A volta da mulher de pijama listrado

A quem duvide que Inácia, mas conhecida como a mulher de pijama listrado, esteja de fato, viva. A cidade de Mutuípe, no interior da Bahia, ficou em alvoroço com a sua volta. Alguns moradores evitavam passar próximo às suas terras com receio de dar de cara com a tal “assombração”. Inácia retornou a sua cidade depois de longo período escondida na mata, quando foi obrigada a fugir de suas terras por conta de fazendeiros que expulsaram seus familiares de lá.

Inácia, mulher guerreira, que não foge da luta, ficou aguardando, pacientemente, o dia do seu retorno.

Numa noite de lua cheia e com ventos fortes, ela decide voltar. Para Inácia, a lua e o vento têm significados muito fortes: a lua clareia os caminhos e remete força, determinação e mudança, controla as marés, divide o dia da noite; já o vento leva para longe todas as tristezas, desesperos e renova a certeza de um recomeço.

Foram nesses elementos, a lua e vento, que ela retornou a Mutuípe e começou a colocar a sua fazenda em ordem. O primeiro passo foi dar um novo nome a sua fazenda, antes conhecida como Fazenda Ribeirão. O nome escolhido por Inácia para o recomeço foi Fazenda Boa ventura. Ela escolheu o nome por que remetia aos elementos no qual ela se inspirava: a lua e o vento.

Foi numa manhã com o céu claro, que Inácia contratou alguns peões para realizar o plantio de cacau em suas terras. Por se tratar de uma região com o clima agradável e favorável ao plantio de cacau, ela deu início a sua plantação. Alinhado a plantação de cacau, ela também diversificou plantando bananas, pois na visão e experiência que ela tinha, era melhor plantar duas frutas do que esperar que apenas uma Florença. A felicidade estava completa! Inácia também se casou nesse período. O seu marido, João, era seu companheiro na lida do dia a dia.

O encontro de Inácia com João foi de forma ocasional, exatamente na noite em que ela decidiu reaver suas terras. João estava fazendo trilhas na região quando se perdeu do grupo e andou em círculos por longas horas até avistar ao longe uma fazenda e decidiu pedir ajuda.

Ao chegar na fazenda, ele viu o fazendeiro e sua família correndo desesperados. Ao darem de cara com João, gritaram:

-Foge, foge! Que a assombração está solta, ela quer a alma dos vivos!

Não deu outra: ao dar de cara com a tal assombração, João vendo aquela linda mulher, viçosa com lindos cabelos negros, de pele negra, olhos grandes e expressivos, sorriso largo, ficou encantado com tanta beleza. Aproximou-se dela e lá ficou. Na verdade, ele não estava perdido! O destino caprichou para que Inácia e João eternizassem o seu amor.

As pessoas do pequeno vilarejo, com o passar do tempo, vendo Inácia frequentar a cidade com seu marido, começaram a acreditar que de assombração ela não tinha nada. Ela mostrou para toda da cidade a força da mulher guerreira que não se curva às derrotas e aposta na superação para um novo recomeço. Ela passou a ser admirada por todos da cidade por ter conseguido superar seus traumas, seus medos e fazer de sua história um exemplo a ser seguido: nunca desistir diante dos obstáculos à sua frente, pois o tempo é senhor de tudo, a lua ilumina os caminhos e o vento leva tudo trazendo vida nova, renascendo e reconstruindo.

ELISETE SOARES MOREIRA

Elisete Soares Moreira
Enviado por Elisete Soares Moreira em 12/05/2014
Reeditado em 24/07/2022
Código do texto: T4804284
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