A transferência
Nos idos dos anos cinquenta uma das profissões de destaque na sociedade era a de funcionário do Banco do Brasil. Além da segurança no emprego o salário era bastante compensador permitindo um padrão de vida invejável. Geralmente após ser aprovado num concurso público o candidato era nomeado para o cargo inicial de escriturário e destacada para exercer as suas funções numa das inúmeras agências localizadas nas cidades distantes da capital do Estado. Somente após dois anos de efetivo exercício o funcionário teria o direito de solicitar a sua transferência para cidades mais próximas com melhor infra-estrutura desde que houvesse vaga em disponibilidade. Desse modo, uns se adaptavam completamente nas pequenas cidades do interior; constituiam família e lá permaneciam até completar o tempo necessário para sua aposentadoria. Enlquanto outros, talvez mais ambiciosos, conseguiam transferência para as capitais.
Assim fora o caso de Leovigildo. Rapaz inteligente, desprendido e dotado das mais justas ambições para galgar cargos de destaque, inicialmente fora encaminhado para desempenhar as suas funções numa cidadezinha do interior numa agência inexpressiva. Após o cumprimento do estágio probatório e à medida que fora se destacando dos demais colegas e angariando, dessa forma, a simpatia dos seus superiores hierárquicos Leovigildo conseguiras sucessivas para cidades maiores, culminando com o cargo de gerente numa das agências da capital do Estado.
Casado já há algum tempo; pai de dois filhos adolescentes cursando faculdade; detentor de um largo círculo de amizade, de repente se viu surpreendido pela sua transferência para uma cidade do sertão do Piauí. Transferência essa que no seu entender se dera em razão da antipatia e do despeito que um dos Diretores do Banco nutria por ele.
Altamente decepcionado, Leovigildo chega em casa e comunica a sua mulher e filhos a razão do seu profundo descontentamento que não pudera esconder, estabelecendo-se um clima de sentida tristeza no seio da família. No entanto, acreditando que a noite é a melhor conselheira, foi dormir e logo no dia seguinte resolve solicitar aposentadoria e, desse modo, frustrar aquele Diretor da sua satisfação mórbida. Para sua decepção ainda faltavam alguns anos para completar o tempo necessário ao seu intento. Restando-lhe, unicamente, cumprir a determinação superior.
No sentido de evitar maiores transtornos, a família de comum acordo resolveu permanecer onde se encontrava enquanto que Leiovigildo viajaria sozinho até que os ânimos se acalmassem e ele conseguisse reverter a situação. Assim foi feito.
Após as despedidas de praxe tão comuns nessas ocasiões, Leovigildo viajou para o sertão do Piauí se instalando numa pousada, por sinal a melhor que encontrara apesar da sua precariedade e da falta de conforto ao qual se habituara como funcionário graduado do referido Banco.
Reiniciando as suas atividades profissionais na agência bancária local, à medida que os meses iam passando e tendo em vista a sua capacidade de angariar novas amizades, logo estabeleceu um largo círculo de relacionamento. Quase que diariamente era convidado por casais amigos para reuniões, festas, sobretudo nos finais de semana. Mas, apesar de uma vida social intensa a saudade da mulher e dos filhos ia se tornando cada vez maior. Muito embora, diante da atenção e do carinho que lhe eram dispensados, jamais se acontumara a culinária local cujo prato principal era composto por carne de bode. Por se tratar de uma rigião incrustada no sertão nordestino onde a inclemência da seca a castigava por anos seguidos, o único tipo de pecuária adaptável era a de caprinos. Assim, em todos os eventos para os quais era convidado, lá estava a carne de bode sob as mais variadas formas: bode assado; churrasco de bode; bode guisado ao leite de côco enfim, sempre a carne de bode pela qual mantinha profunda aversão.
Certo dia, tomando conhecimento da aposentadoria daquele Diretor que lhe impusera semelhante vexame, Leovigildo conseque através das suas amizades reverter aquela sua transferência e retornar à sua cidade de origem. Desnecessário enfatizar a alegria que se apossara da família após longos meses de exílio.
Ao tomar conhecimento da transferência de Leovigildo, seus novos amigos resolveram homenageá-lo oferecendo-lhe um almoço de despedida na melhor e mais bem frequentada churrascaria, tendo a carne de bode como seu prato principal. Poucos dias antes do evento, Leovigildo solicitou ao proprietário da referida casa de pasto permissão para afixar uma placa nas suas dependências como forma de deixar gravada sua imorredoura gratidão diante de tão calorosa hospitalidade. Permissão obtida, ficara acertado que o descerramento da citada placa somente se daria após algumas horas de iniciada a viagem de regresso. Desse modo, encerrado os discursos de despedidas, fato característico em ocasiões assemelhadas, Leovigildo alegando sua grande sensibilidade a esse tipo de homenagem e levando em consideração ser dotado de profunda emotividade, solicita permissão para se retirar, tendo antes solicitado a mulher do Prefeito que procedesse o descerramento da placa. E assim foi feito.
Sem esconder a emoção, os presentes se acercaram do local determinado e uma vez exposta, lá se encontrava gravado:
Nos dias que por aqui fiquei,
De fome vários quilos perdí,
No sertão dessa terra distante,
Jamais carne de bode comí
Adeus Piauí velho,
Nunca mais me verás tú,
Criei ferrugem nos dentes,
E teia de aranha no cú.