Oi, Rosa!
— Seu Rosa morreu!
Anunciou Nenzinho, ao entrar pela porta da Vendinha. Todos os olhares se convergiram para ele, esperando a complementação da notícia.
— Morreu — repetiu e, completou: — Inda' gorinha! O bererê nem chegou, mode levá o corpo.
— Diabos! Morreu de que? — Interferi.
— Uai, Seu Zé! Derrepente, sô! O home tava bão, armuçou, tirou a soneca da tarde e dispois, morreu!
Em instantes todos os presentes comentavam a morte de Seu João. De meu lado do balcão, fiquei assuntando o falatório, tentando entender o ocorrido que, aliás, não tinha muito que entender! O velho morrera porque chegou sua hora. Isso era inevitável. Contudo, havia algo com aquele homem que muito me intrigava: A questão do apelido. Por que Seu Rosa, se ele se chamava João Modesto?
— Intão o sinhô num sabe, Seu Zé? — Respondeu Nenzinho, quando lhe perguntei o porquê da alcunha.
— Ora, isso é coisa antiga, home!
— É mesmo! — emendou Seu Tinoco, que ouvia o diálogo, ansioso para entrar na conversa.
Seu Tinoco é frequentador contumaz aqui da vendinha. Entretanto, diferentemente do outros frequentadores, ele é um homem erudito. Mascate de profissão, já disse antes, que há muito tempo se aposentou e guardou a mala, vindo, como eu, fixar residência por essas bandas retornando às raízes.
— Me admira, Seu Zé, o senhor não saber dessa história!
— Como ia saber Seu Tinoco! Se ninguém nunca me contou?
— Pois eu lhe conto! — Falou, puxou o banquinho e se assentou à minha frente, do outro lado do balcão.
— A coisa aconteceu faz muito tempo — começou ele. Naquela época Seu João era moço e a vila em torno da estação tinha muita gente. Ferroviários, comerciantes, fazendeiros e peões, além da gentalha que completava a corruptela. Um movimentão que só vendo! O trem de passageiros ainda era o principal meio de transporte que existia na região.
Seu João Modesto, nessa época, trabalhava na ferrovia, como a maioria dos moradores. Tinha cargo importante e era muito respeitado, até que caiu em desgraça!
— Caiu em desgraça? Como foi isso, homem?
— Pois é, para ir da estação, onde trabalhava, até em casa, Seu João passava, diariamente, na porta da casa de Damasceno, o capataz da Fazenda Santo Antônio e Almas, e D. Rosa, sua esposa, estava sempre à janela. Era uma mulher vistosa, de seios fartos, que ela deixava parcialmente à mostra, em audaciosos decotes. Seu João passava, cumprimentava a mulher, respeitosamente, ela respondia com um sorriso e ele seguia seu caminho. Isso, no início. Porque, com o tempo, o homem foi tomando liberdades e logo substituiu o cerimonioso D. Rosa por um simples — Oi, Rosa! — Acompanhado de um guloso e descarado olhar para o decote generoso. A coisa foi se tornando notória e as línguas maledicentes começaram a tecer comentários. Os próprios companheiros de João, na Ferrovia, alertaram-no do perigo iminente:
— Cuidado, João! Damasceno é um homem violento.
— Que nada — respondia. — Ela tá gostando! Qualquer dia eu entro, para um café...
Na véspera do acontecido, ao passar, João cumprimentou-a com o costumeiro — Oi, Rosa! Ela lhe sorriu e ele, achando que chegara a hora de ir além do cumprimento, parou e tentou entabular uma conversa. D. Rosa, sabedora dos comentários que corriam na Vila, foi gentil, mas, tentou encerrar a prosa logo no início. João insistiu. Tentou, de todas as formas, persuadir a mulher e ela, sem alternativas, recolheu-se ao interior da residência. Sentindo-se ofendida, na mesma noite, queixou-se ao marido. Damasceno coçou o queixo, pensou um pouco e depois disse:
— Amanhã, se ele se meter a besta de novo, convida-o para entrar e leva para o quarto.
Na tarde seguinte, a mesma cantilena. Seguindo as orientações do marido, D. Rosa convidou João para entrar e levou-o para o quarto. Pediu a ele para se preparar e, a pretexto de também se arrumar, saiu do quarto. Pressentindo que chegara a hora tão almejada, o pobre diabo tirou toda a sua roupa e se deitou na cama do casal. Minutos depois, a porta se abriu e, no lugar de D, Rosa, entrou Seu Damasceno, com um chicote na mão — Foi uma surra de curar com salmoura! Para arrematar, Damasceno ainda pegou o conquistador e atirou-o porta a fora, no estado em que veio ao mundo.
Essa é a história, Seu Zé. As feridas da surra se curaram, mas, Seu João Modesto, além de perder o respeito, ganhou a alcunha que o acompanhou pelo resto da vida:
— Oi, Rosa!