronel batia dezessete horas. Lá estava ele, seu Jordão, dois contadores e o filho mais velho, Abílio.
A reunião iria começar. Abílio folheando um livro esperava o pai primeiro explicar o motivo daquilo num domingo tranquilo e fresco do mês de agosto.
- Quero dizer a todos que pretendo mandar trazer de Salvador e de São Paulo todo o meu dinheiro para ser contado.
Os rostos deles, menos Jordão, que já sabia, ficaram horrorizados com aquela fala. Mas ele iria argumentar o porquê daquela razão.
- Essa madrugada eu tive um pesadelo, meus amigos. Sonhei que toda a minha fortuna havia sumido, desaparecido, tudo, tudo. Estava sozinho no meio da cidade pedindo esmolas, minha barriga roncando de fome, eu suava, eu chorava, soluçava qual criança sem presente no Natal. Então, disse ao Jordão de manhã: quero contar todo o meu dinheiro que estão depositados em todos os bancos.
Abílio chegou perto do pai, sentou-se ao seu lado e com certo receio começou a falar:
- Meu pai. Foi um sonho. Nada real. Não tem precisão fazer isso, papai. A gente pede aos contadores amanhã, fazerem uma auditoria, e pronto! Passa ao senhor todo o montante.
O coronel ficou em pé e olhando um por um clamou com exatidão:
- Exijo que meu dinheiro seja colocado em um avião cargueiro e trazido imediatamente para meu galpão em Ilhéus! – Falava batendo o dedo indicador no móvel em sua frente.
Ele era um homem muito austero. Mas esse sonho o fez ficar amedrontado. E ninguém conseguiu tirar de sua cabeça essa ideia e foi imediatamente confirmado. Os contadores de Salvador na manhã seguinte levaram as ordens do coronel Lemos aos oito bancos que havia na capital baiana e na terça viajaram para São Paulo e o mesmo argumento fora dissertado aos gerentes e banqueiros.
Na quarta-feira numa tarde chuvosa de agosto dois aviões aterrissaram em Salvador vindo de São Paulo, não tinha como eles chegarem em Ilhéus, havia um terreno num local chamado Pontal, mas  aviões de grande porte não poderiam ir para aquela localidade, faltava asfaltar o trajeto. O coronel gastou algumas arrobas de cacau para trazer todo esse esquema.
Ele pessoalmente junto com todos seus capatazes, peões, gerentes, foram para a capital contar cédula por cédula. Levaram cinco dias para terminar a contagem do dinheiro milionário do coronel Lemos. Quando ele viu que havia dinheiro o bastante e observando o cansaço de todos, mandou devolver aos bancos o vil metal.
Passou-se um dia e foi entregue na sede da fazenda um telegrama:
“ASPAS CORONEL LEMOS PONTO AVIÕES CAIU NO OCEANO PONTO DINHEIRO SUMIU PONTO MORRERAM TODOS PONTO LAMENTAMOS ASPAS PONTO”
A imagem foi impressionante. O telegrama nas mãos do coronel tremulava com o forte vento vindo do sul pela varanda do casarão. Ele sentado na cadeira de balanço, frio, estático, morto por um fulminante ataque cardíaco...
Ouvia-se uma voz grossa entrando pelos ouvidos de um jovem:
- Lemos! Lemos! Acorde cabra! Tá na hora do trabalho.
Era Alceu, colega de trabalho do jovem trabalhador rural Afonso Lemos.
- Rapaz, eu estava sonhando. Parecia que eu vivia aquele momento.
Alceu entregou a enxada e uma pequena foice ao Lemos e rindo foram adentrando na fazenda de cacau do Coronel Ramiro Braga, rico fazendeiro de Ilhéus.
- Sonhou o quê ? Camarada?
- Que eu era rico, muito rico e toda essa fazenda era minha, e eu era dono de quase toda a Bahia...
- É amigo, sonhar não custa nada.
E estavam sentados debaixo de um imenso pé de Pau-Brasil, quebrando o cacau e jogando a polpa numa lona esverdeada igual a camurça.



                                                                 







LUCIANO CORDIER
Enviado por LUCIANO CORDIER em 12/10/2019
Reeditado em 12/10/2019
Código do texto: T6767624
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
LUCIANO CORDIER
Itabuna - Bahia - Brasil, 44 anos
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LUCIANO CORDIER