Yo Soy Rebelde

Houve um tempo em que ser rebelde não era uma novela sobre adolescentes riquinhos com problemas de relacionamentos. Ser da mesma sala de aula, por quase oito anos, era praticamente uma irmandade já. Todo mundo sabia onde todo mundo morava, iam sempre às mesmas festas, conheciam todos os prós e contras da sala, eram cúmplices dos mesmos crimes e por aí vai. Mexer nesta estrutura familiar significaria problema.

Em meados de outubro, vários alunos estavam apertados para passar de ano e finalmente se graduarem no Ensino Médio. Havia casos em que de 30 pontos, eles precisavam de 27. E como estes alunos já têm mais dificuldade, seria praticamente impossível que eles conseguissem. Pensando no aprendizado dos alunos, a direção decidiu separar todas as seis turmas do terceiro ano e classificá-los por notas, para pode trabalhar assim de maneira diferenciada em cada turma.

Uma medida pedagógica até aceitável, mas não faltando três meses para a formatura. Isso era inadmissível! Você passa oito anos da sua vida convivendo com praticamente as mesmas pessoas, para chegar na última curva antes da reta final e ter que gravar as suas últimas lembranças da vida escolar com pessoas que você mal conhecia? Nenhum aluno do terceirão aceitaria isto.

Indignados com a prática, os alunos esperaram ver que a mudança realmente acontecera para começarem a planejar uma rebelião. Uma estudante chamada Nayara começou a liderar a força rebelde da escola para que algo fosse feito para deixarem as turmas como estavam. Um representante de cada turma tentou falar com a direção, mas esta não ouviu os estudantes e não quis voltar atrás em sua decisão.

Afoitos com a situação e querendo farrear, os alunos tomaram uma decisão rebelde: ninguém iria assistir aula até o momento em que as turmas voltassem ao original. Os dois primeiros dias foram uma maravilha! Todo mundo farreando nas quadras, ninguém na sala de aula, jogatina esportiva a manhã inteira e muita diversão. A direção da escola não sabia o que fazer para reverter a situação e trazer os alunos de volta para a classe. Professores mais terroristas tentaram comprar os alunos com provas surpresas e trabalhos avaliativos, mas os nerds já haviam passado no terceiro bimestre e os que não passavam já estavam conformado com as dependências, então não adiantou porcaria nenhuma.

No terceiro dia de greve, já estava até dando vontade de matar a quadra e assistir um pouco de aula, mas a força rebelde falou mais alto e os alunos desmotivaram-se rapidamente e voltaram a prática desportiva. Para piorar a situação, os grevistas não podiam deixar de convocar a imprensa, esta que compareceu prontamente. Achando que o motivo da rebelião era grave, eles devem ter ficado desapontados quando descobriram que não passava de uma birra de alguns menininhos que haviam sido mudado de sala.

No quarto dia, a direção já estava com bastante raiva dos alunos e decidiu passar pra agressão verbal e para ameaças do tipo “ou vocês voltam pra sala de aula agora ou serão expulsos da escola e perderão todo o ano letivo!”. Leiga ameaça. A peteca continuava saltando de um lado para outro, raquetes agrediam bolas de tênis, a bola de vôlei cruzava a rede e as salas de aula continuavam vazias.

No quinto dia, alguns desertores começaram a assistir aula: “O vestibular está chegando, preciso da aula de História para me dar bem no exame”. Este cara está trabalhando em uma fábrica de costura. “Nossa, o Saulinho de Química vai dar trabalho, preciso de ponto para passar”. Atendente numa loja de roupa. “Ai gente, vai que eles expulsam a gente né, já cansei de ficar aqui na quadra de bobeira”, do lar.

Outros permaneciam firmes na decisão: “Todos os meus amigos estão aqui, só volto quando nos botarem na nossa sala antiga”. Sargento do Exército. “Estou pouco me lixando pra pontos e pra notas, quero é aproveitar meu último bimestre como estudante”. Aluno cursando mestrado em engenharia. “Fuck the system!” Médico.

Mas pouco a pouco a coisa foi apertando. Vários traíras começaram a ceder às ameaças feitas pelos professores e voltaram para as salas de aulas, com o intuito de aprender em dois meses o que eles deixaram de aprender durante onze anos. Sem opção, o grupo rebelde começou a desistir da birra e resolveu aceitar a medida pedagógica, porém com uma última condição: Queremos uma festa de formatura conjunta com todas as seis turmas e nas fotos do convite de formatura gostaríamos de sair na foto com nossa turma antiga.

A greve a princípio não teve resultado nenhum e todos saíram derrotados, mas o que aconteceu foi estranho e bonito. O bloqueio que o povo tinha contra novas amizades foi quebrado e a interação entre todas as seis turmas aumentou de força exponencial. A festa foi épica, mas isto é caso para outro causo.

Lalinho
Enviado por Lalinho em 09/03/2016
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